Notas da palavra-chave

A Virgem Maria

Tema: Palavras-chave principais e transversais 🌟 · PĂĄgina 28 de 32

Conforto de leitura

EMF 196.7-8 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Mas nĂŁo seria mais bonito continuar a lição do Mestre, em vez de ficarmos parecendo uns cabritos irritados? –pergunta o pacĂ­fico TomĂ©.

– É verdade, Mestre. Continua a falar-nos de tua mãe. É tão cheia de luz a sua infñncia. Ela nos torna a alma virgem por reflexo e eu, um pobre pecador, tenho tanta necessidade disso! –exclama Mateus.

– Que Ă© que Eu vos devo dizer? HĂĄ tantos episĂłdios, um mais doce do que o outro


– Ela os contou?

– Alguns. Mas muitos mais JosĂ©: foi a mais bela narração feita a Mim quando criança, e tambĂ©m Alfeu de Sara, que era pouco mais velho que minha mĂŁe e foi amigo dela nos breves anos em que ela esteve em NazarĂ©.

– Oh! Então, conta
 –suplica-lhe João.

Todos se pÔem ao redor dele, sentados à sombra das oliveiras, com Jabé no centro, olhando fixamente para Jesus, como se estivesse ouvindo uma paradisíaca lenda.

– Eu vos falarei da lição de castidade que deu minha mãe, poucos dias antes de ir para o Templo, ao seu pequeno amigo e a muitos outros.

Havia-se casado naquele dia uma moça de NazarĂ©, parente de Sara, e Joaquim e Ana tambĂ©m tinham sido convidados para a festa das nĂșpcias.Com eles foi a pequena Maria que, junto com outras crianças, tinha o encargo de jogar pĂ©talas desfolhadas sobre caminho da esposa. Dizem que era belĂ­ssima de pequena, e todos a disputavam, depois da festiva entrada da noiva. Era muito difĂ­cil ver Maria, porque ela vivia sempre em casa, pois gostava muito de uma pequena gruta que dizia ser a “dos seus esponsais”, mais do que qualquer outro lugar. Por isso, quando era vista — loura, rosada e graciosa —, era cumulada de carĂ­cias. Chamavam-na de “A Flor de NazarĂ©â€, ou entĂŁo “A PĂ©rola da Galileia”, ou ainda “A Paz de Deus”, lembrando o enorme arco-Ă­ris, que se tinha formado, de repente, ao primeiro vagido dela. E ela era, de fato, tudo o que diziam e mais ainda. É a Flor do CĂ©u e da Criação, Ă© a PĂ©rola do ParaĂ­so, e a Paz de Deus
 Sim, a Paz. Eu sou o PacĂ­fico, porque sou Filho do Pai e filho de Maria: A Paz Infinita e a Paz Suave.

Naquele dia todos a queriam beijar e tomar no colo. E ela, esquivando-se aos beijos e aos contatos, disse com uma delicada gravidade: “Eu vos peço: NĂŁo me amarroteis.” Eles pensaram que Ela estava falando de sua veste de linho, cingida Ă  cintura com uma faixa azul, e tambĂ©m nos pequenos pulsos, no pescoço, ou entĂŁo da pequena grinalda com florzinhas azuis com que Ana a tinha coroado, para conservar em seu lugar os cachinhos do cabelo.

E, assim pensando, eles lhe garantiram que nĂŁo amarrotariam nem a veste nem a grinalda.

Mas ela, segura, como uma pequena mulher de trĂȘs anos, de pĂ©, no meio de um cĂ­rculo de adultos, disse-lhes sĂ©ria: “NĂŁo estou pensando no que se repara. Estou falando da minha alma. Ela Ă© de Deus. E nĂŁo quer ser tocada, a nĂŁo ser por Deus.” EntĂŁo lhe disseram: “NĂłs beijamos a ti, nĂŁo a tua alma.” E Ela: “O meu corpo Ă© templo da alma, e o sacerdote nele Ă© o espĂ­rito. O povo nĂŁo Ă© admitido no recinto sacerdotal. Eu vo-lo peço. NĂŁo entreis no recinto de Deus.”

Alfeu, que jĂĄ tinha entĂŁo mais de oito anos, e que a amava muito, encontrando-a perto da pequena gruta, ocupada em apanhar flores, lhe perguntou: “Maria, quando fores mulher, nĂŁo me quererias como esposo?” Nele ainda estava viva a lembrança da festa de nĂșpcias Ă  qual estivera presente. E ela: “Eu te amo muito. Mas, nĂŁo olho para ti como para um homem. Vou dizer-te um segredo. Eu sĂł vejo a alma dos vivos. Aquela eu amo de todo o coração. Mas, nada mais eu vejo senĂŁo Deus, como ‘Verdadeiro Vivente’ ao qual poderei entregar-me a mim mesma.”

AĂ­ estĂĄ um episĂłdio.

– “Verdadeiro Vivente!” Sabes que esta Ă© uma palavra profunda!

–exclama Bartolomeu.

E Jesus, com humildade e com um sorriso:

– Ela era a mãe da Sabedoria.

– Era?
 Mas nĂŁo estava sĂł com trĂȘs anos?

– Era. Desde a sua concepção, eu já vivia nela, sendo eu Deus[4] , em sua Unidade e Trindade perfeitíssima.

196.8

– Mas, desculpa-me se eu, um culpado, ouso falar: então Joaquim e Ana sabiam que Ela era a virgem escolhida? –pergunta Judas Iscariotes.

– Eles não sabiam.

– E entĂŁo, como Ă© que Joaquim pĂŽde dizer que Deus a tinha salvado com antecipação? Isto nĂŁo se refere ao privilegio dela quanto Ă  culpa?

– Refere-se. Mas Joaquim falava pela boca de Deus, como todos os profetas. Ele tambĂ©m nĂŁo compreendeu a sublime verdade sobrenatural, que o espĂ­rito punha em seus lĂĄbios. Porque Joaquim era um justo. A ponto de merecer aquela paternidade. E era um homem humilde. Pois nĂŁo hĂĄ justiça onde existe soberba. Ele era justo e humilde. Consolou a filha por seu amor de pai. Instruiu-a pela sabedoria de sacerdote, pois ele o era, na qualidade de tutor da Arca de Deus. Ele a consagrou como PontĂ­fice, com o mais honroso dos tĂ­tulos: “A sem Mancha.” Dia virĂĄ em que um outro jĂĄ encanecido sacerdote dirĂĄ ao mundo: “Ela Ă© a concebida sem pecado”, e entregarĂĄ ao mundo dos crentes esta verdade, como um artigo de fĂ© incontestĂĄvel, para que no mundo que virĂĄ, um mundo que se irĂĄ afundando sempre mais numa situação cinzenta e nebulosa, de heresias e de vĂ­cios, possa brilhar, plenamente conhecida, a Toda Bela de Deus, coroada de estrelas, vestida com a luz da Lua, que Ă© menos pura que a Dela, apoiada sobre os astros, Rainha de todo Criado e do Incriado. Porque Deus-Rei tem Maria por Rainha, no seu Reino.

– Então, Joaquim era um profeta?

– Era um justo. Sua alma disse como um eco, aquilo que Deus dizia à sua alma amada por Deus.

Detalhe

Mateus pede a Jesus que fale da sua MĂŁe.

Anotação

Vou falar-vos da lição de castidade que a minha Mãe deu, alguns dias antes de entrar no Templo, ao seu namorado e a muitos outros. Provavelmente Alphée de Sara.

Eu era Deus nela, desde o momento da sua conceção, na sua Unidade e na sua Trindade perfeitíssima. Deus nela: Maria Valtorta anota numa cópia dactilografada: Maria, santuårio perpétuo e puríssimo no qual o Deus uno e trino fez a sua perpétua morada, nunca foi separada da Sabedoria: o Verbo de Deus estava sempre nela, verdadeira Arca que transporta o Verbo eterno, e nenhuma criatura conhecia tão bem como ela este Verbo que é a Sabedoria divina, que devia encarnar nela, e que devia ainda e sempre permanecer nela.

O dogma da Imaculada Conceição foi proclamado por Pio IX a 8 de dezembro de 1854 na bula Ineffabilis Deus. Este dogma foi objeto de controvérsia durante séculos e foi uma das razÔes da oposição feroz da teologia estabelecida a Maria de Ágreda, que exprimiu esta revelação nas suas visÔes.

(...) A Toda Bela de Deus, coroada de estrelas, vestida com os raios da lua menos pura que ela, e sustentada pelas estrelas, a Rainha do criado e do incriado; porque no seu Reino, Deus Rei tem Maria como sua Rainha. Cf. Apocalipse 12, 1-2.

Livro do Apocalipse 12, 1-2

Ap 12, 1-2: "Apareceu um grande sinal no céu: uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça. Ela estava gråvida e gritava com dores de parto e dores de parto".

Palavras-chave

EMF 196.9 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Quando iremos a esta “MamĂŁe”, Senhor? –pergunta, com uns olhos cheios de desejo, JabĂ©.

– Hoje de tarde. Que dirás a ela, quando a vires?

– “Eu te saĂșdo, mĂŁe do Salvador.” EstĂĄ bem assim?

– Muito bem, confirma Jesus, acariciando-o.

– Mas hoje não vamos ao Templo? –pergunta Filipe.

– Antes de irmos para BetĂąnia, iremos ao Templo. E tu ficarĂĄs aqui. NĂŁo Ă© verdade?

– Sim, Senhor.

A mulher de Jonas, guarda do olival, que veio se aproximando pouco a pouco, diz:

– Por que não o levas? O menino está desejando isso.

Jesus a fita com insistĂȘncia, sem dizer nada.

A mulher compreende e diz:

– Já compreendi. Mas devo ter ainda uma pequena capa, a do Marcos. Vou buscá-la –e sai correndo, depressa.

Jabé puxa João por uma manga:

– Os mestres serão muito exigentes?

– Oh! NĂŁo. NĂŁo tenhas medo. Depois nĂŁo Ă© para hoje. Em poucos dias, estando com a mĂŁe, serĂĄs mais sĂĄbio do que um doutor –encoraja-o JoĂŁo.

Os outros ouvem e sorriem diante da apreensão de Jabé.

– Mas quem Ă© que vai apresentĂĄ-lo, como se fosse pai dele? –pergunta Mateus.

– Eu. É natural. A não ser que
 o mestre queira apresentá-lo

–diz Pedro.

– Não, Simão. Não farei isso. Deixo para ti essa honra.

– Obrigado, Mestre. Mas estarĂĄs lĂĄ Tu tambĂ©m?

– Certamente. Todos estaremos lá. É o “nosso” menino


Maria de Jonas estå de volta, com uma capa roxo-escura, ainda em boas condiçÔes. Mas, que cor! Ela mesma o diz:

– Marcos não a quis mais usar por que a cor não lhe agradava.

Com toda a razĂŁo. A capa Ă© horrorosa! E o pobre JabĂ©, jĂĄ de cor azeitonada como Ă©, parece um afogado, vestido com aquele roxo
 Mas ele nĂŁo se vĂȘ
 e por isso estĂĄ feliz com aquela capa, com a qual vai poder enfeitar-se como adulto..

– A refeição está pronta, Mestre. A servente tirou agora mesmo o cordeiro do espeto.

– Então, vamos.

E, descendo do lugar onde estão, entram na ampla cozinha para a refeição.

Detalhe

Jesus acaba de falar da Virgem Maria.

Palavras-chave

EMF 197.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Oh! Mestre! DĂĄ-me a tua bĂȘnção!

– A paz esteja contigo, JosĂ©. Tenho muito prazer em ver-te, e com boa saĂșde

– Eu tambĂ©m, Mestre, e tambĂ©m os amigos te verĂŁo com alegria. EstĂĄs no GetsĂȘmani?

– Estava. Depois da oração, irei para Betñnia.

– À casa de Lázaro?

– NĂŁo. À casa de SimĂŁo. Estou tambĂ©m com minha mĂŁe, com a mĂŁe dos meus irmĂŁos e a de JoĂŁo e Tiago. IrĂĄs lĂĄ ver-me?

– Ainda perguntas?! Grande alegria e grande honra. Eu te agradeço por isso. Eu irei com vários amigos!


– Vai devagar, JosĂ©, com, esses amigos!
 –aconselha SimĂŁo Zelotes.

– Oh! VĂłs jĂĄ os conheceis. A prudĂȘncia diz: “Que as paredes nĂŁo ouçam.” Mas, quando vĂłs os virdes, compreendereis que sĂŁo amigos.

– Então


– Mestre, SimĂŁo de Jonas estava me falando sobre a cerimĂŽnia do pequeno. Tu chegaste na hora em que eu lhe estava perguntando quando pretendeis realizĂĄ-la. Eu tambĂ©m quero estar lĂĄ.

– Será na quarta-feira, antes da Páscoa. Quero que ele faça a sua Páscoa, já como filho da Lei.

– Muito bem. Está entendido. Eu virei apanhar-vos em Betñnia. Mas, na segunda-feira eu virei com os amigos.

– Está dito.

– Mestre, eu vou deixar-te. A paz esteja contigo. Está na hora do incenso.

– Adeus, JosĂ©. A paz esteja contigo.

Detalhe

Jesus encontra-se com José de Arimateia.

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EMF 198.1-10 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

AtravĂ©s da sombreada estrada, que liga o Monte das Oliveiras a BetĂąnia, — e eu poderia dizer que o monte chega com suas ramificaçÔes verdes atĂ© Ă s campinas de BetĂąnia — Jesus com os seus vai caminhando solĂ­cito, para a cidade de LĂĄzaro. Ele ainda nĂŁo entrou, mas jĂĄ estĂĄ sendo reconhecido, e os estafetas voluntĂĄrios vĂŁo correndo por todos os lados, a fim de darem notĂ­cia de sua chegada. Por causa deles, eis que, por um lado, vĂŁo-se pondo em movimento LĂĄzaro com Maximino, Isaac com Timoneo e JosĂ© do outro; em terceiro lugar vem vindo Marta com Marcela e esta levanta seu vĂ©u para curvar-se e beijar a veste de Jesus e logo depois vĂŁo chegando Maria de Alfeu com Maria SalomĂ©, que prestam sua veneração ao Mestre e depois abraçam seus filhos e, enquanto o pobre JabĂ© sempre levado pela mĂŁo de Jesus, agitado por todos estes que chegam de todos os lados, observa espantado e JoĂŁo de Endor, sentindo-se um estranho, vai para trĂĄs do grupo e fica separado, eis que vem se aproximando pelo caminho que conduz Ă  casa de SimĂŁo, a mĂŁe.

Jesus abandona a mĂŁo de JabĂ© e, delicadamente, vai deixando para trĂĄs os amigos, apressando-se em ir ao encontro dela. As conhecidas palavras rasgam os ares, e ressoam, como um solo de amor, pelo meio do murmĂșrio da multidĂŁo: “Filho!”; “MamĂŁe!” E se beijam, mas no beijo de Maria vĂȘ-se a Ăąnsia de quem ficou temendo por muito tempo e agora — desfazendo-se o terror que a infernizou —, sente o cansaço pelo esforço feito, mede em toda a sua extensĂŁo o perigo em que incorreu


Jesus a acaricia, Ele que compreende e diz:

– AlĂ©m do meu anjo, Eu tinha o teu, mĂŁe, a velar sobre Mim. Assim, nada de mal me podia acontecer.

– Louvores sejam dados ao Senhor. Mas Eu sofri tanto!

– Eu queria vir mais depressa, mas tive que fazer outro caminho, para obedecer a ti. E foi bom, porque a tua ordem, minha mãe, como sempre, floresceu para produzir o bem.

– Foi a tua obediĂȘncia, Filho!

– Foi a tua ordem sábia, minha mãe


E sorriem como dois enamorados.

Mas, serå possível que esta mulher seja a mãe deste Homem? Onde estão os dezesseis anos de diferença? O frescor e a graça do rosto e do corpo virginal fazem de Maria a irmã do seu Filho, que estå na plenitude de sua belíssima virilidade.

– E nĂŁo me perguntas por que Ă© que tudo floresceu para produzir um bem? –pergunta-lhe Jesus, sempre sorrindo.

– Eu sei que meu Jesus não esconde nada de mim.

– Mamãe querida!

E a beija de novo


As pessoas se conservaram longe, Ă  distancia de alguns metros, e fazem como se nĂŁo estivessem observando aquela cena. Mas eu tenho certeza que nenhum desses olhos, que parecem estar olhando para outro lado, deixe de estar olhando, de soslaio para uma cena de tĂŁo grande suavidade.

198.2

Quem estĂĄ olhando, mais que todos Ă© JabĂ©, que Jesus deixou, quando foi abraçar sua mĂŁe, e que ficou sozinho porque, desde que começaram a atropelar-se com perguntas e respostas, nĂŁo prestaram mais atenção no pobre menino
 Ele fica olhando, olhando, depois inclina a cabeça, luta contra o choro
 mas, enfim, nĂŁo aguenta mais e explode em um choro, gemendo: “MamĂŁe! MamĂŁe!”

Todos, entĂŁo, e, em primeiro lugar, Jesus e Maria, e todos os outros, procuram remediar o caso e saber quem Ă© o menino. Maria de Alfeu chega e tambĂ©m Pedro — eles estavam juntos — e ambos dizem:

– Por que estás chorando?

Mas antes que, em seu forte pranto, Jabé possa achar fÎlego para falar, Maria jå correu e o tomou nos braços, dizendo:

– Sim, meu filhinho, Ă© a mamĂŁe! NĂŁo chores mais
 desculpa, se eu nĂŁo te vi antes. Aqui estĂĄ, meus amigos, o meu filhinho


Compreende-se que Jesus, naqueles poucos metros que andou atĂ© o menino, deve ter dito a Maria: “É um pobre orfĂŁozinho que Eu tomei comigo.” E todo o resto Maria compreendeu logo.

O menino ainda estå chorando, mas agora menos inconsolåvel e, visto que Maria o tem nos braços e o beija, acaba até por sorrir, com o seu rostinho banhado pelo pranto.

– Vem cá, que eu te enxugo todas estas lágrimas. Não deves chorar mais. Dá-me um beijo


Jabé  nĂŁo desejava senĂŁo aquilo, e, depois de receber tantas carĂ­cias atĂ© de homens barbudos, ele se aconchega agora no calor do afeto, beijando a face lisa de Maria.

198.3

Mas Jesus saiu procurando e jĂĄ avistou JoĂŁo de Endor, e vai buscĂĄ-lo lĂĄ em seu cantinho afastado. E, enquanto todos os outros apĂłstolos saĂșdam Maria, Jesus chega atĂ© perto dela, segurando pela mĂŁo JoĂŁo de Endor, e diz:

– Eis, mãe, o outro discípulo. Estes dois filhos, foi a tua ordem que os conseguiu.

– A tua obediĂȘncia, meu Filho –repete Maria, e depois cumprimenta o homem, dizendo–: A paz esteja contigo.

O homem, o rĂșstico e inquieto homem de Endor, que jĂĄ mudou tanto, desde aquela manhĂŁ em que um capricho de Iscariotes levou Jesus atĂ© Endor, acaba agora de despojar-se do seu passado, enquanto se inclina para Maria. Eu acho que Ă© assim, de tal forma o rosto que se levanta, depois daquela profunda inclinação, aparece sereno, verdadeiramente “pacificado.”

198.4

PÔem-se todos a caminho da casa de Simão. Maria, com Jabé nos braços, Jesus, segurando pela mão João de Endor, e depois, ao redor e atrås ,estão Låzaro e Marta, os apóstolos com Maximino, Isaac, José e Timoneu.

Entram na casa, em cuja soleira o velho servo de SimĂŁo venera a Jesus e a seu patrĂŁo.

– A paz esteja contigo JosĂ©, e com esta casa –diz Jesus, levantando a mĂŁo para abençoar, depois de tĂȘ-la posto sobre a cabeça jĂĄ branca do velho servo.

LĂĄzaro e Marta, depois da primeira alegria, ficaram um pouco tristes e Jesus pergunta:

– Por que, amigos?

– Porque Tu nĂŁo estĂĄs conosco e porque todos vĂȘm a Ti, menos a alma que nĂłs quererĂ­amos que fosse tua.

– Animai-vos com paciĂȘncia, na esperança e na oração. AlĂ©m disso, Eu estou convosco. Esta casa!
 Esta casa nĂŁo Ă© mais do que o ninho, ao qual o Filho do Homem voarĂĄ todos os dias para os queridos amigos, que estĂŁo tĂŁo perto no espaço, mas que, considerando-se sobrenaturalmente o assunto, estĂŁo infinitamente mais perto no amor. VĂłs estais no meu coração, e Eu estou no vosso. Pode-se estar mais perto do que estando assim? Mas, nesta tarde, estaremos juntos. Vinde sentar-vos Ă  minha mesa.

– Oh! pobre de mim! E eu fico aqui me balançando. Vem cĂĄ, SalomĂ©. Temos muito que fazer!

O grito de Maria de Alfeu faz todos sorrirem, enquanto a boa parenta de Jesus se levanta prontamente para ir ao seu trabalho.

Mas Marta logo lhe diz:

– Não te preocupes, Maria, pela comida. Eu vou dar ordens. Tu, prepara somente as mesas. Eu vou te mandar cadeiras suficientes e tudo mais que for preciso. Vem Marcela. Eu volto logo, Mestre.

198.5

– Eu vi JosĂ© de Arimateia, LĂĄzaro. Segunda-feira ele vai vir aqui com uns amigos.

– Oh! Então, naquele dia serás meu!

– Sim. Ele vem para estarmos juntos, mas tambĂ©m para combinarmos uma cerimĂŽnia, que diz respeito a JabĂ©. JoĂŁo: leva o menino para o terraço. Ele vai se divertir.

João de Zebedeu, sempre obediente, levanta-se logo do seu lugar e, pouco depois, jå se ouve a voz do menino e o barulho de seus pezinhos, no terraço que estå ao redor da casa.

– O menino –explica Jesus Ă  mĂŁe, aos amigos, Ă s mulheres, entre as quais estĂĄ Marta, que andou voando para nĂŁo perder nem um minuto da alegria de estar perto do Mestre–, Ă© neto de um dos camponeses de Doras. Eu passei por Esdrelon


– É verdade que os campos estão uma desolação, e que ele os quer vender?

– Que estĂŁo uma desolação, estĂŁo. Quanto Ă  venda, nĂŁo estou sabendo. Um dos camponeses de JocanĂŁ me falou do assunto. Mas nĂŁo sei se Ă© coisa certa.

– Se ele os vendesse
 eu os compraria de boa vontade, para ter neles um abrigo para Ti, tambĂ©m dentro daquele ninho de serpentes.

– Não sei se conseguirás. Jocanã está disposto a ficar com eles.

– Isso veremos
 Mas, continua o que ias dizendo. De que camponeses se trata? Os que tinha antes, ele os esparramou todos.

– É verdade. Os de agora estĂŁo vindo de suas terras na Judeia, pelo menos o velho, que Ă© parente do menino. O menino era mantido no bosque, como um animal selvagem, a fim de que Doras nĂŁo o visse
 e esteve lĂĄ desde o inverno


– Oh! pobre menino! Mas por quĂȘ?

As mulheres estĂŁo todas comovidas.

– Porque o pai e a mĂŁe dele ficaram sepultados pela avalancha nas vizinhanças de EmaĂșs. Todos: o pai, a mĂŁe e os irmĂŁozinhos. Ele ficou vivo, porque nĂŁo estava em casa. Levaram-no para a casa do avĂŽ. Mas, que podia fazer um camponĂȘs de Doras? Tu, Isaac, falaste de Mim, como de um salvador, tambĂ©m para este caso.

– Eu fiz mal, Senhor? –pergunta humildemente Isaac.

– Fizeste bem. Deus assim queria. O velho me deu o menino, que estĂĄ atĂ© para tornar-se maior de idade por estes dias.

– Oh! pobrezinho! Tão pequeno, com doze anos?! O meu Judas tinha quase o dobro de altura, quando estava nesta idade
 E Jesus? Que flor! –diz Maria de Alfeu.

E Salomé:

– Meus filhos tambĂ©m eram bem mais fortes!

Marta murmura:

– De fato, Ă© bem pequenino! Eu pensava que nem tivesse ainda dez anos.

– É isso. A fome Ă© bruta. E ele deve ter passado fome desde que nasceu. Agora, entĂŁo
 Que Ă© que o velho lhe iria dar, se lĂĄ todos estĂŁo morrendo de fome? –diz Pedro.

– Sim, ele sofreu muito. Mas ele Ă© muito bom e inteligente. Eu o tomei para consolar o velho e o menino.

198.6

– Tu o vais adotar? –pergunta Lázaro.

– Não. Não posso.

– Então, eu fico com ele.

Pedro vĂȘ desvanecer-se sua esperança, e solta um bem claro e verdadeiro gemido:

– Senhor! Tudo para ele?

Jesus sorri:

– LĂĄzaro, tu jĂĄ fizeste tanto e Eu te sou agradecido por isso. Mas este menino nĂŁo o posso confiar a ti. É o “nosso menino.” De todos nĂłs. É a alegria dos apĂłstolos e do Mestre. AlĂ©m disso, aqui ele cresceria no meio da riqueza. E Eu lhe quero dar de presente o meu manto real: “a honesta pobreza.” Aquela que o Filho do homem quis para Si, para poder aproximar-se de todas as grandes misĂ©rias, sem humilhar ninguĂ©m. Tu tiveste, hĂĄ pouco tempo, um presente meu


– Ah! sim. O velho patriarca e sua filha. Muito ativa a mulher e o velho Ă© muito bom.

– Onde estão eles agora? Quero dizer: em que lugar?

– EstĂŁo aqui, em BetĂąnia. Achas que eu iria afastar de mim a bĂȘnção que me enviaste? A mulher trabalha com o linho. O trabalho com ele exige mĂŁos ligeiras e experientes. O velho, visto que ele sĂł quer mesmo Ă© trabalhar, eu o mandei tomar conta das colmeias. Ontem — nĂŁo Ă© verdade, mana? — ele estava com a barba toda cor de ouro. As abelhas, tendo enxameado, tinham-se agarrado todas Ă quele barba e ele estava conversando com elas, como com umas filhas. Ele estĂĄ feliz.

– Eu faço ideia! Que tu sejas bendito! –diz Jesus.

– Obrigado, Mestre.

198.7

Mas aquele menino vai fazer-te gastar! Tu me permitirás, pelo menos


– Eu estou pensando em sua veste para a festa –grita Pedro.

Todos se riem da impulsividade do grito.

– EstĂĄ bem. Mas haverĂĄ necessidade tambĂ©m de outras roupas. SimĂŁo, sĂȘ bom. Eu tambĂ©m nĂŁo tenho filhos. Deixa que eu e Marta nos consolemos, tratando das pequenas vestes a serem feitas.

Pedro, tendo sido assim rogado, de repente se comove, e diz:

– As vestes
 sim. Mas a veste para quarta-feira, dela eu trato. O Mestre jĂĄ me prometeu, e atĂ© disse que eu devo ir com a mĂŁe comprĂĄ-la amanhĂŁ.

Pedro diz tudo isso por medo de que haja alguma mudança em seu desfavor.

Jesus sorri, e diz:

– Sim, mãe. Eu te peço que vás amanhã com Simão. Senão, este homem acaba morrendo de aflição. Tu o aconselharás na escolha.

– Eu disse: veste vermelha e cinta verde. Ficará muito bem. Pelo menos melhor do que a cor que ele tem agora.

– Vermelho ficarĂĄ muito bem. TambĂ©m Jesus estava vestido de vermelho. Mas eu diria que ficaria melhor sobre o vermelho uma cinta vermelha, ou pelo menos, bordada em vermelho –diz Maria com doçura.

– Eu dizia assim, porque estou vendo como Judas, que Ă© moreno, fica muito bem com aquelas fitas verdes sobre o hĂĄbito vermelho


– Mas elas não são verdes, amigo –diz, rindo, Iscariotes.

– Não? Então, de que cor são?

– Esta cor Ă© chamada “veio de ĂĄgata.”

– E, que queres que eu entenda disso?! A mim me pareceu verde. É a cor que eu vejo nas folhas!

Maria intervém com benignidade:

– Simão tem razão. É exatamente a cor que as folhas tomam, com as primeiras chuvas de Tisri


– Aí está! E, assim como as folhas são verdes, eu dizia que era verde –termina, contente, Pedro.

A Virgem Suave fez haver paz e alegria até numa pequena coisa como esta.

198.8

– Quereis chamar o pequeno? –pede Maria.

E o menino chega logo, junto com JoĂŁo.

– Como te chamas? –pergunta Maria, acariciando-o.

– Eu sou
 eu era JabĂ©. Mas agora estou esperando o nome


– Tu o estás esperando?

– Sim. JabĂ© estĂĄ querendo um nome que queira dizer que Eu o salvei. Tu procurarĂĄs esse nome, minha mĂŁe. Um nome de amor e salvação.

Maria fica pensando
 e depois diz:

– Marjiziam (Maarhgziam). Tu Ă©s a pequena gota do mar dos salvados de Jesus. Agrada-te? Assim ele faz pensar em mim e na Salvação.

– É muito bonito –diz contente o menino.

– Mas, este, nĂŁo Ă© um nome de mulher? –pergunta Bartolomeu.

– Com um L no fim, em lugar do M, quando este esboço de homem se tornar um adulto, podereis mudar o seu nome em nome de homem. Por enquanto, vai levar o nome que lhe deu a Mamãe. Está bem?

O menino diz que sim, e Maria o acaricia.

A cunhada lhe pergunta:

– Esta lĂŁ Ă© bonita –e toca na capinha de Jabé–, mas tem uma cor! Que achas? Eu a tingirei de vermelho escuro. FicarĂĄ bem.

– AmanhĂŁ de tarde faremos isso. Porque amanhĂŁ Ă© que ele vai receber sua veste nova. Agora nĂŁo podemos tirar esta.

Marta diz:

– Virias comigo, menino? Te levo aqui perto, para ver muitas coisas e depois retornamos aqui


Jabé não recusa. Ele nunca recusa nada
 mas parece que estå com um pouco de medo de ir com uma mulher quase desconhecida. Ele diz, entre tímido e delicado:

– João poderia ir comigo?

– Sem dĂșvida!

E lĂĄ se vĂŁo.

198.9

E, enquanto eles estão ausentes, as conversaçÔes entre os vårios grupos continuam. São narraçÔes, comentårios, suspiros por causa da dureza humana.

Isaac conta tudo o que ele pîde ficar sabendo do Batista. Há quem diga que ele está em Maqueronte, e quem diga que está em Tiberíades. Os discípulos ainda não voltaram


– Mas, eles não o haviam acompanhado?

– Sim. Mas, perto de Doco, os captores atravessaram o rio com o prisioneiro e não se sabe se depois subiram para o lago ou se desceram para Maqueronte. João, Matias e Simeão puseram-se em seu encalço, para saberem, e certamente não o abandonarão.

– E tu, Isaac, com certeza não abandonarás este novo discípulo. Por enquanto, ele está comigo. Quero que faça a Páscoa comigo.

– Eu a farei em JerusalĂ©m, na casa da Joana. Ela me viu, e me ofereceu um quarto para mim e os meus companheiros. Todos irĂŁo este ano. E estaremos com JĂŽnatas.

– VirĂŁo tambĂ©m os do LĂ­bano?

– TambĂ©m. Mas talvez nĂŁo poderĂŁo vir os discĂ­pulos de JoĂŁo.

– Sabes que virão os de Jocanã?

– É verdade? Estarei junto Ă  porta, junto aos sacerdotes que fazem as imolaçÔes. Eu os verei e levarei comigo.

– Podes esperĂĄ-los, lĂĄ pela Ășltima hora. Pois eles tĂȘm, um tempo contado. Mas tĂȘm o cordeiro.

– Eu tambĂ©m. MagnĂ­fico! Foi LĂĄzaro quem o deu. Imolaremos este; e o outro, o deles, servir-lhes-ĂĄ para a volta.

198.10

– EstĂĄ entrando de novo Marta com JoĂŁo e o menino, vestido este com uma pequena veste de linho branco e uma sobreveste vermelha. Sobre o braço traz umo manto tambĂ©m vermelho.

– Estás reconhecendo isto, Lázaro? Estás vendo como tudo serve?

Os dois irmĂŁos sorriem.

Jesus diz:

– Eu te agradeço, Marta.

– Oh! Senhor meu! Eu tenho a mania de ficar guardando tudo. Eu a herdei de minha mãe. Tenho ainda muitas vestes do meu irmão. Muito queridas, porque foram tocadas pela minha mãe. De vez em quando, eu tiro uma parte delas para algum menino. Agora, vou dá-la a Margziam. São um pouco compridas, mas podem ser encurtadas. Lázaro, quando se tornou maior de idade, não as quis mais
 Um bonito capricho, próprio de crianças
 e que venceu porque minha mãe adorava o seu Lázaro.

A irmĂŁ o acaricia com amor e LĂĄzaro pega sua belĂ­ssima mĂŁo, beija-a e diz:

– E tu, não?

Sorriem um para o outro.

– Foi providencial isto –observam muitos.

– Sim, o meu capricho deu bom resultado. Talvez me será perdoado por isso.

A ceia está pronta, e cada um vai para o seu lugar


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EMF 198.11 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jå é noite, quando Jesus pode falar em paz com sua mãe. Eles subiram para o terraço e, sentados em cadeiras um ao lado da outra, com a mão na mão, falam e escutam um ao outro. Primeiro é Jesus, que narra as coisas que aconteceram. Depois, é Maria que diz:

– Meu Filho, depois da tua partida, logo depois, veio Ă  minha casa uma mulher
 Ela estava Te procurando. Uma grande misĂ©ria. E uma grande redenção. Mas essa criatura tem necessidade do teu perdĂŁo, para ser firme em sua resolução. Eu a confiei Ă  Susana, dizendo que era uma das curadas por Ti. É verdade. Eu a poderia ter comigo, se nossa casa nĂŁo fosse o que Ă©, um verdadeiro mar, onde todos navegam, e muitos com mĂĄs intençÔes. E a mulher jĂĄ estĂĄ com repugnĂąncia pelo mundo. Queres saber quem Ă©?

– É uma alma. Mas, dize-me o seu nome, para que Eu possa acolhĂȘ-la sem erro.

– É AglaĂ©. É a romana, dançarina e pecadora, que Tu começaste a salvar no Hebron, que Te procurou e Te encontrou em Águas Belas e que, por sua renascida honestidade, jĂĄ tem sofrido. E quanto!
 Ela me disse tudo
 Que horror!


– O seu pecado?

– Este é ., diria, mais ainda; que horror Ă© o mundo! Oh! Meu Filho! Desconfia dos fariseus de Cafarnaum! Daquela infeliz eles queriam servir-se para Te fazerem mal. AtĂ© dela


– Eu sei, mĂŁe
 Onde estĂĄ AglaĂ©?

– Chegará com Susana, antes da Páscoa.

– EstĂĄ bem. Eu falarei com ela. Estarei aqui todas as tardes, menos na tarde do dia da PĂĄscoa, que Eu devo consagrar Ă  famĂ­lia, Eu a atenderei. Basta detĂȘ-la aqui, se ela vier. É uma grande redenção, como disseste. E tĂŁo espontĂąnea! Em verdade, Eu te digo que em poucos coraçÔes a minha semente se enraĂ­za com a força com que se enraizou nesse terreno infeliz. E depois AndrĂ© ajudou o crescimento, atĂ© a sua completa formação.

– Ele me disse.

– Mãe, que foi que sentiste, ao te aproximares daquela ruína?

– Senti asco e alegria. Parecia-me estar Ă  beira de um abismo do inferno, mas, ao mesmo tempo, me sentia sendo transportada ao azul. Como Tu Ă©s Deus, meu Jesus, quando realizas esses milagres!

Ficam calados por baixo das estrelas luminosĂ­ssimas e na brancura de um quarto de lua que jĂĄ estĂĄ quase cheia. Calados, e repousando um no amor da outro.

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EMF 199.1-3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

A esplendida manhã convida realmente a dar um passeio, a deixar as camas e as casas e os moradores da casa do Zelotes, como abelhas ao primeiro sol, surgem muito cedo e partem para respirar o ar puro do pomar de Låzaro, que fica ao redor da pequena casa hospitaleira. Logo se ajuntam também os que estão hospedados com Låzaro, isto é, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, André e Tiago de Zebedeu. O sol entra festivo por todas as janelas e portas escancaradas, e os quartos, simples e limpos, vão-se vestindo com uma tinta de ouro, que aviva as cores das vestes, e faz brilhar também as cores dos cabelos e das pupilas.

Maria de Alfeu e Salomé estão atentas em servir a estes homens, que estão com um apetite notåvel. Maria, por sua vez, estå observando um dos criados de Låzaro, enquanto ele vai compondo os cabelinhos de Margziam, cortando-os com mais habilidade do que tinha feito o primeiro cabeleireiro dele:

– Por enquanto, fica assim –diz ele–. Depois, quando tiveres oferecido a Deus a tua cabeleira de menino, eu a encurtarei como se deve. Quando chegar o calor, te sentirĂĄs melhor, sem cabelos no pescoço. E eles ficarĂŁo mais fortes. Agora, estĂŁo secos e frĂĄgeis, descuidados. EstĂĄs vendo, Maria? Eles precisam de cuidados. Agora vou untĂĄ-los, para conservĂĄ-los em seu lugar. EstĂĄs sentindo, menino, que cheirinho bom? É o Ăłleo que Marta usa. AmĂȘndoa, palma, miolo do que hĂĄ de mais fino e com essĂȘncia rara. Isto faz muito bem. Minha patroa disse que eu guardasse este potinho para o menino. E, entĂŁo, ele estĂĄ aqui. Agora, ficas parecendo o filho do rei.

E o servo, que deve ser o barbeiro da casa de LĂĄzaro, dĂĄ uma palmadinha na face de Margziam, saĂșda Maria, e vai-se embora satisfeito.

– Vem cá, que eu vou te vestir –diz Maria ao menino que, por enquanto, está só com uma tunicazinha de mangas curtas, que eu creio que seja a camisa ou o que naqueles tempos fazia as vezes dela.

E, pela boa qualidade do linho, compreendo que ela fazia parte do enxoval de Låzaro, quando criança. Maria tira a toalha com que Margziam estava quase enfaixado, e o reveste com a saia feita de linho, franzida na raíz do pescoço e nos pulsos, e com a sobreveste vermelha, de lã, com um amplo decote e mangas largas. O linho, muito alvo, aparece no decote e nas mangas de tecido vermelho e opaco. A mão de Maria deve ter trabalhado a noite inteira para prover a tudo, regulando o comprimento das vestes e das mangas, e agora estå tudo bem, especialmente depois que Maria o cingiu na cintura com a faixa macia, que termina em um floco de lã branca e vermelha. O menino nem parece mais aquele ser pobrezinho de poucos dias atrås.

– Agora, vai brincar, sem sujar-te, enquanto eu vou me preparar

–diz Maria, acariciando-o.

E o menino sai, pulando de contente, para ir procurar os seus grandes amigos.

199.2

O primeiro a vĂȘ-lo Ă© TomĂ©:

– Mas, como estĂĄs bonito! Vestido de noivo! Tu me fazes desaparecer –diz o alegre TomĂ©, gorducho e tranquilo.

E o toma pela mĂŁo, dizendo:

– Vem cá, vamos ao lugar onde estão as mulheres. Elas estavam te procurando, para ensinarem o que deves dizer ou fazer.

Entram na cozinha, e Tomé passa um susto nas duas Marias, gritando com o seu vozeirão para elas que estavam inclinadas e viradas para os seus pequenos fornos:

– Aqui está um jovenzinho que quer vos ver –e rindo-se, apresenta o menino, que estava escondido atrás do seu volumoso corpo.

– Oh! querido! Vem cĂĄ, que eu te dou um beijo! Olha, SalomĂ©, como ele estĂĄ bonito –exclama Maria de Alfeu.

– É verdade. Agora, sĂł falta ele ficar mais robusto. Mas disso cuidarei eu. Vem cĂĄ, que eu tambĂ©m te beijo –responde SalomĂ©.

– Mas Jesus vai confiĂĄ-lo aos pastores –objeta TomĂ©.

– Isso, nem por sombra! Neste ponto o meu Jesus erra. Que Ă© que quereis fazer, que Ă© que, vĂłs homens, sabeis fazer? Brigar — porque, seja dito de passagem, sois, antes de tudo, uns briguentos
 como uns cabritos, que se amam, mas dĂŁo chifradas uns nos outros, — sabeis comer, falar, ter mil necessidades e querer que o Mestre preste toda atenção em vĂłs
 caso contrĂĄrio ficais amuados
 E os meninos precisam Ă© das mamĂŁes. NĂŁo Ă© verdade
 como te chamas?

– Margziam.

– Ah! Mais esta! Bendita a minha Maria! Ela podia ter-te dado um nome mais fácil!

– É quase como o dela! –exclama SalomĂ©.

– Sim. Mas o dela Ă© mais simples. Ele nĂŁo tem aquelas trĂȘs letras no meio
 TrĂȘs sĂŁo demais


Iscariotes acabou de entrar, e diz:

– Ela pîs o nome certo, em seu significado, segundo a linguagem antiga, não adulterada.

– EstĂĄ bem. Mas Ă© difĂ­cil, e eu tiro uma delas, e digo Marziam. Assim Ă© mais fĂĄcil e o mundo nĂŁo virĂĄ abaixo por isso. NĂŁo Ă© verdade, SimĂŁo?

E Pedro, que ia passando diante da janela, conversando com JoĂŁo de Endor, se aproxima, e diz:

– Que desejas?

– Estava dizendo que eu chamo o menino de Marziam. É mais fácil.

– Tens razĂŁo, mulher. Se a mĂŁe me permite, eu tambĂ©m o chamarei assim. Mas, como estĂĄs bem! Mas, eu tambĂ©m, hein? Olhem sĂł!

De fato, ele estĂĄ todo escovado, barbeado nas faces, com cabelos e barba alinhados e untados, a veste nĂŁo amarrotada, as sandĂĄlias parecendo novas, de tĂŁo limpas e tornadas brilhantes, nĂŁo sei com quĂȘ. As mulheres o admiram, e ele se ri contente.

O menino acabou de comer, e sai para ir andar com o seu grande amigo, a quem ele dá sempre o nome de “Pai.”

199.3

Eis Jesus que vem da casa de LĂĄzaro, junto com o mesmo e, ao menino que vai correndo ao seu encontro, Ele diz:

– A paz esteja entre nós, Margziam. Demo-nos o beijo da paz.

LĂĄzaro, saudado pelo menino, dĂĄ-lhe um docinho.

Todos se reĂșnem ao redor de Jesus. TambĂ©m, Maria, revestida com uma veste de lĂŁ cor de turquesa, sobre a qual cai um amplo manto mais escuro, vem vindo sorridente em direção de seu Filho.

– Podemos ir entĂŁo –diz Jesus–. Tu, SimĂŁo, com minha mĂŁe e o menino, se Ă© que estĂĄs mesmo disposto a gastar, ainda mais agora que LĂĄzaro jĂĄ proveu a tudo.

– Mas, sem dĂșvida! E depois
 poderei dizer que pude, pelo menos uma vez, caminhar ao lado de tua mĂŁe. Uma grande honra.

– Então, vai. E tu, Simão, me acompanharás. Vamos aos teus amigos leprosos


– De verdade, Mestre? Nesse caso, se me permites, irei na frente correndo, para reuni-los. Depois me encontrarás. Já sabes onde eles estão


– EstĂĄ bem. Vai. Os outros façam o que quiserem. Estais todos livres atĂ© quarta-feira pela manhĂŁ. Nesse dia, Ă  hora terça, estajam todos junto Ă  Porta Dourada.

– Eu irei contigo, Mestre –diz João.

– Eu tambĂ©m –diz Tiago, irmĂŁo dele.

– E nĂłs tambĂ©m –dizem os dois primos.

– Eu irei tambĂ©m –diz Mateus e, com ele, AndrĂ©.

– E eu? Eu gostaria de ir tambĂ©m
 mas tenho que ir Ă s compras, e nĂŁo posso ir convosco
 –diz o Pedro, na dĂșvida entre duas vontades.

– Pode-se fazer tudo. Primeiro, vamos aos leprosos e, nesse Ă­nterim, minha mĂŁe vai com o menino a uma casa amiga em Ofel. Depois nĂłs a encontraremos, e tu vais com ela, enquanto Eu e os outros vamos Ă  casa de Joana. Nos reuniremos no GetsĂȘmani para a refeição, e depois, perto do pĂŽr do sol, estaremos aqui.

– Eu, se me permites, vou à casa de alguns amigos
 –diz Judas Iscariotes.

– Mas Eu já disse. Fazei o que quiserdes.

– EntĂŁo, vou ver meus pais. Talvez meu pai jĂĄ tenha vindo. Se tiver, eu o trarei a Ti –diz TomĂ©.

– E nós dois, que achas, Filipe? Poderíamos ir à casa do Samuel.

– Disseste bem –responde ele a Bartolomeu.

– E tu, João? –pergunta Jesus ao homem de Endor–. Preferes ficar aqui, para pîr em ordem os teus livros, ou ir comigo?

– Na verdade, eu gostaria de ir contigo
 Meus livros
 já me agradam menos. Prefiro ler em Ti, o livro vivo.

– Então, vem. Adeus, Lázaro, a


– Mas, eu vou tambĂ©m. Minhas pernas estĂŁo um pouco melhor, e eu te deixarei depois da visita aos leprosos e irei esperar-te em GetsĂȘmani.

– Vamos. A paz esteja convosco, mulheres.

AtĂ© Ă s vizinhanças de JerusalĂ©m, vĂŁo indo todos juntos. Depois, eles se separam, indo Iscariotes, por sua prĂłpria conta, entrando na cidade provavelmente por aquela porta que fica perto da fortaleza AntĂŽnia, enquanto que TomĂ©, com Filipe e Natanael, andam ainda algumas dezenas de metros com Jesus e os companheiros e depois entram na cidade pelo subĂșrbio de Ofel junto com Maria e o menino.

Anotação

"Como Ă© que te chamas?

- Marziam.

- Estou a ver! Mas a minha bem-aventurada Maria podia ter-te dado um nome mais fĂĄcil!

- É quase o dela! exclama SalomĂ©.

- Sim, mas o dela Ă© mais simples. NĂŁo tem aquelas trĂȘs consoantes no meio... TrĂȘs Ă© demasiado...". MaRGZiam, simplificado para Marziam na nova tradução, de acordo com o que Marie d'AlphĂ©e e Pierre dizem no resto do texto.

"Ela tomou o nome exato pelo seu significado, de acordo com a lĂ­ngua antiga". O hebraico, sem dĂșvida, uma vez que o aramaico (uma lĂ­ngua muito prĂłxima) se tinha tornado a lĂ­ngua comum no tempo de Jesus. Esta proximidade Ă© perfeitamente captada na reflexĂŁo de SalomĂ©. Conhecemos tambĂ©m esta proximidade pela oração de Jesus na cruz: ElĂŽi, elĂŽi, lama sabachthani, uma citação aramaica ligeiramente diferente em Mateus 27,46 e Marcos 15,34. No entanto, esta proximidade nĂŁo exclui diferenças, pois o capĂ­tulo 8 do livro de Neemias relata que os exilados que regressavam a JerusalĂ©m ouviram a leitura da TorĂĄ "na lĂ­ngua antiga", mas nĂŁo a compreenderam: foi necessĂĄrio traduzi-la.

Tu, Simão, vais acompanhar-me até aos teus amigos leprosos ... Simão, o Zelota, é um antigo leproso, curado por Jesus.

EstĂŁo todos livres atĂ© quarta-feira de manhĂŁ. À hora da Tarde, todos vĂŁo para a Porta Dourada. Esta porta dĂĄ diretamente para o Templo, vindo de BetĂąnia e do GetsĂ©mani.

Entretanto, a minha mãe e a criança vão para uma casa amiga em Ofel. Este bairro fica a sul do Templo e, portanto, a leste da cidade.

O que achas, Filipe, de irmos os dois para casa de Samuel? Provavelmente Samuel, o noivo de Annalia.

Ele deve entrar na cidade pelo portĂŁo perto da Torre AntĂłnia. O portĂŁo de Peixes.

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EMF 199.6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– E agora vamos à mãe –diz depois aos apóstolos.

– Mas, onde está ela? –perguntam muitos.

– Em uma casa que João sabe. Na casa da menina que foi curada[2] no ano passado.

Entram na cidade, percorrem boa parte do populoso bairro de Ofel e vĂŁo atĂ© uma casinha branca. Jesus entra, com sua doce saudação, na casa, cuja porta estĂĄ semi-aberta e de lĂĄ sai a voz suave de Maria, a voz argĂȘntea de AnĂĄlia e a voz grossa da mĂŁe dela. A menina prostra-se adorando, a mĂŁe ajoelha-se. Maria se levanta.

Gostariam de deter lå o Mestre com sua mãe. Mas Jesus, prometendo voltar em outro dia, abençoa e se despede.

Anotação

Na jovem curada no ano passado. Cf.EMV 85 eEMV 86.4/5, a cura de Annalia.

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EMF 199.6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Pedro vai indo com Maria, todo feliz. Os dois estĂŁo segurando o menino pela mĂŁo, e parecem uma pequena famĂ­lia feliz. Muitos se viram e olham para eles. Jesus observa como eles vĂŁo andando, e sorri.

– Simão está feliz –exclama Zelotes.

– Por que estás sorrindo, Mestre? –pergunta Tiago de Zebedeu.

– Porque naquele grupo estou vendo uma grande promessa.

– Que promessa, Irmão? Que estás vendo? –pergunta Tadeu.

– Vejo o seguinte: Que poderei ir-me embora tranquilo, quando chegar a hora. Que nĂŁo preciso temer pela minha Igreja. Ela, entĂŁo, ainda estarĂĄ pequena, como Margziam. Mas nela estarĂĄ minha mĂŁe, segurando-a assim pela mĂŁo e a fazer para com ela as vezes da mĂŁe, e nela estarĂĄ Pedro, fazendo as vezes do Pai. Em sua mĂŁo honesta e cheia de calos, posso colocar sem preocupaçÔes, a mĂŁo da minha Igreja nascente. Ele lhe darĂĄ a força da sua proteção. E minha mĂŁe, a força do seu amor. E a Igreja crescerá
 como Margziam
 Ele Ă© verdadeiramente o menino-sĂ­mbolo! Deus abençoe minha mĂŁe, meu Pedro e o menino deles e nosso! Agora, vamos Ă  casa de Joana


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EMF 199.7-9 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação


 E novamente, pela tarde, já estamos na casinha de Betñnia. Muitos, cansados, já se retiraram. Mas Pedro anda para lá e para cá pelo caminho, levantando frequentemente os olhos para o terraço, onde estão sentados, conversando, Jesus e Maria. João de Endor, por sua vez, está conversando com Zelotes, estando os dois sentados debaixo de uma romãzeira toda florida.

Maria jå falou muito, porque ouço Jesus dizer:

– Tudo o que me disseste Ă© bem justo e de tudo considerarei a justiça. TambĂ©m acho que Ă© justo o teu conselho dado Ă  AnĂĄlia. Que o homem o tenha acolhido com tanta presteza Ă© bom sinal. Na verdade, a alta JerusalĂ©m estĂĄ cheia de obtusosidade, de Ăłdio e, Eu poderia atĂ©, dizer, de sujeira. Mas, no meio do seu povo humilde, hĂĄ pĂ©rolas de um valor desconhecido. Fico alegre porque AnĂĄlia estĂĄ feliz. É uma criatura mais do CĂ©u, do que da terra e talvez o homem, que agora entrou no conceito do espĂ­rito, tenha intuição disso e preste a isso um respeito quase de veneração. Seu pensamento de ir para outro lugar, a fim de nĂŁo perturbar, com algum sobressalto humano, o cĂąndido voto da menina, o estĂĄ demonstrando.

– Sim, meu Filho. O homem percebe o perfume das virgens
 Eu me lembro de JosĂ©. Eu nĂŁo sabia de que palavras devia fazer uso. Ele nĂŁo conhecia o meu segredo
 E, no entanto, ele me ajudou a dizĂȘ-lo, com a sua percepção de santo. Ele tinha sentido o odor da minha alma
 NĂŁo vĂȘs tambĂ©m JoĂŁo?
 Que paz!
 E todos o procuram
 O prĂłprio Judas de Keriot, por mais que
 NĂŁo, meu Filho. Judas nĂŁo mudou. Eu sei e Tu sabes. NĂłs nĂŁo falamos, porque nĂŁo queremos ser nĂłs que começamos a guerra. Mas, ainda que nĂŁo falemos, nĂłs o sabemos
 e, mesmo que nĂŁo falemos, os outros estĂŁo enxergando
 Oh! Meu Jesus! Contaram-me os jovens hoje, em GetsĂȘmani, o episĂłdio de Magdala e o da manhĂŁ de sĂĄbado
 A inocĂȘncia fala
 porque ela vĂȘ pelos olhos do seu anjo. Mas os velhos tambĂ©m entrevĂȘem
 NĂŁo deixam de ter razĂŁo. É um ser esquivo
 Tudo nele Ă© esquivança
 e eu tenho medo dele, e tenho sobre os lĂĄbios as mesmas palavras do Benjamim de Magdala e do Margziam no GetsĂȘmani, porque tenho pelo Judas a mesma repugnĂąncia que por ele sentem as crianças.

– Nem todos podem ser como João!

– Nem eu pretendo isso. Isso seria um paraíso na terra. Mas, estás vendo, Tu me falaste do outro João
 Um homem que matou
 mas que só me causa dó. Judas me dá medo.

– Ama-o, minha mãe! Ama-o por amor de Mim!

– Sim, meu Filho. Mas nem meu amor servirĂĄ. SerĂĄ apenas mais um sofrimento para mim e uma culpa para ele.. Oh! Para que foi ele entrar! Perturba a todos e ofende a Pedro, que Ă© digno de todo respeito.

199.8

– Sim. Pedro Ă© muito bom. Por ele Eu faria qualquer coisa, pois ele o merece.

– Se ele te ouvisse, diria com aquele seu sorriso bom e sincero: “Ah! Senhor, isso nĂŁo Ă© verdade!” E teria razĂŁo.

– Por quĂȘ, mĂŁe?

Mas Jesus estĂĄ sorrindo porque jĂĄ compreendeu.

– Porque Tu o não contentas, dando-lhe um filho. Ele me contou todas as suas esperanças, os seus desejos
 e as tuas recusas.

– E nĂŁo te disse as razĂ”es com que as justifiquei?

– Sim, ele as disse, e acrescentou: “É verdade
 mas eu sou um homem, um pobre homem. Jesus teima em querer ver em mim um grande homem. Mas eu sei que nĂŁo sou mais do que um ser mesquinho e, por isso
 me poderia dar um menino. Eu me casei para ter um
 e vou morrer sem ter.” E, mostrando o menino que, feliz pela veste para ele comprada por Pedro, o havia beijado, dizendo-lhe: “Meu pai amado”, disse-me: “VĂȘ, quando este pequenino que, hĂĄ somente dez dias, eu nem conhecia ainda, fala-me assim, eu me sinto mais maleĂĄvel do que manteiga, e mais doce do que o mel, e atĂ© choro porque
 cada dia que passa, ele quer me levar embora este menino
”

Maria se cala, observando Jesus, estudando-lhe o semblante, esperando uma palavra
 Mas Jesus colocou o cotovelo sobre o joelho, a cabeça encostada na palma da mĂŁo e estĂĄ tambĂ©m calado, olhando para a grande extensĂŁo verde do pomar.

Maria pega a mĂŁo dele e a acaricia, dizendo:

– SimĂŁo tem esse seu grande desejo
 Enquanto eu ia andando com ele, nĂŁo parou de falar-me nisso, e com razĂ”es tĂŁo justas, que
 eu nĂŁo pude dizer nada para fazĂȘ-lo calar-se. Eram as mesmas razĂ”es, nas quais pensamos todas nĂłs, mulheres e mĂŁes. O menino nĂŁo Ă© robusto. Se ele tivesse sido como eras Tu
 Oh! entĂŁo teria podido ir ao encontro da vida, como um discĂ­pulo sem medo. Mas Ă© tĂŁo fraquinho!
 Muito inteligente, muito bom
 e nada mais. Quando um pombinho Ă© delicado, nĂŁo se pode lançå-lo ao vĂŽo logo, como se faz com os fortes. Os pastores sĂŁo bons
 mas sĂŁo sempre homens. Os meninos precisam das mulheres. Por que nĂŁo o deixas com SimĂŁo? Enquanto lhe negas um filho nascido dele, eu compreendo o motivo. Um pequenino nosso Ă© para nĂłs como uma Ăąncora. E SimĂŁo, destinado a tĂŁo grande sorte, nĂŁo pode ter Ăąncoras que o detenham. Contudo, deves convir que ele deva ser o ‘pai’ de todos os filhos que Tu lhe deixarĂĄs. E, como haveria ele de ser pai, se nĂŁo tiver treinado com um menino? Um pai deve ser manso. E SimĂŁo Ă© bom, mas manso, nĂŁo. Ele Ă© impulsivo e intransigente. NĂŁo hĂĄ nada como uma criaturinha, que lhe possa ensinar a arte sutil da compaixĂŁo para com quem Ă© fraco
 Pensa nesta sorte de SimĂŁo
 Afinal, Ă© o teu sucessor! Oh! tenho afinal que dizer esta palavra cruel! Mas, pela grande dor que me custa dizĂȘ-la escuta-me. Eu nunca te aconselharia uma coisa que nĂŁo fosse boa. Margziam
 Tu queres fazer dele um perfeito discĂ­pulo
 Mas ele ainda Ă© um menino. Tu
 TerĂĄs que ir embora, antes que ele se torne um homem. A quem, entĂŁo, o entregarĂĄs para completar sua formação, senĂŁo a SimĂŁo? Afinal, pobre SimĂŁo, Tu sabes quanto tem sofrido, tambĂ©m por causa de Ti, da parte de sua sogra Contudo ele nĂŁo recuperou nem um grĂŁozinho do seu passado, da liberdade que tinha, hĂĄ um ano, para ser deixado em paz pela sogra, que nem Tu pudeste mudar. E aquela pobre criatura, que Ă© a mulher dele? Oh! Ela tem um grande desejo de amar e de ser amada. A mĂŁe
 Oh! O marido? Um amĂĄvel prepotente. Nunca um afeto que lhe seja dado sem tantas exigĂȘncias
 Pobre mulher!
 Deixa-lhe o menino. Escuta, Filho. Por enquanto, o levamos conosco. Eu tambĂ©m virei para a Judeia. Tu me levarĂĄs contigo Ă  casa de minha companheira no Templo e quase nossa parenta, porque Ă© descendente de Davi. Ela mora em Betsur. Eu a irei ver de boa vontade, se Ă© que ainda vive. Depois, ao voltarmos para a Galileia, o daremos Ă  PĂșrpura. Quando estivermos nas vizinhanças de Betsaida, Pedro o tomarĂĄ. E, quando viermos para longe, o menino ficarĂĄ com ela. Ah! Mas Tu agora estĂĄs sorrindo! EntĂŁo contentarĂĄs Ă  tua mamĂŁe. Obrigada, meu Jesus.

– Sim. Seja feito como Tu queres.

199.9

Jesus se levanta, e grita com força:

– Simão de Jonas, vem aqui.

Pedro dĂĄ um salto, e vai correndo pelos degraus.

– Que queres, Mestre?

– Vem aqui, homem usurpador e corruptor!

– Eu? Por quĂȘ? Que foi que eu fiz, Senhor?

– Tu corrompeste minha mĂŁe. Para isso Ă© que querias estar sozinho. Que devo te fazer?

Mas Jesus estĂĄ sorrindo e Pedro fica mais tranquilo.

– Oh! –diz ele–, me fizeste ficar com medo! Mas agora estás rindo
 Que queres de mim, Mestre? A vida? É só o que tenho, pois me tomaste tudo
 Mas, se a queres, eu a dou.

– Eu não quero tirar-te nada. Mas quero te dar. Mas não fiques te gloriando pela vitória e não contes o segredo aos outros, ó homem matreiríssimo, que vences o Mestre com a arma da palavra materna. Tu ficarás com o menino, mas


Jesus não fala mais, porque Pedro, que se havia ajoelhado, pÔe-se rapidamente de pé e beija Jesus com tanto ímpeto, que lhe embargou a palavra.

– Agradece a ela, não a Mim. Mas, lembra-te que isso te deve servir de ajuda e não de estorvo


– Senhor, não terás que arrepender-te por este presente
 Oh! Maria! Que Tu sejas sempre bendita, santa e boa


E Pedro, que de novo caiu de joelhos, estĂĄ chorando de verdade e beijando a mĂŁo de Maria.

Anotação

No que diz respeito a Annalia, penso que o seu conselho tambĂ©m Ă© correto. É um bom sinal que o homem a tenha aceite tĂŁo prontamente. Samuel Ă© o seu noivo. Annalia fez voto de virgindade, a primeira das virgens consagradas. Cf. EMV 156.3/5.

Oh, meu Jesus! Os jovens contaram-me hoje, no Getsémani, o episódio de Magdala e da manhã de såbado. Duas crianças disseram que Judas as "assustou": Benjamim de Magdala em EMV 184.7 e Marziam em EMV 196.6.

Também eu irei à Judeia. Levar-me-ås contigo a uma das minhas companheiras de Templo - quase uma parente, pois é descendente de David. Ela vive em Bet-zur. Gostaria de a voltar a ver, se ainda for viva. Ela é Elisede Betzur.

199.9 Jesus levantou-se e chamou em alta voz

"SimĂŁo, filho de Jonas, vem cĂĄ!"

Pedro fica assustado e sobe as escadas a correr:

"O que Ă© que queres, Mestre?

- Vem cĂĄ, usurpador e corruptor!

- Eu? PorquĂȘ? O que Ă© que eu fiz, Senhor?

- Tu corrompeste a minha MĂŁe. Foi por isso que quiseste ficar sozinho. Que te hei-de fazer?

Mas Jesus sorriu e Pedro ficou tranquilo.

Oh", diz ele, "pregaste-me um susto! Mas agora estĂĄs a rir... O que queres de mim, Mestre?

JESUS AGRADÁVEL: Esta passagem causou polémica entre algumas pessoas:

- Alguns nĂŁo conseguiam imaginar Jesus a brincar como se faz com os melhores amigos (parecendo acusĂĄ-los da antĂ­tese do que obviamente sĂŁo).

- Os outros tĂȘm uma leitura parcial que interpreta a corrupção isolada como uma prĂĄtica indigna e chocante.

MARIA MEDIANEIRA DE TODAS AS GRAÇAS :

Relativamente ao primeiro ponto, a anedota, é de notar que Jesus não usa a vulgaridade habitualmente associada a este tipo de anedota, mas tira dela uma lição sagrada: Maria, Medianeira de todas as graças. Ele estå a "evangelizar" a nossa humanidade.

Quanto Ă  outra, uma leitura do contexto elimina qualquer dĂșvida sobre a intenção de Pedro quando, vendo negado o seu desejo mais profundo, pede a ajuda e a mediação de Maria.

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EMF 200.2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Estå tão absorto, que nem percebe o barulho das muitas vozes e do tropel dos muitos passos pelo corredor da entrada, e depois, de dois passos mais leves de alguém que sobe pela escadinha externa e que se aproxima do salão. Só quando Maria o chama é que Ele levanta a cabeça.

– Meu Filho, chegou a Susana de JerusalĂ©m com a famĂ­lia, e logo AglaĂ© me acompanhou. Queres atendĂȘ-la, enquanto estamos sĂłs?

– Sim, mĂŁe. Vou atendĂȘ-la jĂĄ. E que ninguĂ©m suba, enquanto nĂŁo terminar tudo. Espero ter acabado, antes da volta dos outros. Mas Eu te peço que cuides para que nĂŁo haja curiosidades indiscretas
 em ninguĂ©m
 e especialmente em Judas de SimĂŁo.

– Estarei atenta, e cuidarei disso


Maria sai, para voltar pouco depois, segurando Aglaé pela mão, não mais embrulhada em seu manto cinzento e com o seu véu caído para a frente, não mais com suas sandålias altas e cheias de fivelas e fitas, que ela antes usava, mas totalmente transformada como mulher hebreia, pelas sandålias planas e baixas, muito simples como as de Maria, com a veste de um azul escuro, sobre a qual estå posta o manto, e com um véu branco, colocado como fazem as mulheres hebreias do povo, isto é, posto simplesmente na cabeça, com uma parte jogada para as costas, de modo que o rosto fica coberto por ele, mas não completamente. O håbito comum, como é usado por muitíssimas mulheres, e estando ela no meio de um grupo de galileus, tudo isso tornava possível que Aglaé deixasse de ser reconhecida.

Ela entra de cabeça inclinada, enrubescendo a cada passo que då, e acho que, se Maria não a fosse puxando docemente para Jesus, ela se teria ajoelhado na soleira.

– Aqui está, meu Filho, aquela que vinha te procurando há tanto tempo. Escuta-a –diz Maria, ao chegar perto de Jesus, e depois se retira, abaixando os toldos sobre as portas escancaradas e fechando a que estava mais perto da escadinha.

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