Simão de Jonas pÔe-se à frente, unindo-se ao grupo de Jesus e pergunta:
â Por aqui se vai a BelĂ©m? JoĂŁo diz que na outra vez o fizera por outra estrada.
â Ă verdade âdiz Jesusâ. Mas Ă© porque estĂĄvamos vindo de JerusalĂ©m. Indo-se por aqui o caminho Ă© mais curto. No sepulcro de Raquel, que as mulheres querem ver, nĂłs nos separaremos, como decidistes hĂĄ tempo. Depois, nos reuniremos em Betsur, onde minha mĂŁe deseja permanecer.
â Ă verdade, nĂłs o dissemos⊠Mas seria muito bonito, se fĂŽssemos todos juntos⊠especialmente com a mĂŁe⊠porque a Rainha de BelĂ©m e da Gruta Ă© ela e ela sabe tudo muito bem⊠Ouvindo as palavras dela, seria outra coisa, aĂ estĂĄ.
Jesus sorri, olhando para SimĂŁo, que insinuou delicadamente o seu desejo.
â Que gruta, pai? âpergunta Margziam.
â A gruta onde nasceu Jesus.
â Oh! Que bonito! Eu tambĂ©m vou lĂĄ.
â Seria bonito de fato! âdizem Maria de Alfeu e SalomĂ©.
â Muito bonito!⊠Seria voltar atrĂĄs⊠ao tempo em que o mundo nĂŁo te conhecia, Ă© verdade, mas tambĂ©m ainda nĂŁo te odiava⊠Seria encontrar de novo o amor dos simples, que nĂŁo souberam senĂŁo crer e amar, com humildade e fé⊠Seria depor este peso de amargura, que me oprime o coração, quando sei como Ă©s odiado e colocar esse peso lĂĄ no teu berço .. LĂĄ deve ter ficado ainda a doçura do teu olhar, da tua respiração, daquele teu sorriso incerto, lå⊠e fariam carĂicias ao meu coração⊠Ele estĂĄ tĂŁo amargurado!âŠ
Maria fala baixo, com saudade e tristeza.
â EntĂŁo, iremos lĂĄ, minha mĂŁe. Guia-me, tu. Hoje Ă©s tu Mestra e eu a criança que aprende.
â Oh! Filho! NĂŁo! Tu Ă©s sempre o Mestre!
â NĂŁo, minha mĂŁe. SimĂŁo de Jonas falou bem. Na terra de BelĂ©m, a Rainha Ă©s tu. Ă lĂĄ o teu primeiro castelo. Maria, da estirpe de Davi, guia este pequeno povo por entre tuas moradas.
Iscariotes ia falar, mas resolve calar-se. Jesus, que nota aquele ato e o interpreta, diz:
â Se alguĂ©m, por cansaço ou por outro motivo, nĂŁo quiser ir, prossiga por Betsur livremente.
Mas ninguém diz nada.
207.2
Prosseguem a estrada, atravĂ©s do fresco vale que vai na direção leste-oeste. Depois se dirigem levemente para o norte, a fim de costearem uma colina, que vem aparecendo Ă frente e alcançam assim o caminho que de JerusalĂ©m vai para BelĂ©m, justamente perto do cubo, encimado por uma pequena cĂșpula redonda, que Ă© a da tumba de Raquel. Todos se aproximam dela para rezar com reverĂȘncia.
â Foi aqui que paramos eu e José⊠EstĂĄ tudo igual ao que era naquele tempo. SĂł a estação Ă© que era diferente. aquele era um dos dias frios do mĂȘs de Casleu. Havia chovido e as estradas tinham ficado alagadas. Depois, veio um vento gelado, pois talvez de noite tivesse caĂdo geada. As estradas estavam duras, mas todas com sulcos feitos pelos carros e pelas multidĂ”es, e eram como um mar cheio de buracos e o meu burrinho se fatigava muitoâŠ
â E tu nĂŁo, minha mĂŁe?
â Oh! eu Te tinha comigo!⊠âe olha para Ele com um rosto tĂŁo feliz, que comove.
Depois toma de novo a palavra:
â A tarde jĂĄ vinha chegando e JosĂ© estava muito preocupado⊠Um vento cada vez mais forte vinha se levantando, um vento que cortava⊠As pessoas se apressavam a caminho de BelĂ©m, esbarrando umas nas outras, e muitos diziam palavras injuriosas ao meu burrinho, porque ele ia muito devagar, procurando os lugares onde podia pĂŽr os cascos⊠Mas Ă© que ele parecia que soubesse que havias Tu⊠e que estavas dormindo o teu Ășltimo sono no berço do meu seio. Fazia frio⊠Mas o que eu sentia era um forte calor. Eu percebia que vinhas vindo. Que vinhas vindo? Poderias dizer: âEu estava lĂĄ, minha mĂŁe, com nove meses.â Sim. Mas agora era como se estivesses vindo dos CĂ©us. Os CĂ©us se abaixavam, se abaixavam sobre mim e eu via os esplendores deles⊠Eu via incendiar-se a Divindade, em sua alegria pelo teu prĂłximo nascimento e aqueles fogos me penetravam, me incendiavam tambĂ©m, me levavam para fora de mim mesma⊠de tudo⊠Frio⊠vento⊠pessoas⊠nada! Eu sĂł via a Deus⊠De vez em quando, com esforço, eu conseguia fazer voltar o meu espĂrito por sobre a terra, e sorria para JosĂ©, que tinha medo de que o frio e a fadiga me fizessem mal e ia guiando o burrinho com cuidado, para que ele nĂŁo tropeçasse, e me envolvia de novo na coberta, para que nĂŁo me resfriasse⊠Mas nada podia acontecer. As sacudidas, eu nem percebia. Parecia-me estar andando por um caminho estrelado, por entre nuvens cĂąndidas e sendo sustentada por anjos⊠E eu sorria⊠Primeiro para Ti⊠Eu olhava para Ti, atravĂ©s da barreira da carne e estavas dormindo com os punhozinhos fechados em teu leitozinho de rosas vivas, meu botĂŁo de lĂrio⊠Depois, sorria para o esposo, que estava tĂŁo aflito, tĂŁo aflito, para encorajĂĄ-lo. Depois para as pessoas, que ainda nĂŁo sabiam estarem jĂĄ respirando na ĂĄura do SalvadorâŠ
Paramos junto à tumba de Raquel para dar um pouco de descanso ao burrinho e para comer um pouco de pão com azeitonas, que eram as nossas provisÔes de pobres. Mas Eu não tinha fome. Não podia ter fome.
Era alimentada pela minha alegria.
207.3
Pusemo-nos de novo a caminho. Vinde. Vou mostrar-vos onde encontramos o pastor⊠NĂŁo tenhais medo de que eu me engane. Eu revivo aquela hora e encontro de novo cada lugar, porque vejo tudo atravĂ©s de uma grande luz angĂ©lica. Talvez a multidĂŁo angĂ©lica estĂĄ de novo aqui, invisĂvel aos olhos dos corpos, mas visĂvel para as almas, com seu luminoso candor e tudo se revela, tudo Ă© mostrado. Eles nĂŁo podem enganar-se, e me vĂŁo conduzindoâŠpara alegria minha e para alegria vossa. AĂ estĂĄ: daquele campo para este, veio Elias com as suas ovelhas e JosĂ© foi pedir-lhe leite para mim. E ali, naquele prado, nĂłs paramos, enquanto ele tirava o leite quente e restaurador, e dava seus conselhos a JosĂ©.
Vinde, vinde⊠Ali estĂĄ, ali estĂĄ o caminho do Ășltimo pequeno vale, antes de BelĂ©m. Fomos por este, porque a estrada principal, nas proximidades da cidade, estava numa grande confusĂŁo de pessoas e cavalgadurasâŠ
207.4
Eis BelĂ©m! Oh! A querida! Querida terra de meus pais, que me deste o primeiro beijo de meu Filho! Tu te abriste, boa e fragrante, como o pĂŁo do qual tens o nome[1], para dar o PĂŁo Verdadeiro ao mundo que estĂĄ morrendo de fome! Tu me abraçaste como uma mĂŁe, tu, na qual ficou o amor materno de Raquel, Terra Santa da BelĂ©m davĂdica, primeiro Templo do Salvador, a Estrela da ManhĂŁ, nascida de JacĂł, a fim de mostrar a rota dos CĂ©us a toda a humanidade. Olhai para ela e vede como estĂĄ bela nesta primavera! Mas, mesmo entĂŁo, ainda que os campos e os vinhedos estivessem despojados, ela estava bela! Um leve vĂ©u de geada voltava a brilhar, a tremeluzir sobre os galhos nus, e eles se tornavam como que polvilhados com diamantes, como se estivessem enrolados em um impalpĂĄvel vĂ©u do ParaĂso. Cada casa soltava fumaça por sua chaminĂ©, pois a hora da ceia estava prĂłxima. E a fumaça, subindo pela encosta atĂ© o perĂmetro, mostrava a cidade, ela tambĂ©m coberta com um vĂ©u⊠Tudo era casto, recolhido Ă espera de⊠de Ti, de Ti, Filho. A terra percebia que estavas vindo. E atĂ© os belemitas Te teriam percebido, porque maus eles nĂŁo sĂŁo, por mais que nĂŁo o acrediteis. Eles nĂŁo podiam hospedar-nos⊠Nas casas de BelĂ©m se comprimiam, arrogantes como sempre, surdos e soberbos, aqueles que ainda hoje o sĂŁo, e esses tais nĂŁo poderiam perceber a tua presença⊠Quantos fariseus, saduceus, herodianos, escribas, essĂȘnios havia lĂĄ! Oh! O serem eles uns obcecados agora, Ă© coisa que jĂĄ vem de terem sido duros de coração entĂŁo. Eles fecharam o coração ao amor para com a sua pobre irmĂŁ naquela tarde⊠e permaneceram, e permanecem nas trevas. Eles rejeitaram a Deus, desde entĂŁo, rejeitando o amor ao prĂłximo.
207.5
Vinde. Vamos Ă gruta. Entrar na cidade, Ă© inĂștil. Os maiores amigos do meu Menino jĂĄ nĂŁo estĂŁo mais lĂĄ. Fica a natureza amiga, com suas pedras, com o seu rio e sua lenha para fazer fogo. A natureza, que percebeu a vinda do seu Senhor⊠EntĂŁo, vinde sem temor. Vai-se por aqui⊠LĂĄ estĂŁo os escombros da Torre de Davi. Oh! querida por mim mais do que um palĂĄcio. Benditas ruĂnas! Bendito rio! Bendita planta que, como por milagre, foste despojada pelo vento de tantos ramos, para que pudĂ©ssemos achar lenha e fazer fogo!
Maria desce, ligeira, para a gruta, atravessa o pequeno rio por uma pinguela que serve de ponte, corre pelo descampado que estå diante dos escombros, cai de joelhos na entrada da gruta, inclina-se e beija o chão. Acompanham-na todos os outros. Estão comovidos⊠O menino, que não a deixa um instante, parece estar ouvindo uma maravilhosa história e os seus olhinhos negros bebem as palavras e os gestos de Maria, não perdendo um só deles.
Maria torna a levantar-se, e entra, dizendo:
â Tudo, tudo como naquele tempo!⊠SĂł que naquele tempo era noite⊠JosĂ© fez fogo quando entrei. EntĂŁo, sĂł entĂŁo, descendo do burrinho Ă© que eu senti como estava cansada e gelada⊠Um boi me saudou e eu fui atĂ© ele para sentir um pouco de calor e para descansar sobre o feno⊠Aqui, onde estou, JosĂ© espalhou mais feno, para fazer-me uma cama e o enxugou para mim, como para Ti, meu Filho, diante das chamas do fogo aceso naquele canto⊠pois JosĂ© era bom como um pai, em seu amor de esposo-anjo⊠E, segurando-nos pelas mĂŁos, como dois irmĂŁos perdidos no escuro da noite, comemos nosso pĂŁo e queijo. Depois, ele foi avivar o fogo, tirando o seu capote para tapar uma abertura⊠Na verdade, desceu um vĂ©u diante da glĂłria de Deus, que descia dos CĂ©us, e eras Tu, meu Jesus⊠e eu fiquei sobre o feno, ao calor dos dois animais, envolvida em meu manto e com a capa de lã⊠à meu querido esposo! Naquela hora de Ăąnsia e de temor na qual eu estava sozinha, diante do mistĂ©rio da primeira maternidade, que Ă© plena do desconhecido para uma mulher, e para mim, naquela Ășnica maternidade, plena tambĂ©m de mistĂ©rio, como teria sido o de ver o Filho de Deus saindo da carne mortal, ele, JosĂ©, foi para mim como uma mĂŁe, foi um anjo⊠foi o meu conforto⊠entĂŁo e sempreâŠ
207.6
Depois veio o silĂȘncio e o sono que envolveram a José⊠para que ele nĂŁo visse aquilo que era para mim o beijo diĂĄrio de Deus⊠E, para mim, depois de um intervalo para as necessidades humanas, sobrevĂȘm-me as ondas desmesuradas de um ĂȘxtase, vindas do mar do ParaĂso e que me elevavam de novo para cima das cristas luminosas, cada vez mais altas, levando-me para cima, mais para cima consigo, para um oceano de luz, de luz, de alegria, de paz, de amor, atĂ© que me encontrei perdida no mar de Deus, do seio de Deus⊠Uma voz veio ainda da terra: âEstĂĄs dormindo, Maria?â Oh! Ela vinha de tĂŁo longe! Parecia mais um eco, uma lembrança da terra! E tĂŁo fraca, que a alma nĂŁo se agita, e nem sei com que palavras respondi enquanto subo, vou subindo ainda por este abismo de fogo, de felicidade infinita, de uma precognição de Deus⊠atĂ© Ele, Ele⊠Oh! Mas Ă©s Tu que nasceste, ou sou Eu que nasci dos Trinos fulgores, naquela noite? Fui eu que Te dei, ou foste Tu que me deste o sopro da vida? Eu nĂŁo seiâŠ
Depois a descida, de um coro a outro coro, de um astro a outro astro, de um estrato a outro estrato, doce, lenta, feliz, tĂŁo plĂĄcida como uma flor levada para o alto por uma ĂĄguia e depois solta no ar e vai descendo lentamente nas asas do ar, tornando-se mais bela por uma gota de chuva que brilha como uma pedra preciosa, por um pedacinho do arco-Ăris arrebatado ao cĂ©u, esse reencontra no torrĂŁo natal⊠à o meu diadema: Tu! Tu sobre o meu coraçãoâŠ
Sentada aqui, depois de ter-te adorado de joelhos, eu te amei. Finalmente, Te pude amar sem as barreiras da carne, e daqui eu me movi para levar-te ao amor daquele que, como eu, era digno de estar entre os primeiros a amar-te. E aqui, entre duas rĂșsticas colunas, eu te ofereci ao Pai. E foi aqui que descansaste, pela primeira vez, sobre o coração de José⊠Depois, eu te enfaixei e, juntos, nĂłs te colocamos aqui⊠Eu te balançava, enquanto JosĂ© enxugava o feno ao fogo e o conservava quente, para depois pĂŽ-lo sobre o teu peito e, em seguida, ficĂĄvamos te adorando nĂłs dois, assim, inclinados sobre Ti como agora, bebendo a tua respiração, olhando atĂ© onde o aniquilamento do amor pode conduzir, chorando as lĂĄgrimas que certamente no CĂ©u se choram, pela alegria inexaurĂvel de ver sempre a Deus.
207.7
Naquela sua recordação, Maria ia e vinha, mostrando os lugares, ardente em seu amor, com um brilho de lĂĄgrimas em seus olhos azuis e um sorriso de alegria em sua boca, inclinando-se de verdade sobre o seu Jesus, que agora estĂĄ sentado ali sobre uma pedra grande, enquanto Ela vai-se lembrando de tudo e o beija por entre os cabelos, chorando e adorando-o, como entĂŁoâŠ
â E depois, os pastores, que entravam aqui para adorar, com seu bom coração e com o grande suspiro da terra, que aqui com eles entrava, com aquele odor de humanidade, de rebanhos e de feno. Fora e por toda parte, os anjos para adorar-Te com seu amor, os cantos deles que a criatura humana Ă© incapaz de repetir, e com o amor dos CĂ©us, com aquele ar de CĂ©u que entrava com eles, que eles traziam junto com os seus fulgores⊠Foi o teu nascimento bendito!âŠ
Maria ajoelhou-se ao lado do Filho, e estĂĄ chorando de emoção, com a cabeça inclinada sobre os joelhos dele. NinguĂ©m, por algum tempo, tem coragem de falar. Mais ou menos emocionados, os presentes olham ao redor, uns para os outros, como se, por entre as teias de aranha e as pedras escabrosas, eles esperassem ir vendo pintada a cena, que havia sido descritaâŠ
Maria recobra a coragem e diz:
â Eis. Eu falei do infinitamente simples e infinitamente grande nascimento do meu Filho. Com meu coração de mulher, mas nĂŁo com a sabedoria de mestre. Outra coisa nĂŁo hĂĄ, porque foi a maior coisa da Terra, escondida por debaixo das aparĂȘncias mais comuns.
207.8
â Mas, e o dia seguinte? E depois dele? âperguntam muitos, entre os quais as duas Marias.
â No dia seguinte? Oh! Muito simples! Fui a mĂŁe que dĂĄ leite ao seu menino, que o lava e enfaixa, como fazem todas as outras mĂŁes. Eu esquentava a ĂĄgua buscada no rio, sobre o fogo que era aceso ali fora, a fim de que a fumaça nĂŁo fizesse aqueles dois olhinhos azuis chorar e, depois, no canto mais abrigado da gruta, em uma velha gamela, eu lavava o meu Filho e o enrolava em panos frescos. Depois, eu ia ao rio lavar os paninhos e os estendia ao sol⊠Em seguida, alegria das alegrias, eu punha Jesus ao peito e Ele sugava, tornando-se mais corado e feliz. No primeiro dia, Ă hora do maior calor, fui sentar-me ali fora, para vĂȘ-lo bem. Aqui a luz nĂŁo entra direta, mas se filtra, e a luz e as chamas dĂŁo Ă s coisas uma aparĂȘncia esquisita. Eu fui lĂĄ para fora, ao sol, e olhei para o Verbo Encarnado. Foi entĂŁo que a mĂŁe conheceu o Filho, a Serva de Deus ao seu Senhor. AĂ eu fui mulher e adoradoraâŠ. Depois, a casa de Ana⊠aqueles dias junto ao teu berço, os teus primeiros passos, a primeira palavra. Mas isso foi depois, a seu tempo⊠E nada, nada foi igual Ă hora do teu nascimento⊠SĂł no retorno para Deus reencontrarei aquela plenitudeâŠ
â Mas⊠deixar para partir assim, na Ășltima hora! Que imprudĂȘncia! Por que nĂŁo esperar? O decreto previa tambĂ©m uma data mais afastada, para os casos excepcionais, como os de nascimentos e doenças. Alfeu falou assim⊠âdisse Maria de Alfeu.
â Esperar? Oh! NĂŁo. Naquela tarde em que JosĂ© trouxe a notĂcia, eu e Tu, meu Filho, saltamos de alegria. Era o chamado, porque aqui, somente aqui Ă© que devias nascer, como os Profetas haviam dito. E aquele decreto de improviso foi como um cĂ©u piedoso para JosĂ©, pois acabava atĂ© com a lembrança da suspeita dele. Era aquilo que eu esperava para Ti, para ele, para o mundo judaico e para o mundo futuro, atĂ© o fim dos sĂ©culos. Estava dito[2]. E, como estava dito, aconteceu. Esperar! Pode a esposa aceitar uma espera para o sonho de suas nĂșpcias? Por que esperar?
â Mas⊠por tudo o que podia acontecer⊠âdiz ainda Maria de Alfeu.
â Eu nĂŁo tinha medo nenhum. Eu descansava em Deus.
â Mas, tu sabias que tudo teria sido assim?
â NinguĂ©m me havia dito isso, nem eu pensava nisso, tanto assim, que para encorajar JosĂ©, eu deixei que ele ficasse dĂșvidando, e a vĂłs tambĂ©m, sobre se jĂĄ era, ou nĂŁo, o tempo do nascimento. Mas eu sabia, isto eu sabia, que na festa das Luzes nasceria a Luz do mundoâŠ
â E tu, entĂŁo, minha mĂŁe, por que nĂŁo acompanhaste Maria? E o pai, por que nĂŁo pensou nisso? VĂłs tambĂ©m devĂeis ter vindo aqui. Hoje nĂŁo viemos todos? âpergunta sĂ©rio Judas Tadeu.
â Teu pai tinha decidido que viria depois das EncĂȘnias, e disse isto ao irmĂŁo dele. Mas JosĂ© nĂŁo quis esperar.
â Mas tu, ao menos⊠âretruca ainda Tadeu.
â NĂŁo a censures, Judas. De comum acordo, achamos justo descer um vĂ©u sobre o mistĂ©rio deste nascimento.
â Mas JosĂ© sabia que ele teria acontecido com aqueles sinais? Se nem tu sabias, como podia ele saber?
â NĂłs nĂŁo sabĂamos de nada, a nĂŁo ser que Ele devia nascer.
â E entĂŁo?
â E entĂŁo a Sabedoria divina nos guiou assim, como era justo. O nascimento de Jesus, sua presença no mundo, devia aparecer privada de tudo o que fosse extraordinĂĄrio e provocasse a ira de satanĂĄs⊠E vĂłs estais vendo como o Ăłdio atual de BelĂ©m para com o Messias Ă© uma consequĂȘncia da primeira manifestação de Cristo. O rancor do demĂŽnio usou da revelação para fazer derramar sangue e, pelo sangue derramado, fazer nascer o Ăłdio.
207.9
EstĂĄs contente, SimĂŁo de Jonas, tu que nĂŁo dizes nada e quase nem respiras mais?
â Muito⊠e a tal ponto que me parece que estou fora do mundo, em um lugar ainda mais santo, do que se estivesse do outro lado do vĂ©u do Templo⊠A tal ponto, que agora que eu te vi neste lugar, e com a luz daquele tempo, eu fico temeroso por haver-te tratado com respeito, sim, mas como uma grande mulher, sempre mulher. Agora⊠agora eu nĂŁo terei coragem de te chamar como antes: âMaria.â Antes, eras para mim a mamĂŁe do meu Mestre. Agora, agora que eu te vi sobre as alturas daquelas ondas celestes, que eu te vi como Rainha, eu miserĂĄvel, faço assim, como um escravo que sou âe se joga no chĂŁo para beijar os pĂ©s de Maria.
Nesse momento, Jesus lhe fala:
â SimĂŁo, levanta-te. Vem cĂĄ, bem perto de Mim.
Pedro vai, entĂŁo, para a esquerda de Jesus, porque Maria estĂĄ Ă direita.
â Que Ă© que somos agora nĂłs? âpergunta Jesus.
â NĂłs? Ora, somos Jesus, Maria e SimĂŁo.
â EstĂĄ bem. Mas, quantos somos?
â TrĂȘs, Mestre.
â Portanto, Ă© uma trindade. Um dia[3] no CĂ©u Ă Divina Trindade veio um pensamento: âAgora chegou o tempo de o Verbo ir Ă terraâ, e, em uma palpitação de amor, o Verbo veio Ă terra. Separou-se, pois do Pai e do espĂrito Santo. Veio trabalhar na terra. No CĂ©u, os Dois que ficaram contemplaram as obras do Verbo e se conservaram mais unidos do que nunca, para assim unirem o Pensamento e o Amor, a fim de ajudar a Palavra que trabalha na terra. Um dia virĂĄ em que do CĂ©u baixarĂĄ esta ordem: âJĂĄ Ă© tempo para que Tu voltes, porque tudo jĂĄ se cumpriuâ, e entĂŁo, o Verbo voltarĂĄ aos CĂ©us, assim (e Jesus dĂĄ um passo para trĂĄs, deixando Maria e Pedro onde eles estavam) do alto dos CĂ©us, contemplarĂĄ as obras dos dois que ficaram na terra, os quais, por um movimento santo, se unirĂŁo mais do que nunca, para unirem o poder e o amor, e fazer deles um meio para que se cumpra o desejo do Verbo: A redenção do mundo atravĂ©s do perpĂ©tuo ensinamento de sua Igreja. E o Pai, Filho e espĂrito Santo farĂŁo dos seus raios uma corrente para ajuntar cada vez mais os dois que ficaram na terra: minha mĂŁe, Ă© o amor; e tu, o poder. DeverĂĄs, pois, tratar bem Maria como rainha, sim, mas nĂŁo como um escravo. Que te parece?
â A mim me parece o que Tu quiseres. Eu estou aniquilado. Eu, ficar com o poder? Oh! Se Ă© que eu sou o poder, entĂŁo sim Ă© que eu me devo apoiar nela! Oh! MĂŁe do meu Senhor, nĂŁo me abandones nunca, nunca, nuncaâŠ
â NĂŁo tenhas medo. Eu te terei sempre pela mĂŁo, do mesmo modo como fazia com o meu Menino, atĂ© que Ele se tornou capaz de andar sozinho.
â E depois?
â E depois eu te socorrerei com a oração. Coragem, SimĂŁo. Nunca duvides do poder de Deus. Dele nĂŁo duvidei eu nem JosĂ©. E nem tu deves dĂșvidar. Deus dĂĄ sua ajuda a cada hora, desde que permaneçamos humildes e fiĂ©is.