EMF 35.1-6
O Evangelho como me foi revelado
Citação
35.1 O meu espĂrito vĂȘ a seguinte cena.
Ă noite. JosĂ© dorme em sua cama no seu pequeno quarto. Um sono tranqĂŒilo de quem descansa de muito trabalho, feito com honestidade e capricho.
Eu o vejo na escuridão do ambiente, rompida apenas por um pouco da luz do luar, que penetra por uma abertura da janela, encostada, mas não totalmente fechada, como se José tivesse calor ou quisesse ter aquele pouco de luz, para saber calcular o despontar da alvorada, levantando-se diligente. Ele estå deitado de lado e, no sono, sorri, quem sabe a qual sonho que esteja tendo.
Mas, seu sorriso se transforma em preocupação. Ele suspira profundamente, como se faz quando se tem um pesadelo, e acorda sobressaltado. JosĂ© se assenta sobre a cama, esfrega os olhos, e olha ao redor de si. Olha, depois, para a janela, por onde estĂĄ entrando a claridade do luar. Ă noite alta, mas ele pega a roupa, que estĂĄ estendida aos pĂ©s da cama e, continuando sentado sobre a mesma, a vai vestindo sobre a tĂșnica branca de mangas curtas que ele trazia sobre a pele. Afastadas as cobertas, pĂ”e os pĂ©s no chĂŁo e procura as sandĂĄlias. Depois ele as calça e amarra. PĂ”e-se em pĂ© e vai atĂ© a porta, que estĂĄ em frente de sua cama, nĂŁo a que estĂĄ de lado e que dĂĄ para o salĂŁo onde foram recebidos os Magos.
Ele bate Ă porta, de leve, sĂł um toc-toc, com a ponta dos dedos. JosĂ© deve ter ouvido que estĂĄ sendo convidado a entrar, porque abre com cuidado a porta, e a torna a encostar, sem fazer barulho. Antes de ir atĂ© Ă porta, ele acendeu uma pequena candeia, de um sĂł bico, e assim tem uma luz para poder andar. Ele entra. Mas, em um quarto pouco maior do que o seu, e no qual estĂĄ uma caminha ao lado de um berço, ele vĂȘ uma luzinha jĂĄ acesa; a chama vacilante, que estĂĄ a um canto, parece uma estrelinha de uma luz tĂȘnue e dourada, que permite enxergar, mas sem incomodar quem estiver dormindo.
35.2 Maria, porĂ©m, nĂŁo estĂĄ dormindo. Ela estĂĄ ajoelhada junto ao berço, vestida com sua veste clara, e estĂĄ rezando, velando a Jesus que dorme tranqĂŒilo, Jesus que tem a idade em que o vi na visĂŁo dos Magos. Ă uma criança de cerca de um ano, bonita, rĂłsea e loira, que estĂĄ dormindo, com a cabecinha de cabelos encaracolados afundada no travesseiro, e com uma mĂŁozinha com o punho fechado, encostada na garganta.
â NĂŁo estĂĄs dormindo? âpergunta JosĂ©, em voz baixa, e admiradaâ. Por que? Jesus nĂŁo estĂĄ bem?
â Oh, nĂŁo! Ele estĂĄ bem. Eu estou rezando. Mas certamente depois dormirei. Por que vieste, JosĂ©?
Maria fala, permanecendo ajoelhada onde estava.
José fala em voz muito baixa, para não despertar o Menino, mas sua voz é agitada.
â Precisamos ir embora logo daqui. Mas logo! Prepara o baĂș e um saco com tudo o que puder caber nele. Eu vou preparar tudo o mais, e levarei o mais que puder. Ao romper da aurora, fugiremos. Eu faria isso atĂ© antes, mas preciso falar com a dona da casaâŠ
â Mas, por que esta fuga?
â Depois, eu te falarei melhor. Ă por causa de Jesus. Um anjo me disse: âPega o Menino e a mĂŁe, e foge para o Egito.â NĂŁo percas tempo. Eu vou preparar o que puder.
35.3 NĂŁo hĂĄ necessidade de dizer a Maria que nĂŁo perca tempo. Assim que ela ouviu falar de anjo, de Jesus e de fuga, compreendeu que estĂĄ em perigo o seu Filho, pĂŽs-se em pĂ©, branca como se tivesse um rosto de cera, com uma mĂŁo posta sobre o coração, angustiada. Logo começou a mover-se, desembaraçada e ligeira, e a arrumar as roupas no baĂș e num grande saco, que ela estendeu sobre o leito, e que ainda nĂŁo foi usado. Certamente estĂĄ aflita, mas nĂŁo perde a cabeça, e faz tudo apressadamente, mas com ordem. De vez em quando, ao passar por perto do berço, olha para o Menino, que estĂĄ dormindo sem saber de nada.
â EstĂĄs precisando de ajuda? âpergunta-lhe JosĂ©, de vez em quando, pondo a cabeça para dentro da porta, que estĂĄ entreaberta.
â NĂŁo, obrigada âresponde sempre Maria.
Somente quando o saco estå cheio, e fica pesado, é que ela chama José para ajudå-la a fechå-lo e levantå-lo da cama. Mas José não quer ser ajudado e faz tudo sozinho, pegando o grande volume, e levando-o para o seu quartinho.
â Pego tambĂ©m as cobertas de lĂŁ? âpergunta Maria.
â Pega o mais que puderes. Porque o que ficar estarĂĄ perdido. Por isso, o mais que puderes, apanha-o! Para nĂłs vai ser bom, porque⊠porque teremos pela frente uma longa viagem, Maria!âŠ
José fica muito sentido, ao ter que dizer isso. Pode-se imaginar como estå Maria. Suspirando, ela vai dobrando suas colchas e as de José e ele as amarra com uma corda:
â Vamos deixar os acolchoados e as esteiras âdiz ele, enquanto amarra as colchasâ. Ainda que eu levasse trĂȘs burrinhos, nĂŁo posso sobrecarregĂĄ-los demais. Temos que fazer uma longa e incĂŽmoda viagem, uma parte pelas montanhas, e outra pelo deserto. Cobre bem Jesus. As noites serĂŁo frias tanto nas montanhas, como no deserto. Apanhei os presentes dos Magos, porque eles nos serĂŁo Ășteis lĂĄ embaixo. Tudo o que eu tiver gastarei para comprar os dois burrinhos. NĂłs nĂŁo podemos mandĂĄ-los de volta, e por isso eu preciso adquiri-los. Eu vou, sem ficar esperando o romper da aurora. Sei onde procurĂĄ-los. Tu, acabas de preparar tudo.
E sai. Maria recolhe ainda alguns objetos e, depois de ter ido ver Jesus, sai e volta com duas pequenas vestes que parecem estar ainda Ășmidas, talvez tenham sido lavadas no dia anterior. Ela as dobra e envolve em um pano e as ajunta com as outras coisas. JĂĄ nĂŁo hĂĄ mais nada.
Ela olha ao redor e vĂȘ um brinquedo de Jesus em um canto: Ă© uma ovelhinha entalhada em madeira. Ela a pega com um soluço, e a beija. A madeira estĂĄ com os sinais dos dentinhos de Jesus, e as orelhas da ovelhinha estĂŁo mordiscadas. Maria acaricia aquele objeto sem valor, feito com uma madeira clara e comum, mas que para ela Ă© de grande valor, porque lhe fala do afeto de JosĂ© por Jesus e lhe fala tambĂ©m do seu Menino. Por isso o pĂ”e tambĂ©m junto com as outras coisas sobre o baĂș jĂĄ fechado.
35.4 Agora, jĂĄ nĂŁo hĂĄ mais nada mesmo. SĂł falta Jesus, que ainda estĂĄ em seu bercinho. Maria acha que Ă© bom preparĂĄ-Lo tambĂ©m. Vai ao berço e o sacode um pouco para despertĂĄ-Lo. Mas Ele dĂĄ apenas um leve sinal, e virando-se para o outro lado, continua a dormir. Maria o acaricia de leve, sobre os caracoizinhos. Jesus abre a boquinha para um bocejo. Maria se inclina e o beija na face. Jesus acaba de despertar. Abre os olhos. VĂȘ a mamĂŁe, e sorri, e estende as mĂŁozinhas para o seio dela.
â Sim, amor da mamĂŁe. Sim, o leite. Antes da hora habitual⊠Mas Tu estĂĄs sempre pronto para sugar tua mamĂŁe, meu santo cordeiÂrinho!
Jesus ri e brinca, agitando os pezinhos para fora das cobertas, agitando os braços com uma daquelas alegrias de criança, tão bela de se ver. Ele apóia os pezinhos sobre o estÎmago da mãe, curva-se como um arco e apóia também a cabecinha loira sobre o seu seio e, depois, se atira para trås, rindo, com as mãozinhas agarradas aos cordÔezinhos que ajustam o vestido ao pescoço de Maria, procurando abri-lo. Em sua camisinha de linho Ele estå muito bonito, gorducho, rosado como uma flor.
Maria se inclina e, estando assim por cima do berço como uma proteção, chora e sorri ao mesmo tempo, enquanto o Menino balbucia aquelas palavras, de todos os bebĂȘs, que nĂŁo sĂŁo palavras, e entre as quais ouve-se jĂĄ clara e repetidamente a palavra âmamĂŁeâ. Ele olha para ela, admirado por vĂȘ-la chorar. Estende uma mĂŁozinha para as lĂĄgrimas que caem, e se deixa molhar por aquelas carĂcias. Gracioso, torna a apoiar-se no seio materno, e se encolhe todo, acariciando-o com sua mĂŁozinha.
Maria o beija por entre os cabelos, e o pega no colo, senta-se e o veste. O vestidinho de lã jå estå posto, e as sandalinhas também. Maria lhe då de mamar, Jesus suga contente o bom leite de sua mamãe e, quando percebe que da direita estå vindo menos, procura a esquerda, ri ao fazer isso, olhando de alto a baixo para sua mamãe. Depois adormece de novo sobre o seio dela. Sua bochecha rosada e gorducha estå ainda contra o seio branco e redondo.
Maria se levanta, lentamente, e o coloca sobre a colcha de seu leito. Cobre-o com o seu manto. Volta ao berço e dobra as pequenas cobertas. Fica pensando se nĂŁo serĂĄ bom pegar tambĂ©m o pequeno colchĂŁo. Ă tĂŁo pequeno! Pode-se levar. EntĂŁo, Ela o coloca, junto com o travesseiro, perto das coisas jĂĄ postas sobre o baĂș. Chora sobre o berço vazio a pobre mĂŁe, que estĂĄ sendo perseguida com seu Filho.
35.5 José jå estå de volta.
â EstĂĄs pronta? Jesus estĂĄ pronto? Pegaste as suas cobertas, a sua caminha? NĂŁo podemos levar o berço, mas pelo menos que Ele tenha o seu pequeno colchĂŁo, pobre Pequenino, que procuram a sua morte!
â JosĂ©!
Maria då um grito, enquanto se agarra ao braço de José.
â Sim, Maria, a sua morte. Herodes o quer morto⊠porque tem medo⊠por causa do seu reino humano, ele tem medo deste Inocente, aquela fera imunda. Que irĂĄ ele fazer, quando ficar sabendo que o Menino fugiu, eu nĂŁo sei. Mas nĂłs jĂĄ estaremos longe. NĂŁo creio que ele queira se vingar, procurando-o atĂ© na GalilĂ©ia. JĂĄ lhe seria muito difĂcil descobrir que nĂłs somos galileus, e mais ainda, que nĂłs somos de NazarĂ©, e quem Ă© que somos exatamente. A nĂŁo ser que SatanĂĄs o ajude, para agradecĂȘ-lo por ser-lhe um servo fiel. Mas⊠se isso acontecesse⊠Deus nos ajudarĂĄ do mesmo modo. NĂŁo chores, Maria. Ver-te chorar Ă© para mim uma dor bem mais forte do que a de ter que ir para o exĂlio.
â Perdoa-me, JosĂ©. NĂŁo Ă© por mim que eu choro, nem pelas poucas coisas que vamos deixar. Eu choro por ti⊠JĂĄ tiveste que sacrificar-te tanto! E agora tornas a ficar de novo sem clientes e sem casa. Quanto eu custo para ti, Ăł JosĂ©!
â Quanto? NĂŁo, Maria. Tu nĂŁo me custas nada. Tu me consolas. Sempre. NĂŁo fiques pensando no dia de amanhĂŁ. NĂłs temos as riquezas dos magos. Elas nos ajudarĂŁo nos primeiros tempos. Depois, eu acharei trabalho. Um operĂĄrio honesto e que tenha capacidade, logo abre caminhos. JĂĄ viste como foi aqui. As horas nĂŁo me bastam para o trabalho que tenho.
â Eu sei. Mas, quem te aliviarĂĄ da saudade?
â E a ti, quem te aliviarĂĄ da saudade daquela casa de que tanto gostas?
â Jesus. Tendo-o, tenho o que lĂĄ tive.
â E eu, tendo Jesus, tenho a pĂĄtria a qual tenho esperado atĂ© a poucos meses. Tenho o meu Deus. EstĂĄs vendo como nĂŁo vou perder nada do que me Ă© mais querido sobre todas as coisas. Basta que salvemos a Jesus, que tudo ficarĂĄ conosco. Mesmo que nĂŁo tivĂ©ssemos mais de ver este cĂ©u, estes campos, nem aqueles ainda mais queridos da GalilĂ©ia, terĂamos sempre tudo, porque o temos.
35.6 Vem, Maria, que o amanhecer estĂĄ chegando. Ă hora de irmos saudar a nossa hospedeira e pegar as nossas coisas. Tudo irĂĄ bem.
Maria se levanta, obediente. Envolve-se no manto, enquanto JosĂ© estĂĄ fazendo um Ășltimo embrulho, e depois sai, transportando-o.
Maria soergue delicadamente o Menino, e o envolve com um xale, apertando-o contra o coração. Olha para as paredes que a hospedaram durante alguns meses, e, com uma mão, toca nelas de leve. Feliz casa, que mereceu ser amada e abençoada por Maria!
Ela sai. Atravessa o pequeno quarto, que era de JosĂ©, e entra no salĂŁo. A dona da casa, em lĂĄgrimas, a beija e saĂșda, e, levantando uma das extremidades do xale, beija na fronte o Menino, que estĂĄ dormindo tranqĂŒilo. Descem pela escadinha externa.
Vem chegando uma primeira claridade da aurora, quando se começa a ver alguma coisa. Naquela pouca luz, pode-se ver trĂȘs burrinhos. O mais robusto estĂĄ carregado com as alfaias. Os outros, estĂŁo selados. JosĂ© faz força para acomodar bem o baĂș e os embruÂlhos sobre a albarda do primeiro. Vejo as suas ferramentas de carpinteiro, amarradas em pacotes, dentro do saco.
Ainda hĂĄ saudaçÔes e lĂĄgrimas. Depois Maria monta no seu burÂrinho, enquanto a dona da casa segura Jesus no colo, e o beija ainda, devolvendo-O depois a Maria. JosĂ© monta tambĂ©m, tendo antes amarÂrado o seu jumento ao outro jumento, que vai com a bagagem, a fim de ficar com a mĂŁo livre para segurar o burrinho de Maria, pelo cabresto.
A fuga tem inĂcio, enquanto BelĂ©m, que sonha ainda com a fantĂĄstica cena dos Magos, dorme quieta, sem saber o que a espera.
E a visĂŁo cessa assim.
Anotação
Mateus 2, 13-23 : Depois de terem partido, o anjo do Senhor apareceu a José num sonho e disse-lhe: "Levanta-te, toma o menino e a sua mãe e foge para o Egito. Fica lå até eu te dizer, porque Herodes vai procurar o menino para o matar. Nessa noite, José levantou-se, pegou no menino e na sua mãe e fugiu para o Egito, onde ficou até à morte de Herodes, para que se cumprisse a palavra do Senhor dita pelo profeta: "Do Egito chamei o meu filho.
Quando Herodes viu que os såbios tinham troçado dele, ficou furioso. Mandou matar todas as crianças até aos dois anos de idade em Belém e em toda a região, de acordo com a data que lhe fora indicada pelos magos. Cumpriram-se então as palavras do profeta Jeremias: "Hå um clamor em Ramå, choro e dor: é Raquel que chora os seus filhos e não quer ser consolada, porque eles jå não existem.
Depois da morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito, e disse-lhe: "Levanta-te, toma o menino e a sua mãe e vai para a terra de Israel, porque os que procuravam tirar a vida ao menino morreram. José levantou-se, tomou o menino e a sua mãe e foi para a terra de Israel. Mas quando soube que Arqueu estava a governar na Judeia em vez de Herodes, seu pai, teve medo de ir para lå. Avisado em sonho, retirou-se para a região da Galileia e foi viver para uma cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse a palavra dos profetas: Ele serå chamado nazareno.