Notas do tema

Palavras-chave principais e transversais 🌟

PĂĄgina 5 de 198

Conforto de leitura

EMF 9.1-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

9.1 Jesus diz:

– Como um rĂĄpido crepĂșsculo de inverno, no qual o vento forte com neve acumula nuvens pelo cĂ©u, assim, a vida dos meus avĂłs conheceu rapidamente o chegar da noite, depois que o sol deles se deteve, brilhando na sagrada cortina do Templo.

9.2 Mas, foi dito: “A Sabedoria inspira vida aos seus filhos, toma sob a sua proteção os que a procuram
 Quem ama a sabedoria, ama a vida, e quem fica vigilante para adquiri-la, haverĂĄ de gozar de sua paz. Quem a possui, terĂĄ como herança a vida
 Quem a serve, obedecerĂĄ ao Santo, sendo muito amado por Deus
 Se crer nela, a terĂĄ por herança, confirmada pelos seus descendentes, porque ela o acompanha nas provaçÔes. Antes de tudo, o escolhe, depois enviarĂĄ sobre ele todos os temores, medos e provaçÔes, atormentando-o com o açoite de sua disciplina, para provĂĄ-lo em seus pensamentos e adquirir confiança nele. Depois lhe darĂĄ estabilidade, voltando a ele por um caminho reto e o farĂĄ contente. Ela lhe descobrirĂĄ os seus segredos, porĂĄ nele tesouros de ciĂȘncia e de inteligĂȘncia, que se manifestarĂŁo em obras de justiça.”

Sim, tudo isso foi dito. Os livros sapienciais sĂŁo aplicĂĄveis a todos os homens que neles encontram um espelho para o seu comportamento e sua guia. Mas felizes aqueles que podem ser identificados entre os amantes espirituais da Sabedoria.

Eu me fiz rodear de såbios, que foram meus parentes mortais. Ana, Joaquim, José, Zacarias e ainda mais, Isabel, e depois o Batista. Acaso não são eles verdadeiros såbios? Não falo de minha mãe, na qual a Sabedoria fez sua morada.

9.3 Da juventude atĂ© o tĂșmulo, a sabedoria tinha inspirado uma vida agradĂĄvel a Deus aos meus avĂłs, protegendo-os do perigo de pecar, como uma tenda que protege da fĂșria dos elementos. O santo temor de Deus Ă© base para a planta da sabedoria, a qual lança todos os seus ramos, atĂ© atingir, no seu vĂ©rtice, o amor tranqĂŒilo, na sua paz, o amor pacĂ­fico, na sua segurança, o amor seguro, na sua fidelidade, o amor fiel, na sua intensidade, enfim, o amor total, generoso e ativo dos santos.

“Quem ama a sabedoria, ama a vida, e terá a Vida como herança”, diz o Eclesiástico. Isto está ligado à minha Palavra: “Aquele que perder a vida por amor de Mim, salvá-la-á.” Porque não se trata da pobre vida desta terra e, sim, da vida eterna; não se trata das alegrias de um momento, mas das alegrias imortais.

Foi neste sentido que Joaquim e Ana amaram a sabedoria. E ela esteve com eles nas provaçÔes.

Quantas provaçÔes! VĂłs que, por nĂŁo serdes completamente maus, desejarĂ­eis nĂŁo ter nunca que chorar e sofrer! Imaginem, estes justos quantas dessas provaçÔes tiveram, embora merecessem ter Maria por filha! A perseguição polĂ­tica que os expulsou da terra de Davi, empobrecendo-os grandemente. A tristeza de ver reduzir-se a nada os anos que iam passando, sem que uma flor lhes dissesse: “Eu serei a vossa continuação.” E, depois, o receio de tĂȘ-la conseguido jĂĄ na idade em que nĂŁo tinham nenhuma certeza de chegarem a vĂȘ-la mulher. AlĂ©m disso, o dever que teriam de cumprir, de afastĂĄ-la de seus coraçÔes, para a colocarem sobre o altar de Deus. Ainda mais: tiveram que viver num silĂȘncio bem mais pesado; depois de estarem jĂĄ habituados com o arrulhar de sua pombinha, com o rumor de seus passinhos, os sorrisos e beijos de sua filhinha, ficaram agora esperando apenas, por entre recordaçÔes, a hora de Deus. E muitas outras coisas. Doenças, calamidades do tempo, prepotĂȘncia dos poderosos, quantos duros golpes assestados contra o frĂĄgil castelo de sua modesta propriedade. E ainda nĂŁo basta. O sofrimento da filha, que estĂĄ longe deles, que vai ficar sozinha e pobre, apesar de todos os cuidados e sacrifĂ­cios, nĂŁo tendo mais do que as sobras dos bens paternos. Como irĂĄ esta filha encontrar essas sobras, se ficarem por muitos anos sem serem cultivadas, imobilizadas, Ă  sua espera? Temores, medo, provaçÔes e tentaçÔes. E fidelidade, fidelidade, fidelidade sempre, a Deus.

9.4

E a tentação mais forte: que nĂŁo se lhes negasse o conforto de terem sua filha junto a eles quando jĂĄ estivessem bem idosos. Mas, os filhos sĂŁo de Deus, antes de serem dos pais. E cada filho pode dizer isto que Eu disse[3] Ă  minha mĂŁe: “NĂŁo sabes que Eu devo tratar dos interesses do Pai do CĂ©u?” E cada mĂŁe, cada pai deve aprender o que fazer, olhando Maria e JosĂ© no Templo, ou Ana e Joa­quim na sua casa de NazarĂ©, cada vez mais despojada e mais triste, embora possua algo que nĂŁo diminui nunca, crescendo sempre mais: a santidade de dois coraçÔes, a santidade de um casamento.

O que resta a Joaquim, já enfermo, e o que resta à sua sofredora esposa, nas longas e silenciosas tardes de velhos a caminho da morte? Os vestidinhos, as primeiras sandalinhas, os pobres brinquedos de sua pequenina, que agora está longe deles, e sempre as lembranças. E, com as lembranças, uma paz que lhes nasce no coração, quando cada um pode dizer: “Estou sofrendo, mas cumpri o meu dever de amor para com Deus”.

Estamos, pois, diante de uma alegria sobrehumana, que brilha com uma luz celestial, desconhecida aos filhos do mundo, e que nĂŁo perde o brilho ao cair, como pĂĄlpebra pesada sobre dois olhos moribundos, mas que, na sua Ășltima hora, resplende ainda mais, evidenciando verdades ocultas durante toda a vida, fechadas como borboletas em seus casulos, que sĂł davam sinal de sua presença por movimentos suaves, enquanto que agora podem abrir suas asas douradas, mostrando as palavras que as adornam. A luz de suas vidas vai-se apagando no conhecimento de um futuro feliz para eles e para sua estirpe, com um louvor ao nome do Senhor sobre os lĂĄbios.

9.5

Assim foi a morte dos meus avós, justamente pela santa vida que tiveram. Por sua santidade eles mereceram ser os primeiros guardiães da amada de Deus, e, somente quando um sol maior se mostrou no ocaso de suas vidas, eles entenderam claramente a graça que Deus lhes havia concedido.

Por sua santidade, Ana nĂŁo passou pelos sofrimentos da mulher[4] que dĂĄ Ă  luz, mas, sim, pelo ĂȘxtase de quem trazia consigo aquela que Ă© a sem culpa. Para os dois nĂŁo houve afliçÔes de agonia, mas uma languidez que foi-se desvanecendo, assim como docemente vai-se apagando uma estrela, Ă  medida que o sol vem surgindo com a aurora. Eles nĂŁo tiveram o conforto de ter-me consigo, Sabedoria Encarnada, como pĂŽde JosĂ©; no entanto, Eu era a invisĂ­vel Presença que, inclinada sobre o travesseiro deles, fazendo-os adormecer em paz, na esperança do triunfo, lhes dizia sublimes palavras.

HĂĄ quem diga: “Por que nĂŁo tiveram que sofrer para gerar, nem para morrer, sendo eles tambĂ©m filhos de AdĂŁo?” Eu respondo: “O Batista foi prĂ©-santificado sĂł por ter chegado perto de Mim, quando estava no ventre de sua mĂŁe, tendo sido ele tambĂ©m filho de AdĂŁo, concebido com o pecado original; nĂŁo teria recebido nenhuma graça a santa mĂŁe daquela que nĂŁo teve mancha, preservada por Deus, por trazer o prĂłprio Deus no seu espĂ­rito quase divino e no seu coração embrionĂĄrio, sem nunca de Deus se separar, desde que foi pensada pelo Pai, concebida num ventre, tornando a possuir Deus plenamente no cĂ©u por uma eternidade gloriosa?” E ainda respondo: “A reta consciĂȘncia dĂĄ uma morte serena, e as oraçÔes dos santos vos alcançam tal morte.”

Joaquim e Ana deixaram atrĂĄs de si uma vida inteira vivida numa consciĂȘncia reta, que surge entĂŁo como plĂĄcido panorama, servindo-lhes de guia para o CĂ©u. Eles tinham a santa, em oração pelos seus pais que estavam longe, diante do TabernĂĄculo de Deus, pais colocados por ela em segundo lugar depois de Deus, que Ă© o Bem supremo, mas que eram amados, como a lei e o sentimento o exigiam, com um amor sobrenaturalmente perfeito.

Anotação

Livro de Ben Sira, o SĂĄbio 4, 11-18

Si 4, 11-18 : A sabedoria conduz os seus filhos Ă  grandeza, cuida dos que a procuram. AmĂĄ-la Ă© amar a vida; aqueles que a procuram desde a aurora serĂŁo cheios de felicidade; aquele que a possui herdarĂĄ a glĂłria; onde ele entra, o Senhor dĂĄ a sua bĂȘnção.

Os que adoram a sabedoria celebram o Deus santo; os que a amam sĂŁo amados pelo Senhor; quem a escuta julgarĂĄ as naçÔes; quem a ela se apega estarĂĄ seguro na sua morada. Se ele confiar nela, possuĂ­-la-ĂĄ, e toda a sua descendĂȘncia a herdarĂĄ.

No inĂ­cio, ela conduzi-lo-ĂĄ por caminhos tortuosos, farĂĄ com que ele tenha medo e apreensĂŁo; atormentĂĄ-lo-ĂĄ com a severidade da sua educação, atĂ© que possa confiar nele; pĂŽ-lo-ĂĄ Ă  prova com as suas exigĂȘncias. Depois, voltarĂĄ diretamente para ele e enchĂȘ-lo-ĂĄ de felicidade ao revelar-lhe os seus segredos.

Cada filho pode dizer o que eu disse à minha Mãe: "Não sabes que tenho de cuidar dos interesses do Pai que estå nos Céus?" Em Lucas 2, 49 (cf. EMV 41.12).

Palavras-chave

EMF 9.2

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Eu me fiz rodear de såbios, que foram meus parentes mortais. Ana, Joaquim, José, Zacarias e ainda mais, Isabel, e depois o Batista. Acaso não são eles verdadeiros såbios? Não falo de minha mãe, na qual a Sabedoria fez sua morada.

Detalhe

Jesus disse:

Palavras-chave

EMF 9.3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

VĂłs que, por nĂŁo serdes completamente maus, desejarĂ­eis nĂŁo ter nunca que chorar e sofrer!

Palavras-chave

EMF 9.5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Eles tinham a santa, em oração pelos seus pais que estavam longe, diante do Tabernåculo de Deus, pais colocados por ela em segundo lugar depois de Deus, que é o Bem supremo, mas que eram amados, como a lei e o sentimento o exigiam, com um amor sobrenaturalmente perfeito.

Detalhe

Os sentimentos de Maria em relação aos seus pais

Palavras-chave

EMF 10

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

TĂ­tulo do capĂ­tulo : O CĂąntico de Maria. Ela recorda o que a sua alma tinha visto em Deus.

Data da visĂŁo e do ditado: SĂĄbado, 2 de setembro de 1944

CalendĂĄrio: verĂŁo de 9 a.C.

Local (mapa) : Jerusalém

Ciclo: Nascimento e infĂąncia da Virgem Maria

Resumo: Maria deve ter cerca de doze anos de idade. Ela estĂĄ a rezar e a cantar um hino. Depois mergulha numa oração ainda mais ardente e, entretanto, chega Ana de Fanuel. A Imaculada saĂșda-a e inicia-se uma conversa entre as duas mulheres. Falam da sua virgindade, da Lei que a obrigava a casar e do seu voto de permanecer virgem. Falam tambĂ©m do Messias que hĂĄ-de vir. Maria jĂĄ pressentia que ele seria o MĂĄrtir e que era necessĂĄria muita pureza para preparar a sua vinda. Ela revela que Ă© virgem, nĂŁo porque espera ser a MĂŁe do Senhor, mas porque a pureza tem um valor imenso aos olhos do AltĂ­ssimo.

Por fim, Jesus faz um ditado e revela que Maria se lembrou de Deus. Ela lembra-se do que viu quando a sua alma foi criada, e o Mestre explica que o espĂ­rito tem a capacidade de recordar, de ver e de prever. Deus deu ao homem a inteligĂȘncia, mas nem todo o conhecimento Ă© bom e, alĂ©m disso, as capacidades humanas sĂŁo limitadas. No entanto, o EspĂ­rito pode falar-nos e instruir-nos, mas para possuirmos o EspĂ­rito Santo, precisamos da Graça. Os santos tambĂ©m se lembram de Deus", disse Jesus, antes de continuar o seu ditado sobre Maria, que estava cheia de Graça e que, por isso, vivia no EspĂ­rito.

ConteĂșdo do capĂ­tulo: 10.1: Maria costura e canta um hino. 10.2: Ana de Fanuel surpreendida pela aparição de Maria. 10.3: A presença de Deus em Maria. 10.4: O seu desejo de permanecer virgem. 10.5: A espera do Messias Ă© abreviada. Colocar-me-ei totalmente ao seu serviço. 10.6: Ele serĂĄ o Homem das Dores. 10.7: Todos embriagados pela Presença InvisĂ­vel. 10.8: Maria lembrou-se de Deus. 10.9: Participação na InteligĂȘncia Suprema. 10.10: Cheio de Graça. 10.11: Tudo vem de outra fonte, constata Maria Valtorta, que se tranquiliza.

Edição anterior: Volume 1, capítulo 16

Palavras-chave

EMF 10.1-7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

10.1

Somente ontem Ă  tarde, sexta-feira, Ă© que a minha mente se iluminou para ver. NĂŁo vi outra coisa senĂŁo uma Maria bem jovem, uma Maria de, no mĂĄximo doze anos, cujo rostinho jĂĄ nĂŁo tem mais aquelas rotundidades prĂłprias da meninice, mas vai deixando ver os contornos da mulher, naquela forma oval que se alonga.

TambĂ©m os cabelos nĂŁo estĂŁo mais caĂ­dos sobre o pescoço, com seus cachinhos leves, mas estĂŁo divididos, formando duas boas tranças de uma cor de ouro esmaecida — parecem uma liga de prata de tĂŁo claros — e descem passando pelos ombros e chegando atĂ© a cintura. Seu rosto agora estĂĄ mais pensativo, mais maduro, ainda que continue a ser o rosto de uma menina, uma menina bela e pura que, toda vestida de branco, estĂĄ costurando em um pequeno quarto, tambĂ©m branco, de cuja janela escancarada, pode-se ver o edifĂ­cio imponente do Templo, no centro, e depois, toda a descida dos degraus dos pĂĄtios e dos pĂłrticos. AtrĂĄs dos muros, que rodeiam o Templo, vĂȘ-se a cidade com suas ruas, casas e jardins e, no fundo, o cume arredondado e verde do monte das Oliveiras.

Ela estĂĄ costurando e cantando em voz baixa. NĂŁo sei se Ă© um canto religioso. Diz assim:

“Como uma estrela dentro da água clara

brilha-me uma luz no coração.

Desde minha infĂąncia, de mim nĂŁo se separa

e suavemente ela me guia com amor.

No coração eu tenho um canto.

De onde ele virĂĄ?

Homem, tu nĂŁo sabes isso.

Vem de onde repousa o Santo.

Eu olho para a minha estrela clara

e nĂŁo quero coisa alguma que nĂŁo seja,

mesmo a mais doce e querida,

mas que nĂŁo seja esta doce luz que Ă© toda minha.

Tu me trouxeste desde os altos Céus,

Ăł minha Estrela, no seio de uma mĂŁe.

Vives agora em mim, mas por fora dos véus

te estou podendo ver, Ăł rosto glorioso do Pai.

Quando darĂĄs Ă  tua serva a honra

de ser do Salvador a humilde serva?

Manda, manda-nos do Céu o Messias.

Aceita, ó Pai santo, a oferta de Maria”.

10.2

Maria se cala, sorri e suspira, e depois se inclina e se ajoelha em

oração. Seu pequeno rosto é todo uma só luz. Erguido depois para o azul límpido de um belo céu de verão, parece atrair para si toda aquela luminosidade, e irradiå-la de si. Ou melhor, parece que um sol escondido no seu interior irradie suas luzes e incendeie a neve levemente rosada da face de Maria, derramando-se sobre as coisas e o sol que brilha na terra, abençoando e prometendo toda sorte de bens.

Enquanto Maria estĂĄ para levantar-se, depois de sua amorosa oração, e em seu rosto ainda lhe permanece a luminosidade do ĂȘxtase, entra a anciĂŁ Ana de Fanuel, e pĂĄra, assombrada, ou, pelo menos, admirada pelo ato e pelo aspecto de Maria.

Depois a chama:

– Maria!

E a menina se volta com um sorriso, diferente, mas sempre muito lindo, saudando-a:

– Ana, a paz esteja contigo!

10.3

– Estavas rezando? A oração não te basta nunca?

– A oração poderia me bastar. Mas eu falo com Deus! Ana, nĂŁo fazes uma idĂ©ia como eu O sinta prĂłximo de mim. Mais do que prĂłximo, sinto-O em meu coração. Deus me perdoe esta soberba. Mas eu nĂŁo me sinto sozinha. EstĂĄs vendo? LĂĄ, naquela casa de ouro e de neve, atrĂĄs da dupla Cortina, estĂĄ o Santo dos santos. Nenhum olho, a nĂŁo ser o do Sumo Sacerdote, pode fixar-se no PropiciatĂłrio sobre o qual repousa a glĂłria do Senhor. Mas eu nĂŁo preciso olhar, com toda a alma cheia de veneração, para aquele duplo VĂ©u bordado, que se move com as ondas dos cantos das virgens e dos levitas, e guarda o perfume dos preciosos incensos, como para tentar perfurar sua urdidura, a fim de ver transparecer o Testemunho. Sim, tambĂ©m eu olho para ele! NĂŁo temas que eu nĂŁo o olhe, cheia de veneração, como fazem todos os filhos de Israel. NĂŁo temas que o orgulho me cegue, a ponto de fazer-me pensar isto que estou te dizendo. Eu olho para ele. NĂŁo hĂĄ nenhum servo humilde no povo de Deus que olhe com mais humildade para a Casa do Senhor, como eu, pensando ser a mais indigna de todos. O que eu vejo? Vejo um vĂ©u. O que deve estar atrĂĄs do VĂ©u? Um TabernĂĄculo. O que hĂĄ nele? Se olho em meu coração, eis que vejo Deus, que brilha em sua glĂłria e amor, dizendo-me: “Eu te amo”, e eu Lhe digo: “Eu te amo” e sinto-me derreter, me deleito em cada palpitação do coração, neste beijo recĂ­proco
 Eu estou no meio de vĂłs, mestras e companheiras queridas. Mas um cĂ­rculo de fogo me separa de vĂłs. Dentro do cĂ­rculo estamos Deus e eu, que vos vejo, atravĂ©s do Fogo de Deus, e assim vos amo
 Mas nĂŁo posso amar-vos segundo a carne. Jamais poderei amar ninguĂ©m segundo a carne. SĂł posso amar a Este que me ama, segundo o espĂ­rito.

10.4

Eu conheço a minha sorte. A Lei secular de Israel quer que cada menina se torne esposa, e cada esposa mĂŁe. Mas eu, ainda que obedecendo Ă  Lei, obedeço uma Voz que diz: “Eu te quero”, mas como poderei fazer isso se sou e serei virgem? Esta tĂŁo doce e invisĂ­vel Presença, que estĂĄ comigo me ajudarĂĄ, porque Ela Ă© que quer assim. Eu nĂŁo temo. NĂŁo tenho mais pai nem mĂŁe
 sĂł o Eterno sabe como nesta dor se purificou tudo o que eu tinha de humano. Foi uma purificação por meio de uma dor atroz. Agora nĂŁo tenho ninguĂ©m, alĂ©m de Deus. A Ele obedeço, portanto, cegamente. JĂĄ teria obedecido atĂ© contra meu pai e minha mĂŁe, porque a Voz me instrui que quem quer acompanhĂĄ-la deve ir alĂ©m dos pais, que sĂŁo amorosos guardiĂŁes, rondam os muros do coração filial, querendo conduzi-lo Ă  alegria, mas, segundo o modo de ver deles
 NĂŁo sabem que hĂĄ outros modos que conduzem a uma alegria infinita
 Eu lhes teria deixado as vestes e o manto, para acompanhar a Voz, que me diz: “Vem, Ăł minha querida, Ăł minha esposa!” Eu lhes teria deixado tudo. As pĂ©rolas das lĂĄgrimas, que choraria por dever desobedecer, e os rubis do meu sangue, dado que atĂ© a morte eu teria desafiado para acompanhar a Voz que me chama, lhes diriam que hĂĄ algo maior e mais doce do que o amor paterno e materno. É a Voz de Deus. A Sua vontade agora me deixou livre atĂ© do laço da piedade filial. Talvez nĂŁo teria sido propriamente um laço. Eles eram dois justos, e Deus certamente lhes falava, como faz comigo. Eles seguiriam a justiça e a verdade. Quando penso neles, os vejo na tranqĂŒila espera dos Patriarcas. Apresso, com o meu sacrifĂ­cio, a chegada do Messias para abrir-lhes as portas do CĂ©u. Sobre a terra, sou eu que me dirijo, ou melhor, Ă© Deus que dirige a sua pobre serva, dando-lhe as Suas ordens. Eu as cumpro, pois cumpri-las Ă© a minha alegria. Quando chegar a hora, direi ao esposo o meu segredo
 e ele o aceitarĂĄ.

– Mas, Maria, que palavras encontrarás para persuadi-lo? Terás contra ti o amor de um homem, a Lei e a vida.

– Eu terei Deus comigo
 Deus abrirá à luz o coração do meu esposo
 A vida perderá os espinhos da sensualidade, tornando-se uma pura flor com perfume de caridade.

10.5

A Lei
 Ora, Ana, nĂŁo me digas que sou uma blasfemadora. Eu acho que a Lei estĂĄ para ser mudada. Por quem, dirĂĄs tu, se a Lei Ă© divina? Pelo Ășnico que a pode mudar. Por Deus. O tempo estĂĄ mais perto do que pensais, eu vos digo. Porque, lendo Daniel, uma grande luz se fez em mim, partindo do fundo do meu coração, e minha mente compreendeu o sentido das palavras misteriosas. As setenta semanas serĂŁo abreviadas pelas oraçÔes dos justos. Foi mudado o nĂșmero dos anos? NĂŁo. A profecia nĂŁo mente. A medida do tempo profĂ©tico nĂŁo Ă© o curso do sol e sim o da lua. Portanto, eu te digo: “A hora estĂĄ perto, quando se ouvirĂĄ o vagido daquele que nasceu de uma Virgem.” Oh! Se esta Luz que me ama quisesse me dizer, jĂĄ que me diz tantas coisas, onde estĂĄ a feliz donzela[1] que darĂĄ Ă  luz o Filho de Deus, que darĂĄ o Messias ao seu povo! Caminhando descalça, percorreria a terra, e nem o frio, nem o gelo, nem a poeira, nem a canĂ­cula, nem as feras, nem a fome seriam para mim obstĂĄculos para eu chegar perto dela e dizer-lhe: “Concede Ă  tua serva e Ă  serva dos servos de Cristo de viver sob o teu teto. Eu trabalharei o moinho e a prensa. Coloca-me como escrava ao lado do moinho, ou como pastora do teu rebanho, como a que limpa as fraldas do teu Filho, coloca-me em tuas cozinhas, junto aos teus fornos
 coloca-me onde quiseres, mas me aceita! Que eu o possa ver! Que eu ouça a sua voz! Que dele eu receba um olhar.” Se ela nĂŁo me quisesse, como mendiga Ă  sua porta, eu haveria de viver de esmolas e de zombarias, ao ar livre, sujeita aos rigores do tempo, contanto que pudesse ouvir a voz do Messias menino, o eco dos seus risos, depois vĂȘ-lo caminhar
 Talvez algum dia eu recebesse Dele a esmola de um pĂŁo
 Oh! ainda que a fome me estivesse dilacerando as entranha­s, eu estivesse desfalecendo, depois de tanto tempo sem comer, eu nĂŁo comeria aquele pĂŁo. Eu o conservaria como um saquinho de pĂ©rolas sobre o meu coração, e o beijaria para sentir o perfume da mĂŁo do Cristo. E jĂĄ nĂŁo sentiria mais fome nem frio, porque aquele contato me daria ĂȘxtase e calor, ĂȘxtase e alimento


10.6

– Tu deverias ser a mãe do Cristo, tu que o amas tanto assim! Será para isso que queres permanecer virgem?

– Oh! nĂŁo. Eu sou apenas misĂ©ria e pĂł. NĂŁo ouso levantar o olhar em direção Ă  GlĂłria. É por isso que eu gosto de olhar para dentro do meu coração mais do que para o duplo VĂ©u, alĂ©m do qual estĂĄ a invisĂ­vel Presença de JeovĂĄ. LĂĄ estĂĄ o Deus terrĂ­vel do Sinai. Mas aqui, em mim, eu vejo o nosso Pai, uma Face amorosa que me sorri e me abençoa, porque eu sou pequena como um passarinho, que o vento sustenta sem sentir peso algum, e frĂĄgil como o caule do pequeno lĂ­rio selvagem que sĂł sabe florescer e exalar seu perfume, nĂŁo opondo outra resistĂȘncia ao vento, a nĂŁo ser a de sua perfumada e pura doçura. Deus, o meu vento de amor! NĂŁo Ă© por isso que permaneço virgem. Mas porque se o Filho de Deus Ă© de uma virgem, ao Santo do AltĂ­ssimo nĂŁo pode agradar senĂŁo aquilo que no CĂ©u Ele escolheu por mĂŁe e aquilo que na terra lhe fala do Pai Celeste: a Pureza. Se a Lei meditasse isto, e os rabis que as multiplicaram em todas as sutilezas, voltassem sua mente para horizontes mais altos, mergulhando-se no sobrenatural, deixariam de lado o humano e o lucro, que Ă© o que eles procuram esquecendo-se de seu Fim supremo, orientando os seus ensinamentos Ă  Pureza, a fim de que o Rei de Israel a encontre ao chegar. Com a oliveira do PacĂ­fico, com as palmas do Triunfador, espalhai lĂ­rios, mais lĂ­rios, muitos lĂ­rios
 Quanto Sangue o Salvador nĂŁo deverĂĄ derramar para redimir-nos! Quanto sangue! Das milhares e milhares de feridas que IsaĂ­as viu no corpo do Homem das dores, estĂĄ caindo uma chuva de Sangue como o orvalho de um vaso poroso. Que este Sangue divino nĂŁo caia onde houver profanação e blasfĂȘmia, mas, sim, em cĂĄlices de pureza odorĂ­fera, que o acolhem e recolhem, para depois espargi-lo sobre os doentes do espĂ­rito, sobre os leprosos da alma, que estĂŁo mortos para Deus. Dai lĂ­rios, dai lĂ­rios para enxugar os suores e as lĂĄgrimas do Cristo, com a cĂąndida veste de pĂ©talas puras! Dai lĂ­rios e mais lĂ­rios para o ardor de sua febre de MĂĄrtir! Oh! Onde estarĂĄ aquele LĂ­rio que te carrega? Onde estarĂĄ quem te dessedentarĂĄ, em tua febre ardente? Onde estarĂĄ aquela que se tornarĂĄ vermelha pelo teu Sangue, morrendo pela dor de te ver morrer? Onde estarĂĄ quem chorarĂĄ pelo teu Corpo esvaĂ­do em sangue? Oh! Cristo! Cristo! Meu suspiro!

Maria se cala, lacrimejante e esmagada.

10.7

Ana se cala por algum tempo e depois, com sua branca voz de anciĂŁ comovida, diz:

– Tens mais alguma coisa para ensinar-me, Maria?

Maria leva um susto. Em sua humildade, ela crĂȘ que sua mestra a esteja censurando, e diz:

– Oh! PerdĂŁo! Tu Ă©s mestra, eu sou um pobre nada. Mas esta Voz me saiu do coração. Eu bem que a vigio, para nĂŁo falar. Mas, como um rio, que sob o impulso da onda, arrebenta os diques, eis que eu fui apanhada transbordando. NĂŁo faças conta de minhas palavras, e castiga a minha presunção. As palavras misteriosas deveriam ficar na arca secreta do coração, que Deus, em sua bondade, trata tĂŁo bem. Eu sei disso, mas Ă© tĂŁo doce esta invisĂ­vel Presença, que dela eu estou Ă©bria
 Ana, perdoa a tua pequena serva!

Ana a abraça, e todo o seu velho rosto rugoso treme, brilhando em prantos. As lågrimas escorrem por entre as rugas, como a ågua por um terreno acidentado se transforma em um pùntano que treme. Mas a velha mestra não provoca riso. Pelo contrårio, o seu pranto excita a mais alta veneração.

Maria estå entre os seus braços, com o rostinho contra o peito da velha mestra, e tudo termina assim.

Palavras-chave

EMF 10.8-10

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus diz:

– Maria se recordava de Deus. Sonhava com Deus. Pensava estar sonhando. NĂŁo fazia mais do que rever tudo o que o seu espĂ­rito havia visto no fulgor do CĂ©u de Deus, no momento em que tinh­a sido criada, para ser unida Ă  carne concebida na terra. Ela partilhava uma das propriedades de Deus ainda que de modo bem menor, como exigia a justiça. Assim, ela tinha a faculdade de recordar, ver e prever por atributo de uma inteligĂȘncia poderosa e perfeita, nĂŁo lesada pela Culpa.

10.9 O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Uma das semelhanças estå na sua possibilidade de recordar, ver e prever, através do espírito. Isto explica também a faculdade de ver o futuro. Muitas vezes, esta faculdade aparece, pela vontade de Deus, de modo direto, outras vezes, vem pela lembrança, que se ergue, como o sol da manhã, iluminando um determinado ponto do horizonte dos séculos, como é visto no seio de Deus.

Estes são mistérios altos demais, para que os possais compreender plenamente. Mas, pensai.

Aquela InteligĂȘncia suprema, aquele Pensamento que tudo sabe, aquela Vista que tudo vĂȘ, que vos criou por um ato de sua vontade, com um sopro de Seu infinito amor, fazendo-vos filhos Seus, por origem, filhos Seus tambĂ©m pela meta a que fostes destinados, poderĂĄ Ele, por acaso, dar-vos algo sem ser Ele mesmo? Ele vo-lo dĂĄ em uma medida infinitamente pequena, porque nunca uma criatura poderia ter a capacidade do seu Criador. Mas a medida que vos dĂĄ, ainda que em sua infinita pequenez, Ă© perfeita e completa.

Que tesouro de inteligĂȘncia Deus deu ao homem AdĂŁo! A culpa, certamente, diminuiu essa inteligĂȘncia, mas o Meu sacrifĂ­cio reintegra o homem, e abre para vĂłs os fulgores da InteligĂȘncia, os seus canais, a sua ciĂȘncia. Oh! Que sublimidade tem a mente humana, unida a Deus pela Graça, participando da Sua capacidade de conhecer!
 A mente humana unida a Deus pela Graça.

NĂŁo existe outro modo. Os curiosos de segredos ultra-humanos que pensem nisso. Todo conhecimento que nĂŁo proceda de uma alma em estado de graça — e nĂŁo estĂĄ em graça quem estĂĄ contra a Lei de Deus, tĂŁo clara em suas ordens — sĂł pode provir de SatanĂĄs. Dificilmente satanĂĄs corresponde Ă  verdade em tudo o que se refere a assuntos humanos, e nunca corresponde Ă  verdade no que se refere ao sobrenatural, porque o demĂŽnio Ă© pai da mentira, conduzindo-vos consigo aos cami­nho­s da mentira. NĂŁo hĂĄ nenhum outro mĂ©todo para conhecer a verdade, senĂŁo o mĂ©todo de Deus, o qual fala, diz ou faz lembrar, assim como um pai que faz um filho recordar-se da casa paterna, ao dizer: “EstĂĄs lembrado de quando Comigo fazias isto, vias aquilo, ou ouvias aquilo outro? EstĂĄs lembrado de quando recebias o meu beijo de despedida? Lembras-te de quando me viste pela primeira vez, o sol fulgurante do meu rosto sobre a tua alma virgem, que tinha acabado de ser criada, e estava ainda limpa do marasmo, que mais tarde te diminuiu e degradou, quando mal acabavas de sair de Mim? Lembras-te ainda de quando chegaste a compreender, em um sobressalto de amor, o que Ă© o Amor? Qual Ă© o mistĂ©rio do nosso Ser e da nossa ProcedĂȘncia?” AtĂ© onde a capacidade limitada do homem em estado de graça nĂŁo consegue chegar, vem o EspĂ­rito falar-lhe e ensinar-lhe.

Contudo, para o homem possuir o EspĂ­rito, Ă© necessĂĄria a Graça. Para possuir a Verdade e a CiĂȘncia, Ă© necessĂĄria a Graça. Para o homem ter o Pai, Ă© necessĂĄria a Graça. A Graça Ă© a Tenda em que as TrĂȘs Pessoas fazem a sua morada, Ă© o PropiciatĂłrio sobre o qual pousa o Eterno, e fala, nĂŁo mais de dentro da nuvem, mas revelando sua Face ao filho fiel. Os santos se recordam de Deus, das palavras ouvidas da Mente criadora e que a Bondade ressuscita em seus coraçÔes, para elevĂĄ-los, como ĂĄguias, Ă  contemplação do Verdadeiro e ao conhecimento do Tempo.

10.10 Maria era a cheia de Graça. Toda a Graça, una e trina estava nela, toda a Graça una e trina a preparava como esposa para as nĂșpcias. Preparava-a como o leito nupcial para a prole, divinizando-a para a sua maternidade e missĂŁo. Ela Ă© a que vem concluir o ciclo das profetisas do Antigo Testamento, e abre o ciclo dos “porta-vozes de Deus”, no Novo Testamento.

Arca da verdadeira Palavra de Deus, olhando em seu seio eternamente inviolado, Maria descobria as palavras da ciĂȘncia eterna, traçadas pelo dedo de Deus em seu coração imaculado, e se recordava, como todos os Santos, tĂȘ-las jĂĄ ouvido, quando gerada com o seu espĂ­rito imortal de Deus Pai, criador de toda vida. E, se nĂŁo se recordava de tudo, a respeito de sua futura missĂŁo, Ă© porque em toda perfeição humana, Deus deixa algumas lacunas, por divina prudĂȘncia, que Ă© bondade e merecimento, em favor da criatura.

Como uma segunda Eva, Maria precisou conquistar a sua parte de merecimento, ao ser a mĂŁe de Cristo, com uma fiel boa vontade, que Deus quis ter atĂ© em seu Cristo, para fazĂȘ-lo Redentor.

O espírito de Maria estava no Céu. Sua personalidade e sua carne estavam na terra, devendo pisar terra e carne, para chegar ao espírito e uni-lo ao Espírito, num abraço fecundo.

Palavras-chave

EMF 10.8

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Maria se recordava de Deus. Sonhava com Deus. Pensava estar sonhando. Não fazia mais do que rever tudo o que o seu espírito havia visto no fulgor do Céu de Deus, no momento em que tinh­a sido criada, para ser unida à carne concebida na terra. Ela partilhava uma das propriedades de Deus ainda que de modo bem menor, como exigia a justiça.

Palavras-chave