EMF 26.3-5
O Evangelho como me foi revelado
Citação
26.3 Maria leva um susto, ao ouvir uma batida forte na porta de saĂda da casa. Ela deixa ali mesmo a roca e o fuso, e se levanta para ir abrir. Ainda que sua roupa seja solta e ampla, nĂŁo consegue esconder completamente a redondez de seu ventre.
Ei-la, agora, diante de JosĂ©. Maria empalidece, atĂ© nos lĂĄbios. Agora seu rosto estĂĄ parecendo o de uma vĂtima exangue. Maria olha com uns olhos como os de quem interroga tristemente. JosĂ© olha para ela com uns olhos que parecem suplicantes. Eles se calam, olhando um para o outro. Depois, Maria abre a boca:
â A esta hora, JosĂ©? EstĂĄs precisando de alguma coisa? Que me queres dizer? Vem.
José entra, e fecha a porta. Mas não fala nada.
â Fala, JosĂ©. Que queres de mim?
â Quero o teu perdĂŁo.
José se inclina, como se quisesse ajoelhar-se. Mas Maria, sempre tão reservada em tocar nele, agora o agarra pelos ombros decididamente, e o impede de ajoelhar-se.
A cor vai e volta ao rosto de Maria, que ora estĂĄ corada, ora branca como antes:
â O meu perdĂŁo? NĂŁo tenho nada que te perdoar, JosĂ©. SĂł tenho que te agradecer, mais uma vez, por tudo o que fizeste aqui dentro na minha ausĂȘncia, e pelo amor que me tens.
José olha para ela, e vejo duas grandes gotas que se formam nas cavidades de seus olhos profundos, e ali estão como sobre a borda de um vaso prontas para, logo em seguida, rolarem por sobre as faces e a barba de José.
â PerdĂŁo, Maria. Eu desconfiei de ti. Agora eu sei. Sou indigno de possuir tĂŁo grande tesouro. Faltei-te com a caridade, e te acusei em meu coração. Acusei-te injustamente, porque nĂŁo te perguntei antes a verdade. Faltei contra a lei de Deus, nĂŁo te amando como me amariaâŠ
â Oh! nĂŁo! NĂŁo faltaste!
â Sim, faltei, Maria! Se eu tivesse sido acusado de um tal delito, eu teria me defendido. Tu⊠Eu nĂŁo te estava concedendo o direito de te defenderes, porque eu jĂĄ estava atĂ© tomando decisĂ”es, sem te perguntar nada. Faltei para contigo, ofendendo-te com minha suspeita. Ora, atĂ© mesmo a suspeita jĂĄ Ă© uma ofensa, Maria. Porque quem suspeita, nĂŁo conhece. E eu nĂŁo te conhecia, como devia. Mas, pela dor que eu sofri⊠trĂȘs dias de suplĂcio, perdoa-me, Maria!
â NĂŁo tenho nada que te perdoar. Pelo contrĂĄrio, eu Ă© que te peço perdĂŁo pela dor que te causei.
â Oh! Sim. Foi uma grande dor. Que dor! Olha, hoje de manhĂŁ me disseram que sobre as tĂȘmporas meus cabelos jĂĄ estĂŁo brancos e que no rosto jĂĄ estou com rugas. Estes trĂȘs dias pareceram-me mais de dez anos!
26.4 Mas, por que, Maria, foste tão humilde, a ponto de calares tua glória até diante de mim, teu esposo, e deixares assim que eu suspeitasse de ti?
José não estå de joelhos, mas estå tão inclinado, como se estivesse de joelhos, e Maria, então lhe pousa a mão sobre a cabeça, e sorri. Parece o estar absolvendo. Ela diz:
â Se eu nĂŁo tivesse sido humilde de uma maneira perfeita, nĂŁo teria merecido conceber o Esperado, que vem para anular a culpa de soberba, que arruinou o homem. AlĂ©m disso, eu obedeci⊠Deus me pediu essa obediĂȘncia. Ela me custou tanto⊠por causa de ti, pela dor que dela te adviria. Mas eu sĂł tinha que obedecer. Eu sou a serva de Deus, e os servos nĂŁo discutem as ordens que recebem. Eles vĂŁo executĂĄ-las, JosĂ©, ainda quando os fazem chorar sangue.
Maria chora silenciosamente, enquanto vai dizendo estas palaÂvras. E, tĂŁo silenciosamente, que JosĂ©, inclinado como estĂĄ, nem percebe isso, atĂ© que uma lĂĄgrima sua caiu no chĂŁo. EntĂŁo, ele levanta a cabeça e (Ă© a primeira vez que o vejo fazer isso) aperta as mĂŁozinhas de Maria com suas mĂŁos morenas e fortes, beija as pontas daqueles dedos rosados e tĂŁo delicados, que despontam como botĂ”es de pessegueiro, do anel formado pelo aperto das mĂŁos de JosĂ©.
26.5 â Agora Ă© preciso tomar providĂȘncias para queâŠ
José não diz mais nada, mas olha para o corpo de Maria, e ela fica ruborizada, e de repente se assenta, para não ficar assim exposta àquele olhar que a estå observando.
â SerĂĄ preciso agirmos logo. Eu virei aqui. Realizaremos o casamento⊠Na semana que vem. EstĂĄ bem assim?
â Tudo o que fazes estĂĄ bem, JosĂ©. Tu Ă©s o chefe da casa, e eu sou tua serva.
â NĂŁo. Eu sou o teu servo. Eu sou o feliz servo do meu Senhor, que estĂĄ crescendo em teu ventre. Tu Ă©s bendita entre todas as mulheres de Israel. Esta tarde jĂĄ avisarei os parentes. E depois⊠quando eu estiver aqui, iremos preparando tudo para receber⊠Oh! como poderei eu receber a Deus em minha casa? A Deus em meus braços? Isso me farĂĄ morrer de alegria. Eu nunca poderei ousar nem tocar nele!âŠ
â Tu bem que o poderĂĄs, JosĂ©, como eu o poderei pela graça de Deus.
â Mas tu Ă©s tu. Eu sou um pobre homem, o mais pobre dos filhos de Deus!âŠ
â Jesus vem ao mundo por nĂłs, que somos os pobres, para fazer-nos ricos em Deus, Ele vem a nĂłs dois, porque somos os mais pobres e reconhecemos que o somos. Alegra-te, JosĂ©. A estirpe de Davi jĂĄ tem o Rei que esperava, e a nossa casa se tornou mais faustosa do que o palĂĄcio de SalomĂŁo, porque aqui serĂĄ o cĂ©u e nĂłs dividiremos com Deus o segredo de paz que mais tarde os homens saberĂŁo. CrescerĂĄ entre nĂłs, e os nossos braços serĂŁo o berço do Redentor, que irĂĄ crescendo, e as nossas fadigas dar-lhe-ĂŁo um pĂŁo⊠Oh! JosĂ©! Ouviremos a voz de Deus, a chamar-nos de âpaiâ e de âmĂŁeâ! Oh!âŠ
E Maria chora de alegria. Um choro de felicidade! Enquanto isso, José, ajoelhado agora aos pés dela, chora, com a cabeça quase escondida na ampla veste de Maria, que desce, em muitas dobras, por sobre os simples ladrilhos do pavimento do pequeno quarto.
A visĂŁo termina aqui.