Jesus estende os braços. Judas, que vĂȘ o gesto, diz:
â NĂŁo fales! NĂŁo Ă© prudente!
Mas Jesus enche a praça com sua voz potente:
â Homens de JudĂĄ! Homens de BelĂ©m, ouvi! Ouvi, Ăł vĂłs, mulheres da terra consagrada a Raquel! Ouvi a alguĂ©m que vem de Davi que, perseguido, sofreu, e que tornado digno de falar, fala, para dar-vos luz e conforto. Ouvi.
As pessoas param de gritar, discutir, comprar, e se ajuntam.
â Ă um rabi!
â Certamente vem de JerusalĂ©m.
â Quem Ă©?
â Que belo homem!
â Que voz!
â Que modos!
â E, alĂ©m disso, se Ă© da descendĂȘncia de Davi!
â EntĂŁo Ă© nosso.
â Ouçamos, ouçamos!
Toda a praça estĂĄ agora perto da escadinha, que parece um pĂșlpito.
â No GĂȘnesis estĂĄ escrito[2]: âEu porei inimizade entre ti e a muÂlher⊠esta te esmagarĂĄ a cabeça, e tu armarĂĄs ciladas ao seu calcaÂnhar.â E estĂĄ escrito ainda: âEu multiplicarei os teus sofrimentos e as tuas gestaçÔes⊠e a terra produzirĂĄ abrolhos e espinhos.â Esta foi a condenação do homem, da mulher e da serpente.
Tendo vindo de longe para venerar o tĂșmulo de Raquel, ouvi no vento da tarde, no orvalho da noite, no lamento do rouxinol pela manhĂŁ, repetir-se os soluços da antiga Raquel[3], pelas tantas bocas das mĂŁes de BelĂ©m encerradas nos sepulcros, ou nos coraçÔes. E ouvi o rugir da dor de JacĂł, na dor dos viĂșvos, que ficaram sem suas esposas, porque a dor as matou⊠Eu choro convosco. Mas ouvi, Ăł irmĂŁos da minha terra. BelĂ©m, terra bendita, a menor das cidades de JudĂĄ, mas a maior aos olhos de Deus e da humanidade porque berço do Salvador, como diz MiquĂ©ias[4], exatamente por ser assim, por ser destinada a ser o tabernĂĄculo sobre o qual pousaria a GlĂłria de Deus, o Fogo de Deus, o seu Amor encarnado, desencadeou o Ăłdio de SatanĂĄs.
âPorei inimizade entre ti e a mulher. Ela te manterĂĄ sob o seu pĂ©, e tu armarĂĄs ciladas ao seu calcanhar.â Que inimizade hĂĄ maior do que aquela, que tem em mira os filhos, que sĂŁo o coração do coração da mulher? E qual Ă© o mais forte pĂ© do que aquele da mĂŁe do Salvador? Eis porque foi natural a vingança de SatanĂĄs vencido, o qual, nĂŁo ao calcanhar, mas ao coração das mĂŁes, pela MĂŁe, ocorreu a sua insĂdia.
Oh! Multiplicados sofrimentos, ao perderem os filhos, depois de tĂȘ-los dado Ă luz! Oh! TerrĂveis espinhos de ter semeado e suado pela prole e serem pais sem terem mais a sua prole! Mas jubila, BelĂ©m! O teu sangue mais puro, o sangue dos inocentes, fez um caminho de fogo e de pĂșrpura para o MessiasâŠ
74.8
A multidão, que vinha sempre mais rumorejando, desde quando Jesus falou no Salvador, e depois na mãe Dele, agora mostra um sinal mais claro de agitação.
â Cala-te, Mestre âdiz Judasâ. E vamos embora.
Mas Jesus nĂŁo lhe dĂĄ ouvidos, e continua:
â ⊠para o Messias, que a Graça de Deus Pai salvou dos tiranos, a fim de conservĂĄ-lo para a salvação do povo eâŠ
Uma voz estridente de mulher grita:
â Cinco, cinco deles eu tinha dado Ă luz, e mais nenhum estĂĄ em minha casa! Pobre de mim!
E grita histericamente. à o começo da algazarra.
Uma outra se revolve na poeira, rasga as vestes, mostra uma de suas mamas mutilada no bico, e grita:
â Aqui, aqui sobre esta mama Ă© que degolaram o meu primogĂȘnito! A espada cortou-lhe o rosto, juntamente com o bico do meu seio. Oh! O meu Eliseu!
â E eu? E eu? Eis ali o meu palĂĄcio! TrĂȘs tĂșmulos em um, velados pelo pai. Marido e filhos juntos. Eis, eis!⊠Se aqui estĂĄ o Salvador, que ele me devolva os filhos, me devolva o esposo, me salve do desespero e de Belzebu, me salve!
Todos gritam.
â Os nossos filhos, os maridos, os pais! Devolva-os, se Ă© que estĂĄ aqui!
Jesus move os braços, impondo silĂȘncio.
â IrmĂŁos da minha terra, Eu gostaria de devolver-vos vossos filhos em sua prĂłpria carne. Mas Eu vos digo: Sede bons, resignados, perdoai, esperai, alegrai-vos em uma esperança, jubilai em uma certeza. Logo reavereis os vossos filhos, anjos no CĂ©u, porque o Messias estĂĄ para abrir as portas dos CĂ©us e, se fordes justos, a morte serĂĄ Vida que vem e Amor que voltaâŠ
â Ah! Ăs Tu o Messias? Dize-o em nome de Deus!
Jesus abaixa os braços, com aquele seu gesto suave, manso, que parece um abraço, e diz:
â Eu o sou!
â Fora! Fora! EntĂŁo Ă© por tua culpa!
Passa voando uma pedra, por entre assobios e escĂĄrnios.
74.9
Judas då um belo salto⊠oh! se ele tivesse sido sempre assim! Coloca-se na frente do Mestre, de pé sobre o muro do terraço, o manto desdobrado, e recebe, destemido, as pedradas, e até uma que lhe sangra, e grita para o João e o Simão:
â Levai Jesus embora. Levai-o para atrĂĄs daquelas ĂĄrvores. Depois eu irei. Ide, em nome do CĂ©u!
E para a multidĂŁo:
â CĂŁes hidrĂłfobos! Eu sou do Templo, e ao Templo e a Roma vos denunciarei.
A multidĂŁo, por um momento, sente medo. Mas depois recomeça o apedrejamento, por sorte, inĂĄbil. E Judas, impassĂvel o recebe, respondendo com afrontas Ă s maldiçÔes do povo. AliĂĄs, agarra no ar uma das pedras e a remete sobre a cabeça de um velhote, que grita, como uma pega que estĂĄ sendo depenada viva. E, como estĂŁo tentando subir atĂ© o seu pedestal, ele, rĂĄpido, pega um galho seco, que estĂĄ no chĂŁo (agora ele desceu do muro), e desce o galho sobre costas, cabeças, mĂŁos, sem piedade.
Chegam as milĂcias e, com suas lanças, vĂŁo abrindo caminho:
â Quem Ă©s? Por que essa briga?
â Um judeu estĂĄ sendo agredido por estes plebeus. Estava comigo um rabino conhecido dos sacerdotes. Ele estava falando a estes cĂŁes. E eles escaparam das correntes, e nos atacaram.
â Quem Ă©s tu?
â Judas de Keriot, que jĂĄ fui do Templo, e agora sou discĂpulo do Rabi Jesus da GalilĂ©ia. Sou amigo do fariseu SimĂŁo, do saduceu JocanĂŁ, do conselheiro do SinĂ©drio JosĂ© de ArimatĂ©ia, e, enfim, isto podes conferir, de Eleazar ben Ana, o grande amigo do ProcĂŽnsul.
â Irei verificar. Para onde vais?
â Vou com meu amigo para Keriot, e depois para JerusalĂ©m.
â Vai. NĂłs defenderemos tuas costas.
Judas estende a mĂŁo com umas moedas para o soldado. Deve ser uma coisa ilĂcita⊠mas usual, porque o soldado as pega, rĂĄpido e cauteloso, o saĂșda e sorri. Judas desce do seu pĂłdio e vai aos saltos pelo campo inculto, e alcança os companheiros.
â EstĂĄs muito ferido?
â Coisa de nada, Mestre. Depois, foi por Ti⊠Mas eu tambĂ©m bati. Devo estar todo sujo de sangueâŠ
â Sim, na face. Aqui hĂĄ um fio de ĂĄgua.
JoĂŁo molha um paninho e lava a face de Judas.
â Lamento Judas⊠Mas vĂȘ⊠tambĂ©m dizer a eles que Ă©ramos judeus, segundo o teu senso prĂĄticoâŠ
â SĂŁo uns animais. Creio que terĂĄs ficado persuadido disso, Mestre. E que nĂŁo insistirĂĄs.
â Oh! NĂŁo. NĂŁo por medo. Mas porque Ă© inĂștil, por enquanto. Quando nĂŁo nos querem, nĂŁo os maldizemos, mas nos retiramos, rezando pelos pobres loucos, que estĂŁo morrendo de fome, e nĂŁo enxergam o PĂŁo. Vamos por este caminho remoto. Creio que podemos tomar o caminho para Hebron. Para os pastores, se os encontrarmos.
â Para levarmos mais pedradas?
â NĂŁo. Para dizer a eles: âSou Euâ.
â Ah! EntĂŁo Ă© certo que vĂŁo bater em nĂłs. HĂĄ trinta anos que estĂŁo sofrendo por tua causa!âŠ.
â Veremos.
E lĂĄ se vĂŁo por um pequeno bosque compacto, sombreado, fresco, e eu os perco de vista.