Maria diz:
â Eu te havia prometido que Ele te traria a paz. EstĂĄs lembrada da paz que havia em ti nos dias do Natal? De quando me vias com o meu Menino? Aquele era o teu tempo de paz. Agora Ă© o teu tempo de sofrimento. Mas tu o sabes. Ă no sofrimento que se conquista a paz e toda graça para nĂłs e o prĂłximo. Jesus-Homem revelou-se Jesus-Deus, depois do tremendo sofrimento da PaixĂŁo. Revelou-se como a Paz. Paz no CĂ©u, do qual Ele tinha vindo, derramada sobre aqueles que no mundo o amam. Mas, nas horas da paixĂŁo, Ele, a Paz do mundo, foi privado dela. NĂŁo teria sofrido, se tivesse tido a paz. Mas devia sofrer. Sofrer de modo completo.
29.7 Eu, Maria, redimi a mulher com a minha maternidade divina. Mas isso nĂŁo foi mais que o inĂcio da redenção da mulher. Negando-me a quaisquer esponsais pelo voto de virgindade, eu tinha rejeitado todo prazer de concupiscĂȘncia, e merecido a graça de Deus. Isso, porĂ©m ainda nĂŁo bastava. Porque o pecado de Eva era uma ĂĄrvore de quatro ramos: soberba, avareza, gula e luxĂșria. Todos os quatro deviam ser cortados, a fim de esterilizar a ĂĄrvore desde as raĂzes.
29.8 Humilhando-me profundamente, eu venci a soberba.
Humilhei-me diante de todos. NĂŁo estou falando da minha humildade para com Deus. Esta Ă© devida ao AltĂssimo por toda criatura. O Verbo de Deus a teve. Eu, uma mulher, a devia ter. Mas terĂĄs jĂĄ refletido por quantas humilhaçÔes da parte dos homens eu tive que passar, sem me defender de modo nenhum? AtĂ© JosĂ©, que era justo, me havia acusado em seu coração. Os outros, que nĂŁo eram justos, tinham pecado por murmuração a respeito do meu estado, e o baruÂlho dessas palavras veio, como uma onda amarga, quebrar-se contra a minha natureza humana.
Foram estas as primeiras das infinitas humilhaçÔes que a minha vida, como mĂŁe de Jesus e do genero humano, me fizeram sofrer. HumilhaçÔes de pobreza, humilhaçÔes de uma fugitiva, humilhaçÔes pelas censuras dos parentes e amigos que, nĂŁo sabendo a verdade, julgavam fraco o meu modo de ser mĂŁe para com o meu Jesus, quando Ele se tornou jovem. HumilhaçÔes durante os trĂȘs anos do seu ministĂ©rio, humilhaçÔes cruĂ©is na hora do CalvĂĄrio, humilhaçÔes atĂ© em ter que reconhecer que eu nĂŁo tinha com que comprar o lugar e os aromas, para a sepultura do meu Filho.
29.9 Eu venci a avareza dos Progenitores, renunciando antecipadamente ao meu Filho.
Uma mĂŁe nĂŁo renuncia nunca ao seu filho, a nĂŁo ser que seja forçada. Se essa renĂșncia for solicitada ao seu coração pela PĂĄtria, pelo amor de uma esposa, ou atĂ© pelo prĂłprio Deus, ela sente o desejo de insurgir-se contra a separação. Ă natural. O filho cresce em nosso ventre, e nunca Ă© completamente cortada a ligação que sua pessoa tem com a nossa. Mesmo depois de cortado o canal vital que Ă© o cordĂŁo umbilical, sempre fica um elo espiritual, que nasce no coração da mĂŁe, mais vivo e sensĂvel do que um elo fĂsico, o qual se introduz no coração do filho, esticando atĂ© Ă dor, se o amor de Deus, de uma criatura, da PĂĄtria afasta o filho da prĂłpria mĂŁe. Este elo se despedaça, dilacerando o coração, se a morte arrebata o filho de sua mĂŁe.
Eu renunciei ao meu Filho, desde o momento em que O tive. Dei-O a Deus. Dei-O a vĂłs. Eu me despojei do Fruto do meu ventre, para reparar o furto cometido por Eva, do fruto de Deus.
29.10 Eu venci a gula, tanto do saber como do gozar, aceitando saber unicamente o que Deus queria que eu soubesse, sem perguntar a mim mesma nem a Ele nada mais, alĂ©m do que foi dito. Acreditei sem investigar. Venci a gula do gozar, porque neguei a mim mesma todo sabor de sensualidade. Pus minha carne debaixo dos meus pĂ©s. Confinei a carne, instrumento de satanĂĄs, colocando satanĂĄs debaixo de meu calcanhar, a fim de fazer da carne um degrau para aproximar-me do CĂ©u. O CĂ©u! Ele era a minha meta. Era lĂĄ que estava Deus. Deus, a minha Ășnica fome. Fome esta que nĂŁo Ă© gula, mas sim, necessidade abençoada por Ele, o qual quer que a tenhamos.
29.11 Eu venci a luxĂșria, que Ă© a gula, convertida em voracidade, porque todo vĂcio nĂŁo contido conduz a um vĂcio maior. A gula de Eva, alĂ©m de reprovĂĄvel em si mesma, a conduziu Ă luxĂșria. NĂŁo lhe bastou procurar a satisfação sozinha. Quis levar o seu delito atĂ© uma refinada intensidade, conhecendo e se fazendo mestra de luxĂșria para o companheiro. Eu inverti os termos e, em lugar de descer, sempre subi. Em lugar de fazer descer, eu sempre atraĂ para o alto, e do meu companheiro, um homem honesto fiz um anjo.
Agora que eu possuĂa Deus, e com Ele as Suas riquezas infinitas, apressei-me a despojar-me delas, dizendo: âQue seja feita a tua vontade para Ele e por Eleâ. Casto Ă© aquele que se auto contĂ©m, nĂŁo sĂł na carne, mas tambĂ©m nos afetos e nos pensamentos. Eu devia ser a casta, para anular a impudica da carne, do coração e da mente. NĂŁo saĂ da minha reserva, para dizer a respeito do meu Ășnico Filho na terra e Ășnico Filho de Deus no CĂ©u: âEle Ă© meu, e eu O quero.â
29.12 Contudo, isso nĂŁo bastava para obter para a mulher, a paz perdida por Eva. Aquela paz eu vo-la obtive aos pĂ©s da Cruz. Ao ver morrer Aquele que tu viste nascer. Ao sentir minhas entranhas sendo arrancadas, ao grito do meu Filho que estava morrendo, fiquei vazia de todo feminismo: nĂŁo mais carne, mas anjo. Maria, a virgem desposada com o EspĂrito, morreu naquele momento. Ficou a mĂŁe da graça, aquela que do seu tormento gerou e vos deu a graça a Graça. O gĂȘnero da mulher que eu tinha voltado a consagrar na noite de Natal, aos pĂ©s da Cruz conseguiu se tornar criatura dos CĂ©us.
Fiz isso por vĂłs, negando-me qualquer satisfação, ainda que santa. Eu fiz de vĂłs, se o desejais, santas de Deus, vĂłs que fostes reduzidas por Eva a fĂȘmeas nĂŁo superiores Ă s companheiras dos animais. Por vĂłs eu subi. Como fiz com JosĂ©, eu vos levei para o alto. A rocha do calvĂĄrio Ă© o meu Monte das Oliveiras. Foi dali que eu tomei o impulso para levar a alma da mulher aos cĂ©us, de novo santificada, junto com minha carne glorificada, por ter trazido o Verbo de Deus, e anulado em mim todo vestĂgio de Eva. Ela foi a Ășltima raiz daquela ĂĄrvore dos quatro ramos venenosos, com a raiz fincada na sensualidade, que arrastou a humanidade Ă queda e que haverĂĄ de morder as vossas entranhas, atĂ© ao fim dos sĂ©culos, atĂ© Ă Ășltima mulher. De lĂĄ, de onde agora eu brilho no raio do Amor, eu vos chamo, e vos indico o remĂ©dio para vĂłs vencerdes a vĂłs mesmas: a graça do meu Senhor e o sangue do meu Filho.
29.13 E tu, minha porta-voz, repousa a tua alma na luz desta aurora de
Jesus, a fim de que tenhas força para as futuras crucificaçÔes, que não te serão poupadas, porque te queremos aqui, para onde se vem através da dor; e para tão mais alto se vem, quanto mais se suporta o sofrimento, a fim de obter graça para o mundo.
Vai em paz. Eu estou contigoâ.