Jesus diz:
â Surge e apressa-te pequena amiga. Tenho um desejo ardente de te levar Comigo para o azul paradisĂaco da contemplação da Virgindade de Maria. SairĂĄs com a alma jovem como se tu tambĂ©m fosses criada hĂĄ pouco pelo Pai, uma pequena Eva que ainda nĂŁo conhece a carne. SairĂĄs com o espĂrito repleto de luz, porque tu mergulharĂĄs, na contemplação da obra-prima de Deus. SairĂĄs com todo o teu ser saturado de amor, porque compreenderĂĄs como Deus sabe amar. Falar da concepção de Maria, a sem mĂĄcula, quer dizer mergulhar-se no azul, na luz, no amor.
5.8 Vem e lĂȘ as suas glĂłrias no Livro do Avo: âDeus me possuiu no inĂcio de suas obras, desde o princĂpio, antes da criação. âAb aeternoâ fui predeterminada no princĂpio. Antes que fosse feita a terra, ainda nĂŁo existiam os abismos e eu jĂĄ era concebida. Nem as nascentes das ĂĄguas transbordavam, nem os montes tinham-se erguido em suas grandes dimensĂ”es, nem as colinas eram cadeias montanhosas ao sol, e eu jĂĄ tinha sido gerada. Deus ainda nĂŁo tinha feito a terra, os rios, e as bases do mundo, e eu era. Quando preparava os cĂ©us eu estava presente, quando com lei imutĂĄvel fechou sob a orla celeste o abismo, quando tornou estĂĄvel no alto a abĂłbada celeste e suspendeu as fontes das ĂĄguas, quando fixava ao mar os seus confins e dava leis Ă s ĂĄguas de nĂŁo passar os seus limites, quando assentava os fundamentos da terra, eu estava com Ele a dispor todas as coisas. Sempre na alegria brincava diante Dele continuamente, brincava no universoâŠâ. Aplicaram estas palavras Ă Sabedoria, mas na realidade elas falam dela: a bela mĂŁe, a santa mĂŁe, a virgem mĂŁe da Sabedoria, que sou Eu que te falo.
5.9 Eu quis que tu escrevesses o primeiro verso deste hino no inĂcio do livro que fala dela, para que fosse confessada e percebida a consolação e a alegria de Deus; a razĂŁo do constante, perfeito, Ăntimo regozijo deste Deus uno e trino, que vos guia e ama, que do homem teve tantas razĂ”es de tristeza; a razĂŁo pela qual Deus perpetuou a raça, mesmo quando, Ă primeira prova[3], merecia ser destruĂda; a ra zĂŁo do perdĂŁo que vocĂȘs tiveram.
Ter Maria que o amasse. Oh! bem merecia criar o homem, e deixĂĄ-lo viver, e decretar perdoĂĄ-lo, para ter a virgem bela, a virgem santa, a virgem imaculada, a virgem enamorada, a filha dileta, a mĂŁe purĂssima, a esposa amorosa! Muito e mais ainda vos deu e vos daria Deus para poder possuir a criatura das suas delĂcias, o sol do seu sol, a flor do seu jardim. E muito continua a dar-vos por ela, a pedido dela, pela alegria dela, porque a sua alegria se derrama na alegria de Deus e a aumenta de esplendor que enche de faĂscas a luz, a grande luz do ParaĂso; cada centelha Ă© uma graça para o universo, para a raça do homem, para os prĂłprios bem-aventurados, que respondem-lhes com um grito radiante de aleluia a cada geração de milagre divino, criado pelo desejo do Deus Trino de ver o cintilante riso de alegria da Virgem.
5.10 Deus quer um rei no universo que Ele havia criado do nada. Um rei que, pela natureza da matĂ©ria, fosse o primeiro entre todas as criaturas criadas e dotadas de matĂ©ria. Um rei que, pela natureza do espĂrito, fosse quase divino, fundido na Graça como no seu inocente primeiro dia. Mas a Mente suprema, onde sĂŁo notĂłrios todos os acontecimentos mais distantes em sĂ©culos, cuja vista vĂȘ incessantemente tudo quanto era, Ă©, e serĂĄ, enquanto contempla o passado e observa o presente, eis que aprofunda o olhar no Ășltimo futuro sem ignorar a morte do Ășltimo homem, sem confusĂŁo nem descontinuidade, esta Mente nunca ignorou o rei criado por Ele, para estar ao seu lado, semidivino, no CĂ©u, herdeiro do Pai. Ao entrar adulto no seu reino, depois de ter vivido na casa da mĂŁe, a terra com a qual foi feito, durante a sua infĂąncia de Eterno, na sua jornada sobre a terra, este rei teria cometido contra si mesmo o delito de matar-se na Graça e o latrocĂnio de furtar-se do CĂ©u.
Por que entĂŁo o criara? Certamente muitos se perguntam isto. TerĂeis preferido nĂŁo existir? Este dia nĂŁo merecia ser vivido, por si mesmo, tĂŁo pobre, nu e amargo pela vossa maldade, mas para conhecer e admirar a Beleza infinita que a mĂŁo de Deus semeou no universo?
Para quem teria feito estes astros e planetas que deslizam como setas e flechas, riscando o arco do firmamento? Ou os aparentemente lentos, majestosos na sua corrida como bĂłlidos, presenteanÂdo-vos com luzes e estaçÔes como se fossem eternos, imutĂĄveis, ainda que em contĂnua mudança, oferecendo-vos uma pĂĄgina nova para ser lida sobre o azul, toda noite, todo mĂȘs, todo ano, quase como dizendo-vos: âEsquecei-vos do cĂĄrcere, deixai as vossas gravuras repletas de coisas obscuras, podres, sujas venenosas, enganosas, blasfemadoras, corruptoras e elevai, ao menos com o olhaÂr na ilimitada liberdade dos firmamentos. Tende uma alma azul olhando tĂŁo grande serenidade, criai-vos uma reserva de luz, para levar Ă vossa prisĂŁo escura. Lede a palavra que nĂłs escrevemos cantando o nosso coro sideral mais harmonioso do que acompanhado por um ĂłrgĂŁo de catedral. A palavra que nĂłs escrevemos brilhando, a palavra que nĂłs escrevemos amando, visto que sempre temos presente Aquele que nos quis dar a alegria de existir, e o amamos por nos ter dado este ser, este esplendor, este deslizar, este sermos livres e belos em meio ao azul suave, alĂ©m do qual vemos um azul ainda mais sublime, o ParaĂso. E do qual cumprimos a segunda parte do preceito de amor amando a vĂłs, o nosso prĂłximo universal, amando-vos doando guia, luz, calor e beleza. Lede a palavra que nĂłs dizemos, e Ă© aquela sobre a qual regulamos o nosso canto, o nosso resplandecer, o nosso riso: Deus?â
Para quem teria feito aquele lĂquido azul, que Ă© um espelho para o cĂ©u, um caminho para a terra, sorriso das ĂĄguas, voz das ondas, palavra tambĂ©m essa que como os sussurros de seda farfalhando, com risadinhas de crianças serenas, com suspiros de velhos que lembram e choram, com bofetĂ”es violentos e com chifradas, mugidos e estrondos, sempre fala e diz: âDeus?â O mar Ă© para vĂłs, como o cĂ©u e os astros. E com o mar, os lagos, os rios, os pĂąntanos, os riachos e as nascentes puras, que servem a todos para vos transportar, nutrir, dessedentar e purificar, e que vos servem, servindo o Criador, sem saĂrem para fora dos seus limites, afogando-vos, como mereceis.
Para quem teria feito todas as inumerĂĄveis famĂlias dos animais, como flores que voam cantando, os servos que correm, que trabalham, nutrem e sĂŁo recreação para vĂłs, os reis?
Para quem teria feito todas as inumerĂĄveis famĂlias das plantas, e das flores que parecem borboletas, que parecem jĂłias e passarinhos imĂłveis, dos frutos que parecem os cofres de pedras preciosas, como tapetes para vossos pĂ©s, proteção para as vossas cabeças, recreação Ăștil, alegria para a vossa mente, membros, vista e olfato?
Para quem teria feito os minerais nas entranhas da terra, os sais dissolvidos nas fontes de åguas geladas ou ferventes, as fontes sulfurosas, as iodadas, as alcalinas? Não teria sido para que alguém gozasse de tudo, alguém que não era Deus, mas filho de Deus? O homem.
Para a alegria de Deus, para as necessidades de Deus, nada era preciso. Deus se basta a Si mesmo. NĂŁo tem que se contemplar para alegrar-se, nutrir-se, viver e repousar. Tudo o que foi criado nĂŁo aumentou um ĂĄtomo a sua infinita alegria, sua beleza, seu poder. Mas tudo Ele fez pela sua criatura, que Ele quis colocar como rei na Sua obra: o homem.
Para ver tĂŁo grandes obras de Deus e por reconhecimento para com o seu poder, vale a pena viver. Como viventes deveis ser gratos. DeverĂeis ter sido gratos, mesmo se nĂŁo tivĂ©sseis sido redimidos, hoje ou no fim dos sĂ©culos, porque nĂŁo obstante tenhais sido os Primeiros, singularmente, sois atĂ© hoje prevaricadores, soberbos, luxuriosos, homicidas. Mas Deus ainda vos concede sabor de gozar das belezas do universo e da bondade do universo, e vos trata como se fosseis bons, filhos bons aos quais tudo Ă© ensinado e concedido, a fim de tornar-lhes mais doce e sadia a vida. Quanto sabeis, vĂłs o sabeis pela luz que Deus vos deu. Tudo quanto descobris, vĂłs o descobris porque Deus vĂŽ-lo indica no Bem. Porque os outros conhecimentos e descobertas, que tĂȘm o sinal do mal, vĂȘm do Mal supremo, satanĂĄs.
5.11 A Mente suprema, que nada ignora, antes ainda que o homem existisse, sabia que o homem, por si mesmo, teria sido um ladrĂŁo e um homicida. E, jĂĄ que a Bondade eterna nĂŁo tem limites, antes que acontecesse a Culpa, pensou no meio para anulĂĄ-la. E o meio seria: Eu. E o instrumento para fazer do meio um instrumento operante seria: Maria. Assim Ă© que a virgem foi criada no Pensamento sublime de Deus.
5.12 Todas as coisas foram criadas para Mim, Filho dileto do Pai. Eu,
como Rei, deveria ter tido sob os meus pĂ©s de Rei divino tapetes e jĂłias como nenhum palĂĄcio real jamais teve. Cantos, vozes, servos e ministros tĂŁo numerosos ao redor de minha pessoa que nenhum soberano jamais teve. Flores, pedras preciosas, todo o sublime, o grandioso, o gentil, o minucioso, tudo o que Ă© possĂvel buscar no Pensamento de um Deus.
Mas Eu devia ser Carne, alĂ©m de ser EspĂrito. Carne, para salvar a carne. Carne para sublimar a carne, levando-a para o CĂ©u, muitos sĂ©culos antes da hora. Porque a carne, habitada pelo espĂrito, Ă© a obra-prima de Deus, e por ela, o CĂ©u fora feito. Para ser Carne, eu tinha necessidade de uma mĂŁe. Para ser Deus, eu tinha necessidade de que meu Pai fosse Deus.
Eis que, entĂŁo, Deus criou para Si uma esposa, e lhe disse: âVem comigo. A meu lado, vĂȘ tudo quanto Eu faço pelo nosso Filho. Olha e jubila-te, virgem eterna, menina eterna, que o teu riso encha todo este empĂreo, e dĂȘ aos anjos a nota inicial, e ensina ao ParaĂso uma harmonia celeste. Eu olho para ti. E te vejo como serĂĄs, Ăł mulher imaculada que, por enquanto, Ă©s apenas espĂrito, o espĂrito em que me deleito. Olho para ti, e dou o azul do teu olhar ao mar e ao firmamento, a cor dos teus cabelos ao trigo, a tua candura ao lĂrio, o tom rĂłseo Ă rosa, semelhante Ă tua pele de seda. Imito nas pĂ©rolas os teus dentes graciosos; olhando tua boca, faço os doces morangos, ponho na voz rouxinĂłis Ă s tuas notas, e na das rolinhas o teu pranto. Ainda lendo os teus futuros pensamentos, ouvindo as palpitaçÔes do teu coração, eu encontrei os modelos de arte para criar. Vem, minha Alegria! Habita os mundos para divertimento teu, enquanto fores a luz que se move em meu Pensamento, teus hĂŁo de ser os mundos pelo teu sorriso, tuas as belas formaçÔes das estrelas e o colar dos astros todos. Coloca a lua sob os teus pĂ©s gentis, cinge-te com o cinto de estrelas da Via LĂĄctea. As estrelas e os planetas sĂŁo para ti. Vem e diverte-te, vendo as flores que serĂŁo o divertimento do teu Menino, servindo de almofada para o Filho do teu ventre. Vem, e vĂȘ como se criam as ovelhas e os cordeiros, as ĂĄguias e as pombas. Fica perto de mim, enquanto eu faço como uns vasos, os mares e os rios, enquanto ergo as montanhas e as enfeito com a neve e as florestas, enquanto semeio as searas, as ĂĄrvores, as videiras, enquanto faço para ti a oliveira, minha rainha de paz, para ti a videira, meu sarmento que levarĂĄ o Cacho eucarĂstico. Corre, voa, jubila-te, Ăł minha beleza, e que o mundo todo, que vai sendo criado de hora em hora, aprenda contigo a me amar, Ăł amorosa, e se torne mais bonito com o teu sorriso, Ăł mĂŁe do meu FilhoÂ, rainha do meu ParaĂso, amor do teu Deus.â Vendo o Erro, e olhando para a Sem Erro diz ainda: âVem a Mim, tu que anulas a amargura da desobediĂȘncia, da ingratidĂŁo, da fornicação humana com satanĂĄs. Eu terei contigo a desforra sobre satanĂĄsâ.
5.13 Deus, Pai Criador, criara o homem e a mulher com uma lei de amor tão perfeita, que não podeis, nem ao menos compreender. E vós vos enganais ao pensar como teria aparecido a raça humana, se o homem não o tivesse alcançado pelo ensinamento de satanås.
Olhai as plantas que produzem fruto e semente. Por acaso elas conseguem ter semente e fruto por meio de uma fornicação ou de uma fecundação em cada cem encontros conjugais? Não. Da flor masculina sai o pólen, guiado por um complexo de leis meteóricas e magnéticas, vai ao ovårio da flor feminina. Esta se abre, o recebe e produz. Não se suja e o rejeita depois, como vós fazeis, para poderdes gozar, no dia seguinte, da mesma sensação. Depois de produzir não floresce, até a próxima estação e, quando floresce, é para reproduzir.
Olhai os animais. Todos. JĂĄ vistes algum animal, macho ou fĂȘmea, ir um ao outro para algum abraço estĂ©ril, ou sĂł para algum encontro lascivo? NĂŁo. De perto ou de longe, voando, rastejando, pulando ou correndo, eles vĂŁo, quando chega a hora, ao rito fecundativo, e nĂŁo se subtraem a isso para ficarem sĂł no prazer, mas vĂŁo alĂ©m, vĂŁo atĂ© Ă s conseqĂŒĂȘncias sĂ©rias e santas, que conduzem Ă geração da prole, o Ășnico escopo que, no homem, semideus pela origem da Graça que Eu restituĂ inteira, deveria fazĂȘ-lo aceitar a animalidade do ato necessĂĄrio, uma vez que descestes um grau no nĂvel do animal.
VĂłs nĂŁo fazeis como as plantas e os animais. VĂłs tivestes por mestre satanĂĄs, pois o escolhestes e o desejais. As obras que praticais sĂŁo dignas do mestre que quisestes ter. Mas, se tivĂ©sseis sido fiĂ©is a Deus, terĂeis tido santamente, sem dor, a alegria de filhos, sem vos esgotardes em cĂłpulas obscenas, indignas, que os prĂłprios animais nĂŁo conhecem, os animais que nĂŁo tĂȘm alma racional e espiritual.
Ao homem e Ă mulher, depravados por satanĂĄs, Deus quis opor o Homem nascido de mulher tĂŁo purificada por Deus, a ponto de poder gerĂĄ-Lo sem relação com homem. Flor que gera flor, sem necessidade de semente, mas apenas com o beijo do Sol sobre o cĂĄlice inviolado do LĂrio que Ă© Maria.
5.14 A desforra de Deus!
Solta os teus silvos de inveja, ó satanås, enquanto ela estå nascendo. Esta menina te venceu! Antes que tu fosses o Rebelde, o Tortuoso, o Corruptor, jå estavas vencido, e ela é a tua vencedora. Mil exércitos alinhados nada podem contra o teu poder, e contra as tuas couraças caem as armas das mãos dos homens, ó perene, e não hå vento que possa dispersar o mau cheiro do teu hålito. No entanto, este calcanharzinho de criança, tão rosado, que parece o interior de uma camélia também rosada, tão liso e tão macio que a seda é åspera comparado a ele, tão pequenino, que poderia caber no cålice de uma tulipa e uså-la como sapatinho, eis que ele te pisa sem medo, e te confina em teu antro. Eis que só o seu vagido jå te pÔe em fuga, a ti que não tens medo dos exércitos. O hålito dela purifica o mundo do teu fedor. Estås derrotado. Só o nome dela, só o seu olhar, só a sua pureza jå são uma lança, um fulgor de raio, uma enorme pedra que te transpassam, que te abatem, que te aprisionam no teu covil do inferno, ó Maldito, que tiraste a Deus a alegria de ser Pai de todos os homens criados.
Foi inĂștil, pois, teres corrompido os que haviam sido criados inocentes, levando-os a conhecer e a conceber sinuosidades da luxĂșria, privando Deus, de ser o doador dos filhos, em suas diletas criaturas, dando-lhes regras que, se respeitadas, teriam mantido sobre a terra um equilĂbrio entre os sexos e as raças, capaz de evitar guerras entre os povos e desventuras entre famĂlias.
Obedecendo, teriam conhecido o amor. SĂł obedecendo, teriam conhecido e conservado o amor. Uma posse plena e tranqĂŒila desta emanação de Deus, que do sobrenatural desce ao inferior, para que tambĂ©m a carne se alegre santamente, esta que estĂĄ ligada ao espĂrito, criada por Aquele que criou o espĂrito.
Agora, o vosso amor, Ăł homens, os vossos amores o que sĂŁo? Ou libidinagem vestida de amor, ou medo insanĂĄvel de perder o amor do cĂŽnjuge, seja pela libidinagem prĂłpria, ou alheia. JĂĄ nĂŁo estais mais seguros quanto Ă posse do coração do esposo ou da esposa, desde quando a libidinagem entrou neste mundo. Tremeis, chorais e tornais-vos loucos de ciĂșmes, atĂ© assassinos, Ă s vezes, para vingar alguma traição, desesperados, ou entĂŁo abĂșlicos e atĂ© dementes.
Eis o que fizeste, satanås, aos filhos de Deus. Estes, que corrompeste, teriam conhecido a alegria de ter filhos sem sentirem dor, a alegria de nascer sem o medo de morrer. Mas agora estås vencido em uma mulher e por uma mulher. De agora em diante, quem a amar, tornarå a ser de Deus, superando as tuas tentaçÔes, para poder imitar a sua pureza imaculada. De agora em diante, não mais podendo conceber sem dor, as mães a terão para o seu conforto. De agora em diante, as esposas a terão por guia e os moribundos por mãe, sendo doce para eles morrer sobre aquele seio, que é um escudo contra ti, oh Maldito, e proteção, diante do julgamento de Deus.
Maria, minha cara interlocutora, viste o nascimento do Filho da virgem e o nascimento da virgem no CĂ©u. Viste, pois, que para os sem culpa Ă© desconhecido o castigo de dar a vida e tambĂ©m o sofrimento de dar-se Ă morte. Mas, se Ă inocentĂssima mĂŁe de Deus foi reservada a perfeição dos dons celestes, a todos, que tivessem permanecido inocentes e filhos de Deus, teria sido possĂvel gerar sem dor e morrer sem afĂŁ, por justiça de terem sabido unir-se e conceber sem luxĂșria.
A sublime desforra de Deus sobre a vingança de satanĂĄs foi a de elevar a perfeição da criatura dileta a uma super-perfeição, capaz de anular, ao menos nela, toda lembrança de humanidade, que fosse suscetĂvel ao veneno de satanĂĄs, e para a qual, nĂŁo de um casto abraço de homem, mas de um divino amplexo, que empalidece o espĂrito num ĂȘxtase de Fogo, lhe teria vindo o Filho.
5.15 A virgindade da Virgem!âŠ
Vem. Medita nesta virgindade profunda, que produz em quem a contempla vertigens de abismo! O que Ă© a pobre virgindade forçada da mulher que por nenhum homem foi desposada? Ă menos do que nada. O que Ă© a virgindade daquela que quer ser virgem, para ser de Deus, mas sabe sĂȘ-lo sĂł no corpo e nĂŁo no espĂrito, no qual deixa entrar muitos pensamentos estranhos, acaricia e aceita as carĂcias de pensamentos humanos? Isto jĂĄ começa a ser uma mĂĄscara de virgindade, mas muito pouco ainda. O que Ă© a virgindade de uma enclausurada, que vive sĂł para Deus? Ă muito. Mas, mesmo assim, ainda nĂŁo Ă© uma virgindade perfeita, se comparada com a virgindade da minha mĂŁe.
Sempre existiu um enlace, atĂ© mesmo no mais santo. O enlace da origem, entre o espĂrito e a Culpa. SĂł o Batismo o desfaz. Mas, Ă© como uma mulher separada do marido pela morte, nĂŁo restitui mais em si a virgindade total, como a virgindade dos nossos Primeiros, antes do Pecado. Uma cicatriz permanece, e dĂłi ao ser lembrada, e estĂĄ sempre pronta para reabrir-se em ferida, como certas doenças que periodicamente voltam com seus vĂrus, ainda mais ativos. Na virgem nĂŁo fica esse sinal de um enlace dissolvido com a Culpa. Sua alma apresenta-se bonita e intacta, como quando estava na mente do Pai, e reĂșne em Si todas as Graças.
Ă a virgem, a Ășnica, a perfeita, a completa, foi assim pensada, gerada, querida, coroada. Ă eternamente a virgem, o abismo da intocabilidade, da pureza, da graça que se perde no Abismo do qual brotou: em Deus, intangibilidade, pureza e graça perfeitĂssima.
AĂ estĂĄ a desforra do Deus Trino e Uno. Contra suas criaturas profanadas, Ele ergue esta Estrela de perfeição. Contra a curiosidade doentia, esta se esquiva, recompensada em poder amar somente a Deus. Contra a ciĂȘncia do mal, esta sublime ignorante. Nela nĂŁo existe somente a ignorĂąncia do que Ă© um amor aviltado; nĂŁo hĂĄ tambĂ©m somente a ignorĂąncia do amor que Deus havia dado aos esposos. E ainda mais. Nela hĂĄ a ignorĂąncia das concupiscĂȘncias, herança do pecado. Nela hĂĄ somente a sabedoria gĂ©lida, mas incandescente, do Amor divino. Fogo que protege de gelo a carne, para que se torne espelho transparente no altar onde um Deus desposa uma virgem, e nĂŁo se avilta, porque sua Perfeição abraça aquela que, como convĂ©m a uma esposa, sĂł em um ponto Ă© inferior ao esposo, sendo-lhe sujeita por ser mulher, mas Ă© sem mancha, como Ele.