Jesus diz:
â Esta Ă© a quarta dor de Maria mĂŁe de Deus. A primeira foi a apresentação ao Templo; a segunda, a fuga para o Egito; a terceira, a morte de JosĂ©; a quarta, a minha separação dela.
Conhecendo o desejo do Pai, Eu te disse ontem Ă tarde que apressarei a descrição das ânossasâ dores para que elas se tornem conhecidas. Mas, como estĂĄs vendo, jĂĄ algumas, de minha mĂŁe, tinham sido relatadas. Eu expliquei a fuga[2] antes da apresentação, porque havia necessidade de fazĂȘ-lo naquele dia. Eu sei. Tu compreendes e dirĂĄs o porquĂȘ ao Pai, de viva voz.
44.8
Ă meu desejo alternar as tuas contemplaçÔes, e as minhas conseqĂŒentes explicaçÔes, com os ditados propriamente ditos, para aliviar o teu espĂrito, dando-te a bem-aventurança de ver, e tambĂ©m porque assim fica clara a diferença estilĂstica entre o teu modo de compor e o meu.
AlĂ©m disso, diante de tantos livros que falam de Mim, com tanto toca e retoca, muda e embeleza, estes livros se tornaram irreais, agora Eu desejo dar a quem crĂȘ em Mim, uma visĂŁo que leve Ă verdade do tempo da minha vida mortal. Com isso, Eu nĂŁo fico diminuĂdo, mas ao contrĂĄrio, me torno maior na minha humildade, que se faz pĂŁo por vĂłs, a fim de ensinar-vos a ser humildes e semelhantes a Mim, que fui homem como vĂłs, trazendo Comigo, na minha veste de homem, a perfeição de um Deus. Eu devia ser vosso Modelo, e os modelos devem ser sempre perfeitos.
NĂŁo terei nas contemplaçÔes uma linha cronolĂłgica correspondente Ă dos Evangelhos. Tomarei os pontos que Eu achar mais Ășteis naquele dia para ti ou para os outros, seguindo uma linha minha de ensinamento e de bondade.
44.9
O ensinamento que vem da contemplação da minha separação Ă© dirigido especialmente aos pais e aos filhos que a vontade de Deus chama para uma vida de renĂșncia recĂproca por um amor mais alto. Em segundo lugar, Ă© dirigido a todos aqueles que se encontram diante de uma renĂșncia difĂcil.
Quantas dessas nĂŁo encontrais em vossas vidas! Elas sĂŁo como espinhos sobre a terra, e penetrantes ao coração. Eu sei. Mas a quem as acolhe com resignação â prestai atenção, eu nĂŁo digo: âa quem as deseja e as acolhe com alegriaâ (pois isto jĂĄ Ă© perfeição); mas eu digo: âcom resignaçãoâ â elas se transformam em rosas eternas. Mas poucos sĂŁo os que as acolhem com resignação. Como uns burrinhos rebeldes, vĂłs vos levantais contra a vontade do Pai e teimais, se Ă© que nĂŁo procurais atĂ© ferir com coices espirituais e mordidas, ou seja, com rebeliĂŁo e blasfĂȘmias contra o bom Deus.
44.10
NĂŁo digais assim: âMas eu nĂŁo tinha outro bem senĂŁo este, e Deus o tirou de mim. Eu nĂŁo tinha outro amor senĂŁo este, e Deus arrebatou-o de mim.â TambĂ©m Maria, mulher gentil e amorosa atĂ© Ă perfeição, porque em sua Graça Total atĂ© as formas afetivas e sensitivas eram perfeitas, nĂŁo tinha senĂŁo um bem e um amor sobre a terÂra: o seu Filho. Nada lhe restava, senĂŁo Ele. Seus pais estavam mortos fazia tempo, JosĂ© estava morto, havia alguns anos. NĂŁo havia senĂŁo Eu para amĂĄ-la e fazĂȘ-la sentir que nĂŁo estava sozinha. Os parentes, por causa de Mim, de quem eles nĂŁo conheciam a origem divina, lhe eram um pouco hostis, como se fosse uma mĂŁe que nĂŁo sabe se impor ao filho, que sai do bom-senso, que recusa os casamentos que lhe sĂŁo propostos os quais poderiam trazer prestĂgio para a famĂlia, e atĂ© ajuda.
Os parentes, voz do bom senso, do senso humano ainda, que vĂłs chamais de bom-senso, nĂŁo passam de um senso humano, isto Ă©, egoĂsmo, teriam querido estas prĂĄticas desenvolvidas na minha vida. No fundo, havia sempre o medo de, um dia, passarem aborÂrecimentos por minha causa, pois Eu jĂĄ ousava exteriorizar minhas idĂ©ias, por demais sonhadoras, no pensar deles, as quais podiam atĂ© irritar a Sinagoga. A histĂłria hebraica estava cheia de ensinamentos sobre a sorte que tiveram os profetas. NĂŁo era fĂĄcil a missĂŁo do profeta, pois muitas vezes acarretava a morte dele e aborrecimentos para a sua parentela. No fundo, estavam sempre com o pensamento de que teriam um dia de cuidar de minha mĂŁe.
Por isso Ă© que, ao verem que Ela nĂŁo se opunha a Mim em nada, e atĂ© parecia viver numa contĂnua adoração perante o Filho, isso os irritava. Esta antipatia haveria de ir crescendo, ao longo dos trĂȘs anos do ministĂ©rio, atĂ© culminar em censuras abertas, quando me encontravam no meio das multidĂ”es, e se envergonhavam, como diziam, da minha mania de ficar provocando as castas poderosas. Censuras a Mim e a Ela, a minha pobre mĂŁe!
44.11
Contudo, Maria nĂŁo opĂŽs resistĂȘncia, como vĂłs fazeis, ela que sabia as disposiçÔes dos parentes (nem todos foram como Tiago, Judas e SimĂŁo, nem como a mĂŁe deles, Maria de ClĂ©ofas), prevendo as disposiçÔes futuras, e sabendo a sua sorte durante aqueles trĂȘs anos e o que a aguardava no final deles, assim como o que Me aconteceria. Ela chorou. Quem nĂŁo teria chorado, diante da separação do filho que a amava, como Eu a amava, diante da perspectiva dos longos dias vazios, sem a minha presença, naquela casa solitĂĄria, diante do futuro do Filho, destinado a se bater contra a mĂĄ vontade de quem era culpado, procurando vingar-se da culpa, ofendendo o Inocente, atĂ© matĂĄ-lo?
Chorou porque era a Co-Redentora e a mĂŁe do gĂȘnero humano renascido para Deus, e devia chorar por todas as mĂŁes que nĂŁo sabem fazer de suas dores de mĂŁes uma coroa de glĂłria eterna.
Quantas mĂŁes neste mundo vĂȘem a morte arrancar um filho dos seus braços! Quantas mĂŁes vĂȘem a vontade sobrenatural arrebatar-lhes um filho de perto delas! Maria chorou por todas as suas filhas, como mĂŁe dos cristĂŁos, por todas as suas irmĂŁs, em sua dor de mĂŁe despojada. Chorou tambĂ©m por todos os filhos que, nascidos de mulher, estĂŁo destinados a tornarem-se apĂłstolos de Deus, ou mĂĄrtires por amor de Deus, por fidelidade a Ele ou pela ferocidade humana.
44.12
O meu Sangue e o pranto de minha mĂŁe sĂŁo a mistura que fortalece os marcados da sorte herĂłica, anulando-lhes as imperfeiçÔes, ou as faltas cometidas por fraqueza, dando depois do martĂrio sofrido, a paz de Deus e, se sofrido por Deus, a glĂłria do CĂ©u.
Os missionĂĄrios experimentam as lĂĄgrimas como uma chama que os aquece nas regiĂ”es onde a neve impera, como um orvalho lĂĄ onde o sol arde. SĂŁo brotadas da caridade de Maria e jorram dum coração de lĂrio. Suas lĂĄgrimas tĂȘm o fogo da caridade virginal unida ao Amor e o perfumado frescor da virginal pureza, semelhante ao da ĂĄgua que se recolhe no cĂĄlice de um lĂrio, depois de uma noite orvalhosa.
Os consagrados as encontram[3] naquele deserto que Ă© a vida monĂĄstica bem entendida. Ă deserto porque nĂŁo vive senĂŁo da uniĂŁo com Deus, e qualquer outro afeto desaparece tornando-se unicamente caridade sobrenatural, para com os parentes, os amigos, os superiores e os inferiores.
São encontradas pelos consagrados a Deus no mundo, no mundo que não os entende e não os ama. à deserto também para eles, pois vivem como se estivessem sozinhos, por serem tão incompreendidos e escarnecidos, por amor de Mim.
As minhas queridas âvĂtimasâ experimentam as lĂĄgrimas, porque Maria Ă© a primeira das vĂtimas que por amor de Jesus dĂĄ as suas lĂĄgrimas que restauram e inebriam um maior sacrifĂcio, Ă s suas imitadoras, com a mĂŁo de mĂŁe e de MĂ©dica.
Santo pranto o de minha mĂŁe!
44.13
Maria reza. NĂŁo se recusa a rezar, sĂł porque Deus lhe manda uma dor. Lembrai-vos disso. Ela reza junto com Jesus. Reza o Pai-nosso. Nosso e vosso.
O primeiro âPai-nossoâ foi pronunciado no pomar de NazarĂ© para consolar o sofrimento de Maria, para oferecer as ânossasâ vontades ao Eterno, no momento em que se estava iniciando para essas vontades o perĂodo de uma renĂșncia sempre crescente, que iria culminar por Mim, na renĂșncia da vida e por Maria, na morte do Filho.
Ainda que nĂŁo tivĂ©ssemos nada de que pedir perdĂŁo ao Pai, contudo, por humildade, nĂłs, os Sem Culpa, pedimos perdĂŁo ao Pai, para sermos perdoados e absolvidos atĂ© de algum suspiro, para podermos ir dignamente ao encontro da nossa missĂŁo. Para ensinar-vos que quanto mais estiverdes na graça de Deus, mais a missĂŁo Ă© abençoada, e mais frutos ela produz. Para ensinar-vos o respeito a Deus e a humildade. Diante de Deus Pai, atĂ© as nossas duas perfeiçÔes de Homem e de Mulher sentiram-se um nada, pedindo perdĂŁo. Como tambĂ©m pediram o âpĂŁo de cada diaâ.
Qual era o nosso pĂŁo? Oh! nĂŁo aquele amassado pelas mĂŁos puras de Maria e assado no pequeno forno, para o qual tantas vezes Eu tinha ajeitado feixes e braçadas de lenha. TambĂ©m aquele Ă© necessĂĄrio, enquanto estivermos sobre a terra. Mas o ânossoâ pĂŁo de cada dia era aquele de fazer, dia apĂłs dia, a nossa parte da missĂŁo. Que Deus no-la desse cada dia, porque cumprir a missĂŁo que Deus dĂĄ Ă© a alegria do ânossoâ dia, nĂŁo Ă© verdade, pequeno JoĂŁo? NĂŁo dizes, tu tambĂ©m, que o dia te parece vazio, parecendo nĂŁo existir, se a bondade do Senhor te deixa um dia sem a tua missĂŁo de dor?
44.14
Maria reza junto a Jesus. Ă Jesus quem vos justifica, meus filhosÂ! Sou Eu que torno aceitĂĄveis e frutuosas as vossas oraçÔes junto ao Pai. Eu jĂĄ vos disse[4]: âTudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vos concederĂĄâ, e a Igreja valoriza as suas oraçÔes, dizendo: âPor Jesus Cristo nosso Senhor.â
Quando rezardes, uni-vos sempre, sempre, sempre a Mim. Eu rezarei em alta voz por vĂłs, cobrindo a vossa voz de homens com a minha de Homem-Deus. Eu colocarei sobre as minhas mĂŁos traspassadas a vossa oração, e a elevarei atĂ© o Pai. Ela se tornarĂĄ uma hĂłstia de preço infinito. A minha voz, misturada com a vossa, subirĂĄ como um beijo filial ao Pai, e a pĂșrpura das minhas feridas tornarĂĄ precioso o vosso rezar. Permanecei em Mim, se quereis que o Pai permaneça em vĂłs, convosco, por vĂłs.
44.15
Terminaste a narração dizendo: âpor nĂłsâŠâ, e querias dizer: âPor nĂłs que somos tĂŁo ingratos para com estes Dois que subiram ao CalvĂĄrio por nĂłs.â Fizeste bem em colocar estas palavras. Coloca-as cada vez que Eu te fizer ver uma das nossas dores. Sejam como um sino que toca e que chama, convidando a meditar e a arrepender-se.
Agora basta. Repousa. A paz esteja contigo.