33.1 Esta manhĂŁ tive um despertar suave. Ainda estava entre as nĂ©voas do sono, e ouvia, uma voz muito clara, que cantava docemente uma lenta canção de ninar. Parecia uma pastoral de Natal, num ritmo vagaroso e antigo. Eu ia acompanhando aquele motivo e aquela voz, sempre mais me deleitando, e fui acordando, ao som daquelas ondas suaves. Finalmente, despertei completamente, e pude compreender. EntĂŁo disse: âEu te saĂșdo, Maria, cheia de graça!â, pois era a mĂŁe que estava cantando. E ela começou a cantar mais forte, depois de ter dito: âEu tambĂ©m te saĂșdo. Vem, e sĂȘ feliz!â
Eu a vi. Estava na casa de BelĂ©m, no quarto que ela ocupava, atenta em embalar Jesus, para fazĂȘ-lo dormir. No quarto estava o tear de Maria e uns trabalhos de costura. Parecia que Maria tivesse parado o trabalho para dar de mamar ao Menino, trocar-lhe as faixas, ou melhor, as fraldas, pois ele jĂĄ era um bebĂȘ de meses. Diria seis ou oito meses, no mĂĄximo, e ela estava pensando em voltar ao trabalho, assim que o Menino tivesse adormecido.
JĂĄ era fim de tarde. O pĂŽr-do-sol estava quase terminando, espalhando flocos de ouro pelo cĂ©u sereno. Os rebanhos voltavam ao cercado, pastando aqui e acolĂĄ as Ășltimas folhas de um prado florido, e baliam, levantando o focinho.
O Menino custava a adormecer. Parecia estar um pouco inquieto, como os bebĂȘs costumam ficar por causa do nascer dos dentes, ou por algum outro desconforto do nascituro.
33.2 Escrevi, como pude, no escuro daquela hora matinal, num pedaço de papel, e agora o copio aqui:
âAs nuvenzinhas douradas â quais rebanhos do Senhor.
Sobre o prado todo em flor â um outro rebanho estĂĄ a olhar.
Mas se eu tivesse todos os rebanhos â que estĂŁo sobre a terra
Meu cordeirinho querido â haverias de ser sempre TuâŠ
Dorme, dorme, dorme, dormeâŠ
NĂŁo chores maisâŠ
Mil estrelas reluzentes â estĂŁo no cĂ©u a olhar.
Tuas serenas pupilas â nĂŁo as faças mais chorar.
Os teus olhos de safira â sĂŁo as estrelas do meu coração.
O teu pranto Ă© a minha dor! â Oh! NĂŁo chores maisâŠ
Dorme, dorme, dorme, dormeâŠ
NĂŁo chores maisâŠ
Todos os anjos resplandecentes â que no ParaĂso estĂŁo,
fazem coroa a Ti inocente â para encantar-se com teu rosto.
Mas Tu choras. Queres a mamĂŁe. â Queres a mamĂŁe, mamĂŁe,
aqui pertinho cantando: â nana nenĂȘ, nana nenĂȘâŠ
Dorme, dorme, dorme, dormeâŠ
NĂŁo chores maisâŠ
Depois o cĂ©u se tornarĂĄ cor-de-rosa â pela aurora que retorna,
e a mamĂŁe ainda nĂŁo repousa â para nĂŁo te deixar chorar.
Ao despertar, dirĂĄs: âmamĂŁe!â â âFilho!â, eu te direi,
e um beijo de amor e vida â junto ao leite te dareiâŠ
Dorme, dorme, dorme, dormeâŠ
NĂŁo chores maisâŠ
Sem mamĂŁe nĂŁo podes estar â nem mesmo no CĂ©u sonhando.
Vem ficar sob o meu véu, que eu te farei dormir.
O meu peito serĂĄ teu travesseiro â os meus braços o teu berço.
NĂŁo tenhas medo algum! â Eu estou aqui ContigoâŠ
Dorme, dorme, dorme, dormeâŠ
NĂŁo chores maisâŠ
Eu Contigo estarei sempre. â Ăs a vida do meu coraçãoâŠ
Ele dorme⊠Parece uma flor â pousado sobre o meu seioâŠ
Ele dorme⊠NĂŁo perturbem! â seu Pai Santo estarĂĄ vendo?
Esta vista enxuga o pranto â do meu doce JesusâŠ
Dorme, dorme, dorme, dormeâŠ
NĂŁo chores maisâŠ
33.3 Falar da graça desta cena, Ă© impossĂvel. NĂŁo Ă© mais que uma mĂŁe que embala o seu pequenino. Mas Ă© aquela mĂŁe, e Ele Ă© aquele Pequenino! Poderia pensar que graça, que amor, que pureza, que CĂ©u hĂĄ nesta pequena, grande e suave cena, que sĂł com sua lembrança me alegra. Para confirmĂĄ-la fica a melodia, que eu repito para mim. Para fazĂȘ-la ouvir tambĂ©m a ela. Mas eu nĂŁo tenho aquela voz de Maria, de prata, purĂssima, a voz virginal!⊠E, ao cantar, ficarei parecendo um realejo sem sonoridade. Mas, nĂŁo importa. Farei como puder. Que bela canção nĂŁo seria, para ser cantada em torno ao Berço de Natal!
A mĂŁe antes balançava o berço. Mas depois, vendo que Jesus nĂŁo se aquietava, tomou-o no colo, sentou-se perto da janela aberta, ao lado do bercinho e, balançando-o levemente, ao ritmo do canto, repetiu a cantiga duas vezes, atĂ© que o pequeno Jesus fechou os olhiÂnhos, inclinou a cabecinha sobre o peito materno, e adormeceu assim, com o rostinho comprimido no calor bom daquele seio, com uma das mĂŁozinhas apoiada sobre o seio da mĂŁe, perto de seu rostiÂnho rosado, e a outra mĂŁo abandonada sobre o colo materno. O vĂ©u de Maria fazia sombra para o santo Filhinho.
Depois Maria se levantou, com o maior dos cuidados, e colocou o seu Jesus no bercinho, cobrindo-o com os pequenos panos, estendeu por cima um vĂ©u para protegĂȘ-lo das moscas e do ar, e ficou parada ali, contemplando o seu Tesouro adormecido. Maria tinha uma mĂŁo sobre o coração, e a outra ainda apoiada sobre o berço, pronta para balançå-lo, se houvesse algum sinal de que o menino ia despertar, e sorria, feliz, estando um pouco inclinada, enquanto as sombras e o silĂȘncio desciam sobre a terra e invadiam o quartinho da Virgem.
Que paz! Que beleza! Que felicidade!
33.4 NĂŁo Ă© uma visĂŁo grandiosa, talvez seja julgada inĂștil no conjunto das outras porque nĂŁo revela nada de especial. Eu sei. Mas para mim Ă© uma verdadeira graça, e assim a reputo, porque torna plĂĄcido o meu espĂrito, puro e amoroso, como se estivesse sendo recriado pelas mĂŁos da mĂŁe. Penso que tambĂ©m a ela serĂĄ agradĂĄvel por este motivo. Somos todos âcrianças.â Melhor assim! Desta forma agradamos a Jesus. Os outros, doutos e complicados, pensem o que quiserem, e nos chamem de âpueris.â NĂłs nĂŁo nos preocupamos com isso, nĂŁo Ă© mesmo?