Notas do tema

Palavras-chave principais e transversais 🌟

PĂĄgina 185 de 198

Conforto de leitura

EMF 208

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

TĂ­tulo do capĂ­tulo: Maria vĂȘ de novo o pastor Elias e vai ter com Elise de Bet-Çur (Bethsur).

Data da visĂŁo: Quarta-feira, 4 de julho de 1945

CalendĂĄrio: Sexta-feira 7 de abril 28 (24 Nissan 3788)

Localização (mapa): Em direção a Bet-çur

Ciclo: Viagem Ă  espera do Pentecostes

Resumo: Jesus envia os apóstolos à procura de Elias e dos pastores da Natividade. Marziam fica com ele, juntamente com a Virgem, Maria de Alfeu e Maria Salomé. A criança quer saber mais sobre os pastores e fica surpreendida por eles terem sido mal tratados. A Virgem e Marziam falam então do massacre dos Inocentes e do Limbo, e Maria assegura-lhe que ele não irå para o Sheol, pois Jesus jå terå aberto as portas do Céu quando ele morrer. Por fim, o rapaz pergunta como é que podemos estar com Deus se o Pai estå no Céu, e a Mãe de Jesus explica que Deus é omnipresente e que nos ama. O facto de o Senhor poder amar Doras perturba o rapaz e, quando Maria sugere que reze para que ele se arrependa, Marziam responde com uma vingança que preferia rezar para que o fariseu morresse. Todos se riem da sua resposta, e Maria corrige-o, dizendo que Deus não pode aprovar tal atitude. Mas Marziam sofreu demasiado por causa de Doras e, depois de contar algumas das suas recordaçÔes, chora, grita e contorce-se de dor. Jesus intervém e diz-lhe para não odiar ninguém, em circunstùncia alguma, e para pedir ao próprio Pai que pense no que ele quer. A paz é restaurada no coração da criança e o grupo continua o seu caminho.

ConteĂșdo do capĂ­tulo: 208.1: Jesus manda os apĂłstolos procurarem os pastores. 208.2: Maria fala a Marziam sobre os Santos Inocentes, o Limbo e o CĂ©u. 208.3: Ela fala-lhe de perdoar Doras, que o fez sofrer tanto, mas Marziam nĂŁo consegue deixar de o odiar. 208.4: Jesus convence-o a nĂŁo odiar, mas a rezar. 208.5: Chegamos Ă s Piscinas de SalomĂŁo, onde estavam os seus esplĂȘndidos jardins. 208.6: A caminho de Bete-Zur. 208.7: Em Bete-Zur, Maria saĂșda Elias, que lhe traz notĂ­cias muito mĂĄs sobre Elise. 208.8: Maria e Jesus conseguem entrar em casa dela. 208.9: Perante a dor de Elise, Maria diz-lhe que o seu filho morto lhe traz o Cristo que procurava. 208.10: Jesus confirma-lhe que o seu povo vive para sempre. 208.11: AmanhĂŁ ele vai falar perto da casa dela. Maria fica em casa. Quando Elise vĂȘ a mudança, a criada clama por um milagre.

Edição anterior: Volume 3, capítulo 70

Palavras-chave

EMF 208.1-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Quase com certeza os encontraremos, se nos conservarmos andando por algum tempo na estrada que vai para Hebron. Eu vos peço isto: Andai dois a dois, Ă  procura deles, pelos caminhos das montanhas. Daqui atĂ© Ă s piscinas de SalomĂŁo, depois de lĂĄ atĂ© Betsur. NĂłs vos acompanharemos. Esta Ă© a zona de pastagem deles –diz o Senhor aos doze, e eu compreendo que Ele estĂĄ falando dos pastores.

Os apĂłstolos se apressam em andar, cada um com o companheiro de sua preferĂȘncia e sĂł a dupla quase inseparĂĄvel de JoĂŁo e AndrĂ© Ă© que nĂŁo se une, porque os dois vĂŁo a Iscariotes e lhe dizem:

– Eu vou contigo.

E Judas responde:

– Sim, vem AndrĂ©. É melhor assim, JoĂŁo. Eu e tu seremos dois que jĂĄ conhecemos os pastores. É melhor, entĂŁo que vĂĄs com qualquer outro.

– Que venha comigo o rapaz –diz Pedro, deixando Tiago de Zebedeu que, sem protestar, vai com TomĂ©, enquanto Zelotes vai com Judas Tadeu, Tiago de Alfeu com Mateus e os inseparĂĄveis Filipe e Bartolomeu, vĂŁo por conta deles. O menino fica com Jesus e com as Marias.

A estrada Ă© fresca e bela entre os montes todos verdes, por causa das diferentes culturas, dos bosques e dos prados. Encontram-se os rebanhos que, Ă  luz dourada da aurora, vĂŁo Ă s pastagens.

A cada batida do cincerro, Jesus para de falar e olha. Depois, pergunta aos pastores se Elias, o pastor belemita, estĂĄ por aqueles lugares. Compreendo que Elias jĂĄ estĂĄ sendo chamado “o belemita.” Ainda que outros pastores tambĂ©m o sejam, ele Ă©, por direito, ou por caçoada, “o belemita.” Mas ninguĂ©m sabe. Eles respondem, parando o rebanho, e cessando de tocar suas rĂșsticas flautas.

Os jovens, quase todos, tem estas flautas toscas feitas de caniço, e isso faz que Margziam fique extasiado, até que um pastor velho e bom resolve dar-lhe a de seu neto, dizendo:

– Ele fará outra para si.

E Margziam sai dali feliz com o seu instrumento a tiracolo, ainda que, por enquanto nĂŁo saiba tocar.

208.2

– Eu gostaria muito de encontrá-los! –exclama Maria.

– Nós os encontraremos com certeza. Nesta estação, estão sempre perto de Hebron.

O menino se interessa por estes pastores, que viram Jesus Menino e faz mil perguntas a Maria, que lhe explica tudo, com muita paciĂȘncia e bondade.

– Mas, por que foi que os castigaram? Eles só tinham feito o bem

–pergunta o menino, depois que lhe foram contadas as desventuras por que eles passaram.

– Porque muitas vezes o homem comete erros, acusando os inocentes de um mal que na realidade foi feito por outro. Mas, visto que eles eram bons, e souberam perdoar, Jesus os ama muito. É preciso saber perdoar sempre.

– Mas, todos aqueles meninos que foram mortos, como fizeram para perdoar a Herodes?

– Eles sĂŁo pequenos mĂĄrtires, Margziam, e os mĂĄrtires sĂŁo santos. Eles nĂŁo somente perdoam ao seu carrasco, mas o amam, porque ele abre para eles o CĂ©u.

– EntĂŁo, eles estĂŁo no CĂ©u?

– Não, por enquanto não. Mas estão no Limbo, para serem a alegria dos Patriarcas e dos Justos.

– Por quĂȘ?

– Porque disseram, quando chegaram com suas almas tingidas de sangue: “Eis-nos aqui, nós somos os arautos do Cristo Salvador. Alegrai-vos, vós que estais esperando, porque Ele já está na terra.” E todos os amam porque eles são os portadores dessa boa nova.

– Meu pai me disse que a boa nova Ă© tambĂ©m a palavra de Jesus. EntĂŁo, quando meu pai for para o Limbo, depois de a ter dito sobre a terra, e eu tambĂ©m irei para lĂĄ, seremos nĂłs tambĂ©m amados?

– Tu não irás para o Limbo, pequenino.

– Por quĂȘ?

– Porque Jesus jĂĄ terĂĄ voltado para os CĂ©us, e os terĂĄ aberto, e todos os bons, na hora de sua morte, irĂŁo logo para o CĂ©u.

– Eu vou ser bom, assim prometo. E SimĂŁo de Jonas? Ele tambĂ©m, nĂŁo Ă©? Porque eu nĂŁo quero ficar ĂłrfĂŁo pela segunda vez.

– Ele tambĂ©m, com certeza. Mas no CĂ©u ninguĂ©m Ă© ĂłrfĂŁo. LĂĄ temos Deus. Deus Ă© tudo. Nem aqui nĂłs somos ĂłrfĂŁos. Porque o Pai estĂĄ sempre conosco.

– Mas, Jesus, naquela bela oração que Tu me ensinaste de dia e minha mĂŁe de noite, diz: “Pai nosso que estais nos CĂ©us.” NĂłs ainda nĂŁo estamos no CĂ©u. Como, entĂŁo podemos estar com Ele?

– Porque Deus estĂĄ em toda parte, meu filho. Ele vela sobre o menino que nasce e sobre o velho que morre. O menino que estĂĄ nascendo neste momento, no ponto mais remoto da terra, tem consigo os olhares e o amor de Deus, e os terĂĄ atĂ© Ă  morte.

– Ainda que ele seja mau, como Doras?

– Sim. Ainda que o seja.

– Mas Deus, que Ă© bom, como pode amĂĄ-lo, se Doras Ă© tĂŁo mau e faz chorar ao meu velho pai?

– Deus olha para ele com desgosto e com dor. Mas, se ele se arrependesse. Ele lhe diria o que o pai da parábola disse ao filho arrependido.

208.3

Tu deverias rezar para que ele se arrependa e


– Oh! Não, mãe! Eu rezarei para que ele morra! –diz impetuosamente o menino.

Por mais que esta saĂ­da seja pouco
 angĂ©lica, o Ă­mpeto do menino Ă© tĂŁo veemente e tĂŁo sincero, que os outros tĂȘm que fazer esforço para nĂŁo rir.

Mas depois Maria assume de novo a sua doce seriedade de Mestra:

– NĂŁo, meu querido. Isto nĂŁo deves fazer a um pecador. Deus nĂŁo te ouviria e atĂ© olharia para ti com severidade. NĂłs devemos desejar para o prĂłximo, ainda que ele seja muito mau, o maior bem. A vida Ă© um bem porque dĂĄ ao homem o modo de adquirir mĂ©ritos aos olhos de Deus.

– Mas, se alguĂ©m Ă© mau, o que adquire sĂŁo pecados.

– Reza-se para que ele se torne bom.

O menino fica pensando
 mas não entende muito esta lição sublime e conclui:

– Doras nĂŁo se tornarĂĄ bom, mesmo se eu rezar. Ele Ă© mau demais. Ainda que comigo rezassem todos os meninos mĂĄrtires de BelĂ©m, ele nĂŁo se tornaria bom. NĂŁo sabes que
 nĂŁo sabes que
 que um dia ele bateu com uma barra de ferro em meu velho pai, porque o encontrou sentado na hora do trabalho? Meu pai nĂŁo podia levantar-se, porque se sentia mal, e ele
 bateu nele atĂ© deixĂĄ-lo quase morto e depois lhe deu ainda um pontapĂ© no rosto
 Eu vi tudo, porque estava escondido atrĂĄs de uma sebe
 Eu tinha ido atĂ© lĂĄ porque ninguĂ©m me tinha levado pĂŁo jĂĄ havia dois dias, e eu estava com fome
E u tive que fugir de lĂĄ, para nĂŁo me perceberem, pois eu estava chorando, ao ver meu pai sendo tratado daquele modo, com a barba cheia de sangue, e como se estivesse morto
 Eu sai de lĂĄ chorando e pedindo pĂŁo
 mas aquele pĂŁo, eu o encontrei sempre foi aqui
 aquele tinha sabor do sangue e das lĂĄgrimas de meu pai e tambĂ©m das minhas, e de todos os que sĂŁo torturados, e nĂŁo podem amar a quem os tortura. Eu, gostaria de bater em Doras, para que ele sentisse o que sĂŁo as batidas, eu gostaria de deixĂĄ-lo sem pĂŁo, para que ele ficasse sabendo o que Ă© a fome, e quereria fazĂȘ-lo trabalhar, ao ardor do sol, ou na lama, sob as ameaças dos vigilantes e sem comer, para que ele ficasse sabendo o que estĂĄ dando aos pobres
 Eu nĂŁo lhe posso querer bem, porque
 ele estĂĄ matando a meu santo pai, e eu, se nĂŁo vos encontrasse, de quem haveria de ser depois?

O menino, tomado por uma dor convulsiva, grita e chora, tremendo, agitado, com seus pequenos punhos fechados, dando socos no ar, jĂĄ que nĂŁo pode dĂĄ-los no carrasco.

As mulheres estĂŁo assombradas e comovidas, e procuram acalmĂĄ-lo. Mas ele estĂĄ, de fato, numa crise de dor, e nĂŁo ouve o que lhe falam. Ele grita:

– Eu não posso, não posso amá-lo e perdoá-lo. Eu o odeio, eu o odeio por todos, o odeio!


Causa dĂł e medo.

208.4

É a reação da criatura que sofreu demais.

E Jesus diz:

– Este Ă© o maior dos delitos de Doras: levar um inocente a odiar


Mas depois Ele toma nos braços o menino, e lhe diz:

– Escuta, Margziam. Queres tu um dia ficar com a mamãe, o pai, os irmãozinhos e o velho pai?

– Siiim


– Nesse caso nĂŁo podes odiar ninguĂ©m. No CĂ©u nĂŁo entra quem odeia. NĂŁo podes rezar, por enquanto, por Doras? EstĂĄ bem: nĂŁo rezes, mas tambĂ©m nĂŁo odeies. Sabes o que tens que fazer? NĂŁo deves nunca virar-te para trĂĄs, para ficar pensando no passado


– Mas meu pai, que está sofrendo, não está no passado


– É verdade. Mas olha, Margziam experimenta rezar assim: “Pai nosso, que estais nos CĂ©us, pensa Tu naquilo que Ă© desejo meu
” VerĂĄs que o Pai te escuta do melhor dos modos. E, mesmo que matasses Doras, que farias? Perderias o amor de Deus, o CĂ©u, a uniĂŁo com teu pai e tua mĂŁe, e nĂŁo livrarias das penas o velho que amas. Dize-lhe: “Tu sabes como eu amo ao velho pai e como amo a todos aqueles que sĂŁo infelizes. Pensa nisso, Tu que tudo podes.” Como? EntĂŁo nĂŁo queres pregar a Boa Nova? Mas ela fala de amor e de perdĂŁo! Como podes tu dizer a um outro: “NĂŁo odeies. Perdoa”, se tu nĂŁo sabes amar e perdoar? Deixa, deixa que o bom Deus aja, e verĂĄs como tudo Ele predispĂ”e bem. Tu farias isso?

– Sim, porque te quero bem.

Jesus beija o menino e o pÔe no chão. O episódio fica superado e a estrada também.

Anotação

É melhor assim, Jean. Tu e eu seríamos duas pessoas que já conhecem os pastores. Cf. EMV 75.2 e EMV 75.6.

Quando o clarim é tocado, Jesus påra de falar. Clarim: Sino colocado ao pescoço do gado.

Nesta bela oração que tu e minha mãe me ensinaram, ela de noite e tu de dia: cf. EMV 206,14.

Se ele se arrependesse, dir-lhe-ia o que o pai da parĂĄbola disse ao filho arrependido. Na parĂĄbola do filho prĂłdigo(EMV 205.5).

Palavras-chave

EMF 208.2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Deus estå em toda parte, meu filho. Ele vela sobre o menino que nasce e sobre o velho que morre. O menino que estå nascendo neste momento, no ponto mais remoto da terra, tem consigo os olhares e o amor de Deus, e os terå até à morte.

Palavras-chave

EMF 208.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Experimenta rezar assim: “Pai nosso, que estais nos CĂ©us, pensa Tu naquilo que Ă© desejo meu
” VerĂĄs que o Pai te escuta do melhor dos modos. (...) Dize-lhe: “Tu sabes como eu amo ao velho pai e como amo a todos aqueles que sĂŁo infelizes. Pensa nisso, Tu que tudo podes.” (...) Deixa, deixa que o bom Deus aja, e verĂĄs como tudo Ele predispĂ”e bem.

Palavras-chave

EMF 208.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Não podes rezar, por enquanto, por [alguém]? Estå bem: não rezes, mas também não odeies. Sabes o que tens que fazer? Não deves nunca virar-te para trås, para ficar pensando no passado


Palavras-chave

EMF 208.7-11 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

O pĂŽr do sol começa, quando Betsur jĂĄ vem aparecendo sobre a colina e, quase de repente, na estrada secundĂĄria, que tomaram para virem, eis que os rebanhos dos pastores vĂȘm chegando com os pastores. Mas, quando Elias vĂȘ que Maria tambĂ©m estĂĄ lĂĄ, levanta os braços com espanto e fica nessa posição, nem podendo crer no que estĂĄ vendo.

– A paz esteja contigo, Elias. Sou eu mesma. Havia sido prometido a ti, mas em JerusalĂ©m nĂŁo foi possĂ­vel ver-nos
NĂŁo pense mais nisso. Agora nos estamos vendo –diz Maria com doçura.

– Oh! Mãe, mãe!


Elias nem acha o que dizer. Depois, finalmente encontra:

– Agora! Minha PĂĄscoa eu vou fazĂȘ-la agora
 É o mesmo, e melhor ainda.

– Mas, Ă© verdade, Elias. NĂłs fizemos uma boa venda. E agora bem que podemos matar um cordeirinho. Oh! Sede bem-vindos Ă  nossa pobre mesa
 –Pede Levi, e tambĂ©m JosĂ©.

– Nesta tarde estamos cansados. Deixai para amanhã. Escutai. Conheceis uma certa Elisa casada com Abraão de Samuel?

– Sim. Ela estĂĄ na casa dela em Betsur. Mas AbraĂŁo morreu e, no ano passado morreram os filhos dele. O primeiro morreu com uma doença que durou poucas horas, e ninguĂ©m ficou sabendo de que foi que ele morreu. O outro foi-se indo lentamente e nada cortou a doença. NĂłs lhe dĂĄvamos o primeiro leite de uma cabra, porque os mĂ©dicos diziam que isso era bom para o doente, e ele bebia muito leite que lhe era levado por todos os pastores, pois sua pobre mĂŁe o tinha mandado procurar com todos os que tivessem no rebanho alguma cabra de primeiro leite. Mas nĂŁo adiantou nada. Quando voltamos Ă  planĂ­cie, o jovem jĂĄ nem se alimentava mais. E, quando voltamos, no mĂȘs de Adar, jĂĄ havia duas luas que ele tinha morrido.

– Pobre de minha amiga! No Templo ela me queria bem. Era-me parenta num antepassado. Era tĂŁo boa. Saiu para ir casar-se com AbraĂŁo, ao qual estava prometida desde pequena, dois anos antes de mim! E lembro quando ela veio fazer a oferta do seu primogĂȘnito ao Senhor. Ela mandou me chamar, nĂŁo a mim sozinha, mas me quis depois sozinha, por mais tempo
 E agora, ela Ă© que estĂĄ sozinha
Oh! Preciso apressar-me em ir consolĂĄ-la! VĂłs, ficai aqui. Eu vou com Elias, e entrarei sozinha. A dor exige respeito ao redor de si


– Nem Eu posso ir, mãe?

– Tu podes sempre. Mas os outros
 Nem mesmo tu, pequenino. Seria uma dor. Vem, vem, Jesus!

– Esperai-nos na praça do povoado. Procurai um abrigo para a noite. Adeus –ordena Jesus a todos.

208.8

E, sozinhos com Elias, Jesus e a mãe vão até uma espaçosa casa, toda fechada e silenciosa, a cuja porta o pastor bate com o seu cajado. Uma serva mostra o rosto por uma janelinha, perguntando quem é. Maria vai à frente e diz:

– Maria de Joaquim e seu Filho, de NazarĂ©. Vai dizer isto Ă  tua patroa.

– É inĂștil. Ela nĂŁo quer ver ninguĂ©m. Quer chorar atĂ© morrer.

– Experimenta.

– NĂŁo. Eu sei como ela me repele, quando procuro distraĂ­-la. NĂŁo quer saber de ninguĂ©m, nem ver a ninguĂ©m, nĂŁo quer falar com ninguĂ©m. Ela fica falando com a lembrança dos filhos.

– Vai, mulher, eu te ordeno. Dize a ela: “AĂ­ estĂĄ a pequena Maria de NazarĂ©, aquela que no Templo era como tua filha
” VerĂĄs que ela me quer.

A mulher lå se vai, sacudindo a cabeça.

Maria explica ao Filho e ao pastor:

– Elisa era muito mais velha do que eu. Ficava esperando no Templo a volta do seu esposo, que tinha ido ao Egito ver uns negĂłcios de herança e por lĂĄ ficou atĂ© uma idade bem avançada. Ela tem quase dez anos mais do que eu. As mestras costumavam dar Ă s pequeninas algumas discĂ­pulas mais adultas, que as guiassem
 e ela foi a minha companheira-mestra. Era boa e
 aĂ­ vem vindo a mulher.

De fato, a criada vem correndo, admirada, e abre um portĂŁo bem largo:

– Entra, entra –diz ela.

E depois, em voz baixa:

– Bendita sejas se a fizeres sair daquele quarto.

Elias se despede, e entram Maria e o Filho.

– Mas este homem, na verdade
 Por piedade! Tem a idade de Levi


– Deixa-o entrar. É meu Filho e a consolará mais do que eu.

A mulher encolhe os ombros e vai na frente, pelo longo vestíbulo de uma bela, mas triste casa. Tudo aí está limpo, mas tudo parece morto


208.9

Uma mulher alta, mas que vem vindo inclinada e com vestes escuras, vem adiante, na penumbra.

– Elisa! Querida! Eu sou Maria! –diz Maria, correndo ao seu encontro e abraçando-a.

– Maria? Tu
 Pensava que tu tambĂ©m tinhas morrido. Tinham-me contado
 quando foi? NĂŁo me lembro mais
 Eu estou com um vazio aqui na cabeça
 Tinham-me dito que tu estavas morta, com muitas outras mĂŁes, depois da vinda dos Magos. Mas quem foi que me disse que eras a mĂŁe do Salvador?

– Talvez os pastores


– Oh! Os pastores!

A mulher tem uma explosão de pranto cheio de aflição:

– NĂŁo me fales naquele nome. Ele me faz lembrar a Ășltima esperança para a vida de Levi
 E, no entanto
 sim
 um pastor me falou do Salvador e eu matei meu filho, levando-o ao lugar onde se dizia que estava o Messias, perto do JordĂŁo. Mas lĂĄ nĂŁo havia ninguĂ©m
 e o meu filho voltou a tempo para morrer
 O cansaço, o frio
eu o matei
 Mas eu nĂŁo quis ser uma assassina. Diziam-me que Ele, o Messias, curava as doenças
 e eu lĂĄ fui para conseguir a cura. Agora meu filho me acusa de tĂȘ-lo matado


– Não, Elisa. És tu que pensas assim. Escuta. Eu creio que teu filho, ao contrário, foi quem me tomou pela mão e me disse: “Vai à casa de minha mãe. Leva-lhe o Salvador. Eu estou melhor aqui do que na terra. Mas ela só dá ouvidos ao seu pranto e não pode ouvir as palavras que eu lhe sussurro por entre beijos, a pobre da minha mãe, que está possuída por um demînio, que a tenta para levá-la ao desespero, porque quer nos ver separados. Enquanto que, se ela se resignar e crer que Deus tudo faz para um bom fim, estaremos unidos para sempre com o pai e com o irmão. Jesus pode fazer isso.” E eu vim
 com Ele
 Não o queres ver?


Maria assim falou, conservando sempre entre os seus braços a desventurada, beijando-a sobre os cabelos cinzentos e com uma doçura que só ela pode ter.

– Oh! Se fosse verdade! Mas, por que, por que, entĂŁo, Daniel nĂŁo foi a ti, para dizer-te que viesses antes?
Mas, quem foi que me disse, hĂĄ tempo, que tu estavas morta? NĂŁo me lembro
nĂŁo me lembro
 tambĂ©m por isso eu fiquei esperando, para ir ao Messias. Mas me haviam dito que Ele tinha morrido, Ele, tu e todos em BelĂ©m


– Não fiques pensando em quem disse isto.

208.10

Vem, olha, aqui estå o meu Filho. Vem até Ele. Faze que fiquem contentes teus filhos e tua Maria. Sabes que eståvamos sofrendo ao te vermos assim?

E a leva para Jesus que se tinha colocado num Ăąngulo escuro e sĂł agora vem adiante, iluminado agora por uma luz que a empregada pendurou em um alto escrĂ­nio.

A pobre mĂŁe levanta a cabeça
 e ali vejo que Elisa esteve tambĂ©m sobre o CalvĂĄrio, entre as piedosas mulheres. Jesus lhe estende as mĂŁos com um gesto de convite, todo cheio de amor. A desventurada reluta um pouco, depois lhe confia as suas mĂŁos e, por fim, de repente, se abandona ao peito de Jesus, gemendo:

– Dize-me, dize-me que eu não tenho culpa da morte de Levi! Dize-me que eles não estão perdidos para sempre! Dize-me que logo estarei com eles!


– Sim, sim. Escuta. Eles estĂŁo cheios de uma grande alegria, neste momento em que tu estĂĄs em meus braços. Dentro de pouco tempo, eu irei atĂ© eles e que devo dizer-lhes entĂŁo: Que tu nĂŁo te conformas com o Senhor? É isto que Eu devo dizer? As mulheres de Israel, as mulheres de Davi, tĂŁo fortes, tĂŁo sĂĄbias, serĂĄ que vĂŁo ser desmentidas por ti? NĂŁo. Tu estĂĄs sofrendo, mas Ă© porque ficaste sofrendo sozinha. A tua dor e tu. Tu e a dor. NĂŁo podes suportar assim. NĂŁo te lembras das palavras[2] de esperança a respeito daqueles que a morte nos tomou? “Eu vos trarei de vossos sepulcros e vos conduzirei para a terra de Israel. E vĂłs ficareis sabendo que Eu sou o Senhor, quando Eu tiver aberto as vossas tumbas e vos tiver tirado dos vossos sepulcros. Quando Eu tiver infundido em vĂłs o meu espĂ­rito, vĂłs tereis vida.” A terra de Israel, para os justos que dormiram no Senhor, Ă© o Reino de Deus. Eu o abrirei e o darei aos que o estĂŁo esperando.

– E ao meu Daniel tambĂ©m? E tambĂ©m ao meu Levi?
 Ele tinha tanto medo da morte!
 NĂŁo podia nem pensar em ficar longe de sua mamĂŁe. Por isto eu queria morrer e ir ao lado dele para o sepulcro


– Mas no sepulcro eles não estavam com a sua parte viva. Lá estavam as coisas mortas, que não te podiam ouvir. Eles estão no lugar de espera


– Mas existe mesmo? Oh! NĂŁo fiques escandalizado comigo. A minha memĂłria lĂĄ se foi com o pranto! Estou com a cabeça cheia pelo rumor do pranto e dos estertores dos filhos. Que estertores! Que estertores! Eles me dissolveram o cĂ©rebro. NĂŁo tenho nada mais do que aqueles estertores aqui dentro


– Mas Eu vou colocar-te aĂ­ dentro as palavras da vida. Semearei a Vida, porque Eu sou a Vida, onde estĂĄ o fragor da morte. Lembra-te do grande Judas Macabeu, que quis que se oferecesse um sacrifĂ­cio pelos mortos, pensando corretamente que eles estĂŁo destinados a ressurgir, e que Ă© preciso acelerar a chegada da paz para eles, por meio de oportunos sacrifĂ­cios. Se Judas Macabeu nĂŁo tivesse tido a certeza da ressurreição, teria ele rezado, ou feito rezar pelos mortos? Mas, ao contrĂĄrio, como estĂĄ escrito[3], ele pensou como Ă© grande a recompensa que estĂĄ reservada Ă queles que morrem piedosamente, como certamente aconteceu com os teus filhos
 VĂȘs, pois, como estĂĄs dizendo sim? Portanto, nĂŁo desesperes. Mas santamente reza pelos teus mortos a fim de que os seus pecados sejam cancelados, antes da minha ida a eles. E, se assim for feito, irĂŁo comigo para o CĂ©u. Porque Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, e conduzo, e digo a Verdade e dou a Vida a quem crĂȘ em minha Verdade, e me segue. Dize-me: Os teus filhos acreditavam na vinda do Messias?

– Com certeza, Senhor. Eles haviam aprendido de mim esta crença.

– E Levi acreditava que era possível a cura por minha vontade?

– Sim, Senhor. Nós esperávamos em Ti, mas
 não adiantou. Ele morreu desconsolado, depois de ter esperado tanto


O pranto da mĂŁe recomeça, mais calmo, mas mais desolado em sua calma, do que estava, em sua fĂșria de antes.

– NĂŁo digas que nĂŁo adiantou. Quem crĂȘ em Mim, ainda que tenha morrido, viverĂĄ para sempre


208.11

A tarde vem caindo, mulher. Eu vou reunir-me aos meus apóstolos. Eu te deixo a minha mãe


– Oh! Fica Tu tambĂ©m!
 Tenho medo que, indo-te embora, me assalte de novo aquele tormento
. Começando apenas a acalmar-se a tempestade, ao som das tuas palavras


– Não tenhas medo! Tens Maria contigo. Amanhã, Eu virei de novo. Eu tenho que ir dizer algumas coisas aos pastores. Posso dizer a eles que venham para a tua casa?

– Oh! Sim. Eles vinham atĂ© aqui no ano passado, por causa do meu filho
 AtrĂĄs da casa hĂĄ um jardim e, depois dele, hĂĄ um pĂĄtio rĂșstico. Eles podem ir para lĂĄ, como faziam, para recolher os seus rebanhos


– EstĂĄ bem. Eu virei. SĂȘ boa. Lembra-te de que Maria no Templo estava confiada a ti. Eu tambĂ©m a confio, por esta noite.

– Sim. Fica tranquilo. Eu cuidarei dela,
 Tenho que ir pensar na ceia dela, no seu descanso
 Há quanto tempo, não penso nestas coisas! Maria, queres dormir no meu quarto, como fazia Levi em sua doença? Eu, no leito do filho e tu no meu. E, então, me parecerá estar ouvindo novamente a sua respiração
 Ele ficava sempre segurando a minha mão


– Sim, Elisa. Mas antes vamos falar de muitas coisas.

– Não. Tu estás cansada. Precisas dormir.

– Tu tambĂ©m.

– Oh! Eu! Há meses que não tenho dormido
 Fico chorando
 chorando
 Já nem sei fazer outra coisa!

– Mas nesta noite vamos rezar, depois vamos para a cama, e tu dormirĂĄs
 Dormiremos de mĂŁos dadas, nĂłs duas tambĂ©m. Vai, pois, meu Filho, e reza por nĂłs


– Eu vos abençîo. A paz esteja convosco e com esta casa!

E Jesus vai com a empregada, que estĂĄ assombrada e sĂł fica repetindo:

– Que milagre, Senhor! Que milagre! Depois de tantos meses, ela falou, ela pensou! Oh! Que coisa admirĂĄvel!
 Diziam que ela ia morrer louca
 E eu ficava com pena dela, porque Ă© muito boa.

– Sim, Ă© boa, e por isso Deus a ajudarĂĄ. Adeus, mulher. A paz esteja contigo tambĂ©m.

Jesus sai pela estrada semi-escura, e tudo termina.

Detalhe

O caso de uma mãe que perdeu os seus dois filhos por doença. Jesus vem consolå-la com a Virgem Maria.

Anotação

A Elise era muito mais velha do que eu. Cerca de dez anos. Portanto, ela estĂĄ nos seus sessenta e poucos anos.

Quando regressĂĄmos, no mĂȘs de Adar, ele jĂĄ estava morto hĂĄ duas luas. Adar Ă© em fevereiro/março.

NĂŁo vos lembrais das palavras de esperança sobre aqueles que a morte nos tirou? "Tirar-vos-ei dos vossos tĂșmulos e reconduzir-vos-ei Ă  terra de Israel. EntĂŁo sabereis que eu sou o Senhor, quando eu abrir os vossos tĂșmulos e vos fizer levantar das vossas sepulturas. Porei dentro de vĂłs o meu espĂ­rito e vivereis. "Veja Ezequiel 37:11-14 abaixo.

Lembrai-vos do grande Judas Macabeu que queria fazer um sacrifício pelos mortos, porque pensava, com razão, que eles estavam destinados a ressuscitar e que a hora da paz devia ser-lhes apressada por sacrifícios oportunos. Se Judas Macabeu não tivesse a certeza da ressurreição, teria rezado e mandado rezar pelos mortos? Pelo contrårio, como estå escrito, ele pensava que estava reservada uma grande recompensa para aqueles que morressem piedosamente, como certamente fizeram os vossos filhos... Ver o segundo livro dos Macabeus 12, 43-46 abaixo.

Livro de Ezequiel 37, 11-14

Ezequiel37, 11-14: E ele disse-me: "Filho do homem, estes ossos sĂŁo toda a casa de Israel. Eis que eles dizem: 'Os nossos ossos estĂŁo secos, a nossa esperança morreu, estamos perdidos! Por isso, profetiza e diz-lhes: "Assim diz o Senhor JavĂ©: 'Eis que vou abrir os vossos tĂșmulos e levantar-vos das vossas sepulturas, Ăł meu povo, e vou reconduzir-vos Ă  terra de Israel. E sabereis que eu sou o Senhor JavĂ©, quando eu abrir os vossos tĂșmulos e vos levantar das vossas sepulturas, povo meu. Porei dentro de vĂłs o meu EspĂ­rito, e vivereis; dar-vos-ei descanso na vossa terra, e sabereis que eu, JavĂ©, digo e faço, - orĂĄculo de JavĂ©!"

Segundo Livro dos Macabeus 12, 43-45

2 M 12, 43-46: Depois, tendo recolhido a soma de duas mil dracmas, enviou-a a JerusalĂ©m, para ser utilizada num sacrifĂ­cio expiatĂłrio. Uma ação bela e nobre, inspirada pelo pensamento da ressurreição! Porque, se ele nĂŁo acreditasse que os soldados mortos em combate ressuscitariam, teria sido inĂștil e fĂștil rezar pelos mortos. 45 AlĂ©m disso, ele considerou que uma recompensa muito boa estĂĄ reservada para aqueles que adormecem na piedade, e este Ă© um pensamento santo e piedoso. Foi por isso que ele fez este sacrifĂ­cio expiatĂłrio pelos mortos, para que eles pudessem ser libertados dos seus pecados.

Palavras-chave