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EMF 28.1-6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

28.1 Vejo uma estrada mestra. Nela hå muita gente. Também bur­rinhos que vão carregando utensílios domésticos e pessoas. Burrinhos que voltam. As pessoas esporam suas cavalgaduras, e quem vai a pé anda depressa, porque estå fazendo frio.

O ar estĂĄ limpo e seco, e o cĂ©u sereno, mas no ar hĂĄ um ventinho cortante, caracterĂ­stico do pleno inverno. O campo, depois das colhei­tas, parece mais vasto, os pastos estĂŁo com a erva baixa e tostada pelos ventos do inverno; por eles as ovelhas procuram um pouco de alimento e buscam os raios do sol surgindo, pouco a pouco. Elas estĂŁo muito juntas umas das outras, porque tambĂ©m estĂŁo com frio e balem, levantando o focinho e olhando para o sol, como se lhe quisessem dizer: “Vem logo, que estĂĄ fazendo frio!” O terreno Ă© cheio de ondulaçÔes, que vĂŁo se tornando cada vez mais nĂ­tidas. Na verdade, este Ă© um lugar de colinas. Aqui hĂĄ vales cheios de ĂĄrvores e de encostas, hĂĄ pequenos vales e morros. A estrada passa pelo meio, e se dirige para sudeste.

Maria estĂĄ sobre um burrinho cinzento. EstĂĄ toda enrolada no pesado manto. Na dianteira da sela estĂĄ aquele instrumento, jĂĄ visto na viagem para Hebron, e por cima, estĂĄ o baĂș com as coisas mais essenciais.

José vai caminhando, ao lado do burrinho de Maria, segurando a rédea.

– Estás cansada? –pergunta ele de vez em quando.

Maria olha para ele, sorrindo, e diz:

– Não.

Mas, na terceira vez, ela acrescenta:

– Tu, sim, que estĂĄs caminhando, Ă© que deves estar cansado.

– Oh! Eu? Para mim isso nĂŁo Ă© nada. O que penso Ă© que se eu tivesse achado um outro jumento, podias estar com mais comodidade e andar um pouco mais. Mas eu nĂŁo achei. Agora todos estĂŁo precisando de cavalgaduras. Tem coragem! Daqui a pouco, estaremos em BelĂ©m. AtrĂĄs daquele monte estĂĄ Efrata.

Calam-se. A virgem, quando nĂŁo estĂĄ falando, parece recolher-se em uma oração interior. Sorri, com um sorriso manso, por algum pensamento passageiro e, olhando as pessoas, parece nĂŁo as estar vendo, isto Ă©, nĂŁo as distingue, se trata-se de um homem, uma mulher, um velho, um pastor, um rico ou um pobre. O que ela vĂȘ sĂŁo sĂł pessoas.

– EstĂĄs com frio? –pergunta JosĂ©, porque o vento começa a soprar.

– Não, obrigada.

Mas JosĂ© nĂŁo se fia no que ela diz. Toca com as mĂŁos os pĂ©s dela, que vĂŁo pendurados aos lados do burrinho, calçados com sandĂĄlias, e que mal se vĂȘem apontar por debaixo da longa veste. A JosĂ© eles devem estar parecendo frios, porque ele sacode a cabeça, pega numa coberta que ia levando a tiracolo e com ela envolve as pernas de Maria. Ele a estende tambĂ©m sobre o regaço, de maneira que as mĂŁos dela fiquem bem quentes por debaixo da coberta e do manto.

28.2 Encontram-se com um pastor, que estå atravessando a estrada com o seu rebanho, passando do pasto da direita para a esquerda. José se inclina para dizer-lhe alguma coisa. O pastor responde que sim. José påra o burrinho, e depois o vai puxando pelo pasto, atrås do rebanho. O pastor apanha uma tosca escudela de um alforje e, depois de tirar o leite de uma ovelha grande, que estå com as tetas cheias, o då na escudela a José, que o oferece a Maria.

– Deus vos abençoe aos dois –diz Maria–. A ti pelo teu amor, e a ti pela tua bondade. Eu rezarei por ti.

– Estais vindo de longe?

– De NazarĂ© –responde JosĂ©.

– E para onde ides?

– Para BelĂ©m.

– É uma viagem longa para uma mulher nesse estado. É tua esposa?

– É minha esposa.

– JĂĄ tĂȘm lugar onde ficar em BelĂ©m?

– Não.

– A coisa estĂĄ feia! BelĂ©m estĂĄ cheia de gente vinda de toda parte, para o recenseamento ou de passagem para outro lugar. NĂŁo sei se encontrareis alojamento. Tens conhecimento do lugar?

– Não muito.

– Pois bem
 eu vou te ensinar
 por causa dela (e acena para Maria). Procura o albergue. Ele deve estar cheio. Mas eu falo nele somente para que vos sirva como ponto de referĂȘncia. Ele fica numa praça, a maior praça da cidade. Vai-se atĂ© lĂĄ por esta estrada mestra. NĂŁo hĂĄ engano. O albergue tem uma fonte na frente, e Ă© largo e baixo, com um grande portĂŁo. Ele estarĂĄ cheio. Mas, se nĂŁo encontrardes lugar no albergue nem nas casas, dai a volta por detrĂĄs do albergue, para o rumo do campo. No monte hĂĄ estrebarias, que Ă s vezes servem para os mercadores que vĂŁo a JerusalĂ©m e deixam lĂĄ seus animais, quando nĂŁo acham lugar no albergue. SĂŁo estrebarias, entendeis? EstĂŁo no monte e sĂŁo Ășmidas, frias e sem porta. Mas sempre sĂŁo um refĂșgio, pois a mulher nĂŁo pode ficar pela estrada. Talvez lĂĄ encontreis um lugar
 e feno para se poder dormir e tambĂ©m para o jumento. E que Deus vos acompanhe.

– E Deus te dĂȘ alegria –responde Maria.

José por sua vez responde:

– A paz esteja contigo.

28.3 Retomam a estrada. Um vale bem maior se faz ver do alto do morro que acabam de galgar. No vale, para cima e para baixo, pelos declives suaves que o circundam, aparecem casas e mais casas. É BelĂ©m.

– Eis-nos, afinal, na terra de Davi, Maria. Agora descansarás, pois me pareces tão cansada


– Não. Eu pensava
 estou pensando


Maria agarra a mão de José e lhe diz com um alegre sorriso:

– Acho que o tempo chegou mesmo!

– Deus de misericórdia! Como vamos fazer?

– NĂŁo tenhas medo, JosĂ©. Procura ficar firme. NĂŁo vĂȘs como eu estou calma?

– Mas estás sofrendo muito.

– Oh! nĂŁo. Estou cheia de alegria. Uma alegria tal, e tĂŁo forte, tĂŁo bela, tĂŁo incontrolĂĄvel, que o meu coração estĂĄ batendo forte, e me estĂĄ dizendo: “Ele estĂĄ nascendo! Ele estĂĄ nascendo!” A cada batida, ele diz isso. É o meu Menino, que estĂĄ batendo Ă  porta do meu coração, e estĂĄ dizendo: “mamĂŁe, eu estou aqui e vim te dar o beijo de Deus.” Oh! Que alegria meu JosĂ©!

Mas JosĂ© nĂŁo se sente invadido por aquela alegria dela. Ele estĂĄ pensando na necessidade urgente de encontrar um abrigo, e aperta o passo. De porta em porta, vai pedindo um abrigo. Nada. Tudo ocupado. Chegam ao albergue. EstĂĄ cheio, atĂ© por baixo dos pĂłrticos rĂșsticos, que circundam o grande pĂĄtio interno, com gente que acampou por ali.

JosĂ© deixa Maria sobre o burrinho, dentro do pĂĄtio, e sai procurando pelas outras casas. Volta desanimado. NĂŁo se acha nada. O rĂĄpido escurecer deste tempo de inverno jĂĄ começa a se estender sobre a terra. JosĂ© vai suplicar ao albergador. Suplica aos viajantes, e lhes diz que eles sĂŁo homens e estĂŁo com saĂșde, e que aqui hĂĄ uma mulher que estĂĄ para dar Ă  luz um filho, e que eles tenham piedade. Mas nada.

Neste lugar estå também um rico fariseu, que olha para José e Maria com um manifesto desprezo e, quando Maria se aproxima dele, ele se desvia dela, como se estivesse chegando perto uma leprosa. José olha para ele, e um rubor de desdém lhe sobe ao rosto. Maria pousa a mão sobre o pulso de José, para acalmå-lo, e lhe diz:

– Não insistas! Vamos. Deus providenciará.

28.4 Saem e vĂŁo acompanhando o muro do albergue. Dobram para uma estradinha encaixada entre o muro e uns casebres. Andam por detrĂĄs do albergue. Procuram. Acham umas grutas parecidas com umas adegas mais que uns estĂĄbulos de tĂŁo baixas e Ășmidas que sĂŁo. As mais bonitas jĂĄ estĂŁo ocupadas. JosĂ© sente-se prostrado.

– Escuta, Ăł galileu! –grita-lhe um velho que vem vindo por detrĂĄs–. LĂĄ no fundo, por baixo daquele desmoronamento, existe uma toca. Quem sabe ninguĂ©m a tenha ocupado ainda.

Eles se apressam para chegarem Ă quela “toca.” É mesmo uma toca. Por entre os escombros da construção em ruĂ­na, hĂĄ uma abertura depois da qual aparece uma gruta, que nada mais Ă© do que uma escavação feita no monte. Parecem ser os fundamentos de antiga construção que ficaram servindo de teto aos entulhos escorados por troncos de ĂĄrvores.

Para ver melhor, pois no lugar hå muito pouca luz, José pega a isca e o fuzil e acende uma lampadinha, que ele tira do alforje, trazido por ele a tiracolo. Entra e é saudado por um mugido.

– Vem, Maria. Está vazia. Aí dentro há somente um boi.

José sorri e diz:

– É melhor do que nada.

28.5 Maria apeia do burrinho e entra.

JosĂ© pendurou a lampadinha em um prego fincado em um dos troncos que estĂŁo ali como escoras. Por todos os lados a gruta estĂĄ cheia de teias de aranha. O solo Ă© de terra batida e todo cheio de buracos, de pedrinhas, de detritos, excrementos e coberto com fragmentos de palha. LĂĄ no fundo, o boi se vira e fica olhando com seus olhos mansos, enquanto o feno estĂĄ pendente de seus beiços. Dentro da gruta hĂĄ tambĂ©m um assento rĂșstico e duas pedras a um canto, perto de uma fresta. A cor enegrecida daquele canto nos diz que lĂĄ dentro se costuma acender fogo.

Maria se aproxima do boi. Ela estå com frio. PÔe as mãos no pescoço do boi, para sentir a temperatura. O boi muge, e deixa-se ser tocado. Parece estar compreendendo. Mesmo quando José o afasta dali para tirar mais feno da manjedoura e fazer uma cama para Maria. A manjedoura é dupla isto é, onde o boi come e, mais acima, numa espécie de prateleira estå outro feno de reserva. José apanha um punhado deste feno. O boi o deixa fazer tudo isso. José arranja um lugar também para o burrinho que, cansado e com fome, logo se pÔe a comer.

JosĂ© descobre por ali tambĂ©m um cĂąntaro emborcado e todo amassado. Sai com este cĂąntaro porque lĂĄ fora jĂĄ descobriu um riacho. Volta trazendo ĂĄgua para o burrinho. Depois, apanha um feixe de ramos que estĂĄ posto num canto, procura varrer um pouco o chĂŁo. Em seguida, estende o feno. Faz com ele uma enxerga, perto do boi, no canto que estĂĄ mais enxuto e resguardado. Mas percebe que o feno estĂĄ Ășmido, e dĂĄ um suspiro. Passa, entĂŁo, a procurar acender o fogo e, com uma paciĂȘncia de JĂł, vai enxugando o feno, aos punhados, conservando-o perto da fonte de calor.

Maria, sentada no banco, estĂĄ cansada e olha sorrindo. EstĂĄ tudo pronto. Maria se acomoda melhor sobre o feno fofo, com as costas apoiadas em um tronco, JosĂ© completa
 as alfaias, estendendo o seu manto como uma cortina sobre a abertura que serve de porta. É um resguardo muito precĂĄrio. Depois, oferece pĂŁo e queijo Ă  virgem, e lhe dĂĄ ĂĄgua de um cantil para beber.

– Dorme agora –lhe diz ele–. Eu ficarei acordado para não deixar o fogo apagar. Por sorte, temos ainda lenha; esperemos que ela dure e seja boa para o fogo. Assim poderemos economizar azeite para a candeia.

Maria se estende, obediente. José a cobre com o manto da própria Maria e com a coberta que ele havia posto sobre os pés dela.

– Mas tu
 ficarás com frio, tu.

– Não, Maria. Eu estou perto do fogo. Procura descansar. Amanhã tudo será melhor.

Maria fecha os olhos sem insistir. José se acomoda em seu canto, sobre o banco, com uns gravetos ao lado. São poucos. Não creio que durem para muito tempo.

Na gruta estĂŁo colocados assim: Maria Ă  direita, com as costas para a porta, meio escondida pelo tronco e pelo corpo do boi, que estĂĄ deitado sobre um estrado de palha. JosĂ© estĂĄ Ă  esquerda, virado para a porta, portanto em diagonal, tendo o rosto voltado para o fogo, e as costas para Maria. Mas ele, de vez em quando, se vira para olhar para ela, e a vĂȘ quieta, como se estivesse dormindo. JosĂ© vai quebrando devagar os seus gravetos, jogando, um por um, sobre o pequeno fogo, a fim de que nĂŁo se apague, para que produza alguma luz e para que a lenha dure mais. NĂŁo se vĂȘ mais do que uma claridade, ora mais viva, ora mais fraca, vinda do fogo, que estĂĄ se apagando, e naquela penumbra, sĂł se destaca mesmo a brancura do boi, do rosto e das mĂŁos de JosĂ©. Tudo o mais Ă© apenas uma massa confusa dentro da pesada penumbra.

28.6 – Não há ditado –diz Maria–. A visão fala por si mesma. A vós compete compreender a lição de caridade, humildade e pureza que emana dela. Descansa. Descansa velando, como eu velava, esperando Jesus. Ele virá trazer-te a Sua paz.

Anotação

Lucas 2:4-5:

José também subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, para a Judeia, para a cidade de David, chamada Belém. Porque ele era da casa e da linhagem de David. Foi registar-se com Maria, que lhe tinha sido dada em casamento e que estava gråvida.

Palavras-chave

EMF 28.6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Não há ditado –diz Maria–. A visão fala por si mesma. A vós compete compreender a lição de caridade, humildade e pureza que emana dela. Descansa. Descansa velando, como eu velava, esperando Jesus. Ele virá trazer-te a Sua paz.

Detalhe

Maria e José vão a Belém para o edital de recenseamento. Era inverno e tinham encontrado a manjedoura em Belém. Após a visão, Maria diz a Maria:

Palavras-chave

EMF 29

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

TĂ­tulo do capĂ­tulo : O nascimento de Jesus. O poder salvador da maternidade divina de Maria.

Data da visão e do ditado: Terça-feira 6 de junho de 1944

CalendĂĄrio: Quarta-feira 11 de dezembro - 5 d.C.

Local (mapa) : Belém

Ciclo: Nascimento e infĂąncia de Jesus

Resumo: Maria e JosĂ© estĂŁo na manjedoura em BelĂ©m. JosĂ© adormeceu, mas Maria nĂŁo. Ela vĂȘ que o marido estĂĄ a dormir e sorri largamente, depois coloca-se discretamente em posição de oração. A Virgem reza intensamente. JosĂ© acorda finalmente e dirige algumas palavras a Maria, para ver se ela precisa de alguma coisa. Depois, tambĂ©m ele decide rezar Ă  lareira.

A luz da lua chega a Maria e, a certa altura, ela levanta a cabeça, como se respondesse a um chamamento. Sorriu e a luz tornou-se cada vez mais forte, envolvendo-a completamente. Quando a luz se tornou suportåvel para Maria, a Imaculada Conceição segurou o seu Filho nos braços. O bebé chorou e ela chamou o marido. Ele foi como que atingido por um raio quando viu o Salvador, mas Maria convidou-o a aproximar-se e ofereceu-o ao Pai com José. Ela confia então Jesus ao seu suposto pai, enquanto ele vai buscar as faixas. A princípio, ele foi muito reservado, com medo de ser desrespeitoso, mas assim que o teve nos braços, abandonou a sua intenção inicial e cuidou dele como se fosse a menina dos seus olhos. Juntamente com Maria, colocam-no em faixas e envolvem-no num cobertor que aqueceram à lareira, e então a Mãe pergunta, com razão, onde vão colocar o Menino. José sugere então que o coloquem numa manjedoura ao lado do boi, porque a madeira o protegeria das correntes de ar, o feno serviria de almofada e o hålito do animal, que era calmo e tranquilo, o aqueceria um pouco. E assim fizeram. E depois ambos adoraram o Redentor que tinha descido do Céu para nos salvar.

Maria då então um ditado a Maria. Anuncia a Maria um tempo de sofrimento, mas diz-lhe que é através do sofrimento que se ganha a paz, "bem como a graça para nós e para os outros". Fala de Jesus Homem que, depois da Paixão, voltou a ser Jesus Deus, mas que não teve paz no momento da sua provação, porque de outra forma não teria sofrido.

Depois a Mãe då uma lição para todos, explicando como participou na redenção das mulheres através da sua maternidade divina.

Ela venceu o orgulho, humilhando-se atĂ© ao mais profundo do seu ser. Ela venceu a ganĂąncia dos nossos primeiros pais, entregando antecipadamente o seu Filho. Ultrapassou a ganĂąncia do conhecimento e do prazer, aceitando saber apenas o que Deus queria que ela soubesse. A plenitude da Graça venceu a luxĂșria, que Ă© a gula levada ao ponto da gula. Por fim, deu a paz Ă  mulher aos pĂ©s da Cruz, quando viu o seu Filho morrer. A Virgem morreu nesse momento, para se tornar a MĂŁe da Graça.

Sublinha que foi pelas mulheres que ela fez tudo isto, para que nĂłs nos tornĂĄssemos santos de Deus.

Índice do capĂ­tulo: 29.1: Maria e JosĂ© em oração. 29.2: Uma luz transfigura Maria. 29.3: O menino nasce numa luz deslumbrante. 29.4: A criança Ă© oferecida a Deus e entregue a JosĂ©. 29.5: Apressa-se a protegĂȘ-lo do frio. 29.6: É no sofrimento que se ganha a paz. 29.7: Eu redimi o quĂĄdruplo pecado de Eva. 29.8: A humildade contra o orgulho. 29.9 : A renĂșncia contra a avareza. 29.10: A fome de Deus contra a gula. 29.11: A castidade contra a luxĂșria. 29.12: A paz obtida aos pĂ©s da cruz. 29.13: A participação na redenção.

Palavras-chave

EMF 29.1-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Vejo ainda o interior deste pobre refĂșgio rochoso, onde JosĂ© e Maria encontraram o abrigo que compartilham com animais.

Um pequeno fogo estĂĄ cochilando junto ao seu guardiĂŁo. Maria levanta um pouco a cabeça da enxerga, e olha. VĂȘ JosĂ© com a cabeça inclinada sobre o peito, como se estivesse pensando, e ela tambĂ©m acha que o cansaço deva ter vencido a sua boa vontade em ficar acordado todo o tempo. Maria sorri com um sorriso cheio de bondade e, fazendo menos barulho do que pode fazer uma borboleta ao pousar sobre uma rosa, se pĂ”e sentada e, depois de sentada, se pĂ”e de joelhos. Reza com um sorriso feliz em seu rosto. Reza de braços abertos, nĂŁo propriamente cruzados, mas quase, e com as palmas viradas para o alto e para a frente. Nem parece ficar cansada naquela penosa posição. Depois, se prostra com o rosto contra o feno, em uma oração ainda mais intensa. É uma longa oração.

JosĂ© desperta. VĂȘ que o fogo estĂĄ quase apagado e a gruta estĂĄ ficando escura. Joga um punhado de gravetos bem finos, e a chama se ergue de novo; procura depois uns galhos mais grossos, porque o frio deve ser de gelar. É o frio da noite serena de inverno, que entra por todos os lados da gruta. O pobre JosĂ©, perto da porta (chamamos assim de porta a abertura sobre a qual estĂĄ estendido seu manto) deve estar se enregelando. Ele aproxima as mĂŁos da chama, desata as sandĂĄlias, aproxima tambĂ©m os pĂ©s. Procura aquecer-se. E, quando o fogo jĂĄ estĂĄ bem vivo, sua luz firme, vira as costas. Mas agora nĂŁo vĂȘ nada, nem mesmo a brancura do vĂ©u de Maria, que antes formava uma linha clara sobre o feno escuro. PĂ”e-se de pĂ© e, lentamente, vai-se aproximando da enxerga.

– Não estás dormindo, Maria? –ele pergunta.

Faz a mesma pergunta trĂȘs vezes, atĂ© que Maria estremece, e lhe responde:

– Estou rezando.

– Não estás precisando de nada?

– NĂŁo, JosĂ©.

– Procura dormir um pouco. Ou, pelo menos, descansar.

– Vou procurar. Mas rezar não me cansa.

– AtĂ© logo, Maria.

– AtĂ© logo, JosĂ©.

Maria volta à sua posição. José, para não cair de novo no sono, pÔe-se de joelhos perto do fogo, e reza. Reza apertando as mãos sobre o rosto. Tira-as, cada vez que precisa alimentar o fogo, voltando à sua fervorosa oração. Com exceção do barulho da lenha que crepita no fogo e o do burrinho que, de vez em quando, bate um casco no chão, não se ouve mais nada.

29.2 Um pouco de luar estå entrando por uma fenda do teto, e parece a lùmina de alguma prata imaterial, que vai-se aproximando de Maria. A lùmina vai-se alongando, à medida que a lua vai ficando mais alta no céu e, finalmente a alcança. Agora, jå estå sobre a cabeça da orante, ornando-a com uma auréola de luz.

Maria levanta a cabeça, como se tivesse sido chamada por uma voz do céu, e se pÔe de novo de joelhos. Oh! Como é belo aqui. Maria ergue de novo a cabeça, que parece estar brilhando, à luz branca da lua, e um sorriso não humano a transfigura. Que é que ela estarå vendo? Que estarå ouvindo? Que estarå experimentando? Somente Ela poderia dizer o que estå vendo, ouvindo e o que experimentou na hora esplendorosa de sua maternidade. Eu vejo apenas a luz crescendo sempre mais, ao redor dela. Parece descer do Céu, saindo das pobres coisas que estão ao redor, e parece emanar dela mesma, ainda mais.

Sua veste, de um azul escuro, parece agora de um suave celeste de miosĂłtis. Suas mĂŁos e seu rosto parecem ficar de um azul muito delicado, como os de alguĂ©m que fosse colocado sob o foco de uma imensa safira clara. Esta cor, ainda mais tĂȘnue, me faz lembrar as cores das minhas visĂ”es do santo ParaĂ­so, e tambĂ©m a cor da chegada dos Magos, uma cor que vai-se difundindo sobre as coisas e as vestes, purificando tudo, e tornando-as resplandecentes.

A luz, que se desprende sempre mais do corpo de Maria, absorve a luz da lua, e parece que ela atraia a si toda a luz do CĂ©u. Agora ela Ă© a depositĂĄria da Luz. É ela que deve dar esta Luz ao mundo. E esta Luz beatĂ­fica, incontrolĂĄvel, imensurĂĄvel, eterna e divina, estĂĄ para ser dada, e se anuncia como uma luz de aurora crescendo, um coro de ĂĄtomos aumentando, a marĂ© subindo, a nuvem do incenso espalhando-se, para descer depois como uma enchente e estender-se como um vĂ©u


O teto, cheio de fendas, teias de aranha, entulhos que em cima se estendem para a frente, estão em equilíbrio por um milagre da eståtica, esse teto que antes era tão enegrecido, enfumaçado e repelente, estå parecendo agora o teto de uma sala real. Cada uma das grandes pedras é um bloco de prata, cada fenda é um lampejar de opalas, cada teia de aranha é um baldaquim precioso, confeccionado com prata e diamantes. Uma lagartixa grande e verde, que estå dormindo em letargia entre duas pedras, parece um colar de esmeraldas esquecido por alguma rainha. Um cacho de morcegos, também em letargia, parece um precioso lampadårio de Înix. O feno, que estå na manjedoura de cima, jå não é mais uma erva: são fios e mais fios de prata pura, que tremulam no ar com a graça de uma cabeleira solta.

A manjedoura de baixo estĂĄ com sua madeira de cor escura transformada em bloco de prata brunida. As paredes estĂŁo cobertas de um brocado no qual a alvura da seda desaparece sob o bordado opalino do relevo, e o solo
 o que Ă© o solo agora? É um cristal que possui luz branca acesa em si mesmo. As saliĂȘncias sĂŁo como rosas de luz projetadas em homenagem ao solo; e os prĂłprios buracos sĂŁo vasos preciosos, de onde devem emanar aromas e perfumes.

29.3 A luz vai-se tornando cada vez mais forte. Ela fica insuportåvel para a vista. A virgem desaparece nela, como se estivesse sendo absorvida por um véu incandescente
 e dele surge a mãe.

Sim. Quando a luz volta a ser suportĂĄvel aos meus olhos, vejo Maria com o Filho recĂ©m-nascido nos braços. Um pequenino, todo rĂłseo e gorducho, que agita os braços e esperneia. Tem as mĂŁozinhas do tamanho de botĂ”es de rosa e seus pezinhos caberiam na corola de uma rosa. Ele solta vagidos com sua vozinha trĂȘmula, como a de um cordeirinho que acaba de nascer, abrindo a boquinha, que mais parece um moranguinho selvagem, e mostrando a linguinha que bate repetidamente contra o vĂ©u palatino. Move a cabecinha loira, que me parece quase sem cabelos, essa cabecinha redonda que a mamĂŁe sustenta na palma de sua mĂŁo, enquanto olha o Menino e o adora, chorando e rindo ao mesmo tempo, e se inclina para beijĂĄ-lo nĂŁo em sua cabecinha­, mas em seu peito, onde estĂĄ batendo seu coraçãozinho, batendo por nĂłs
 Ă© nesse coração em que um dia haverĂĄ uma ferida. E Maria, com antecipação, jĂĄ medica tal ferida, com seu beijo imaculado de mĂŁe.

O boi, despertado pela claridade, levanta-se, fazendo um grande barulho com seus cascos, e muge, enquanto o burrinho vira a cabeça e urra. É a luz que os desperta, mas eu gosto de pensar que eles quiseram saudar o seu Criador, por si mesmos, mas tambĂ©m por todos os animais.

29.4 Também José que, quase extasiado, estava rezando de um modo tão recolhido, que nem notou o que estava acontecendo ao redor, volta a si da oração, vendo filtrar-se aquela estra­nha­ luz entre os dedos das mãos, que estão unidas sobre o rosto. Tira, então, as mãos do rosto, levanta a cabeça e se vira para trås. O boi, que agora se pÎs de pé, estå escondendo Maria. Mas ela diz:

– JosĂ©, vem cĂĄ.

JosĂ© se aproxima dela. E, ao ver, pĂĄra dominado por um sentimento de reverĂȘncia, e estĂĄ para cair de joelhos lĂĄ mesmo no lugar em que estĂĄ. Mas Maria insiste, dizendo:

– Vem cĂĄ, JosĂ© –e, firmando a mĂŁo esquerda sobre o feno, com a direita ela segura apertado contra o seu coração o Menino. Levanta-se entĂŁo, indo ao encontro de JosĂ©, que caminha tropegamente, embaraçado pelo contraste do seu desejo de aproximar-se e o temor de ser irreverente.

Aos pés do catre, os dois esposos se encontram e olham um para o outro, num só e feliz pranto.

– Vem, vamos oferecer Jesus ao Pai –diz Maria.

Enquanto José se ajoelha, ela se pÔe de pé entre dois troncos que sustentam o teto, levanta o Filho em seus braços, e diz:

– Eis-me aqui, Senhor. Por Ele, Ăł Deus, eu te digo esta palavra. Eis-me aqui para fazer a tua vontade. Com Ele estamos eu, Maria, e JosĂ©, meu esposo. Eis-nos aqui, teus servos, Senhor! A tua vontade seja feita sempre por nĂłs, em toda hora e em todos os acontecimentos, para a tua glĂłria e pelo teu amor.

Depois, Maria se inclina e diz:

– Toma-o, JosĂ© –oferecendo-lhe o Menino.

– Eu? Tu o entregas a mim? Oh! não! Eu não sou digno.

José estå completamente apavorado, e se sente aniquilado, só diante da idéia de ter que tocar em Deus.

Mas Maria insiste com ele, sorrindo:

– Tu Ă©s bem digno disso, sim. NinguĂ©m mais do que tu. Por isso Ă© que o AltĂ­ssimo te escolheu. Toma-o, JosĂ©, e segura-o, enquanto eu vou buscar as roupinhas.

JosĂ©, vermelho como escarlate, estende os braços e pega aquele embrulhinho de carne que estĂĄ gritando de frio e, quando jĂĄ estĂĄ com ele nos braços, nĂŁo se deixa mais levar pela vontade de tĂȘ-lo afastado do seu corpo pelo respeito, mas o aperta ao coração, dizendo numa grande explosĂŁo de pranto:

– Ó Senhor! Ó meu Deus!

Ao inclinar-se para beijar-lhe os pezinhos, percebe que eles estĂŁo frios e, entĂŁo, senta-se no chĂŁo e o pĂ”e em seu colo procurando cobri-Lo com a veste marrom e as mĂŁos, aquecendo-O e defendendo-O do vento frio da noite. Ele bem que gostaria de ir para perto do fogo, mas passa por lĂĄ aquela corrente de ar da entrada. É melhor ficar por aqui mesmo. É melhor, aliĂĄs, ficar entre os animais, que servem de escudo contra o ar, e que produzem calor. Assim pensando, coloca-se entre o boi e o jumento, com as costas para a porta, inclinando-se sobre o RecĂ©m-Nascido, fazendo do seu peito um nicho, cujas paredes laterais sĂŁo: uma cabeça cinzenta com longas orelhas­ e um grande focinho branco, com um nariz que solta vapor quente, e olhos Ășmidos, cheios de bondade.

29.5 Maria abriu o baĂș, tirando linhos e cueiros. Depois foi para perto do fogo, e aqueceu os panos. Vai entĂŁo a JosĂ©, envolvendo o Menino naqueles tecidos mornos e no seu vĂ©u para proteger-lhe a cabecinha.

– Onde vamos colocá-lo agora? –ela pergunta.

José estå olhando ao redor, pensativo


– Espera! –diz ele–. Vamos afastar um pouco os animais e o feno deles. Depois jogamos para baixo aquele feno que estĂĄ no alto colocando-o aqui dentro. A madeira da beirada protegerĂĄ o Menino do ar frio, o feno lhe servirĂĄ de travesseiro, e o boi com o seu hĂĄlito o aquecerĂĄ um pouco. Para isso, Ă© melhor o boi. Ele Ă© mais paciente e sossegado.

José pÔe mãos à obra, enquanto Maria nina o seu Menino, apertando-o ao coração, conservando sua face sobre a cabecinha para dar-lhe mais algum calor.

José atiça o fogo, sem economizar mais a lenha, para conseguir uma boa chama, esquentar o feno, e à medida que o feno se enxuga ele o coloca no peito, para que não se esfrie. Depois, quando jå apanhou o bastante para fazer um colchãozinho para o Menino, vai até a manjedoura e o pÔe, de modo a tomar a forma de um pequeno berço.

– Está pronto! –diz ele–. Agora precisaríamos de uma coberta, para cobrir o Menino, pois o frio está forte


– Toma o meu manto –diz Maria.

– Mas tu ficarás com frio.

– Oh! NĂŁo faz mal! O cobertor Ă© ĂĄspero demais. O manto Ă© macio e quente. Eu nĂŁo tenho frio algum. Mas quero que Ele nĂŁo sofra mais!

José pega, então o grande manto de lã macia, de cor azul clara, e o coloca dobrado sobre o feno, com uma beirada que fica pendurada para fora da manjedoura. Assim, o primeiro leito do Salvador ficou pronto.

E a mãe o leva, com passos cheios de graça e doçura, a fim de colocå-Lo na manjedoura cobrindo-O com a beirada do manto, que ajeita também ao redor da cabecinha descoberta, que começou a afundar-se no feno, e estava protegida apenas pelo leve véu de Maria, contra esta aspereza. Permanece descoberto somente o rostinho do tamanho do punho, e os dois, inclinados sobre a manjedoura, o ficam olhando felizes, enquanto ele dorme o seu primeiro sono, porque o calor bom dos cueiros e do feno lhe acalmou o choro, e o doce Jesus conciliou o sono.

Detalhe

Nascimento de Jesus: Ver 29.2-3.

Anotação

Lucas 2,6-7: Enquanto estavam ali, cumpriu-se o tempo em que ela devia dar Ă  luz. Envolveu-o em panos e deitou-o numa manjedoura, porque nĂŁo havia lugar para eles na sala comum.

Palavras-chave

EMF 29.6-13

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Maria diz:

– Eu te havia prometido que Ele te traria a paz. EstĂĄs lembrada da paz que havia em ti nos dias do Natal? De quando me vias com o meu Menino? Aquele era o teu tempo de paz. Agora Ă© o teu tempo de sofrimento. Mas tu o sabes. É no sofrimento que se conquista a paz e toda graça para nĂłs e o prĂłximo. Jesus-Homem revelou-se Jesus-Deus, depois do tremendo sofrimento da PaixĂŁo. Revelou-se como a Paz. Paz no CĂ©u, do qual Ele tinha vindo, derramada sobre aqueles que no mundo o amam. Mas, nas horas da paixĂŁo, Ele, a Paz do mundo, foi privado dela. NĂŁo teria sofrido, se tivesse tido a paz. Mas devia sofrer. Sofrer de modo completo.

29.7 Eu, Maria, redimi a mulher com a minha maternidade divina. Mas isso nĂŁo foi mais que o inĂ­cio da redenção da mulher. Negando-me a quaisquer esponsais pelo voto de virgindade, eu tinha rejeitado todo prazer de concupiscĂȘncia, e merecido a graça de Deus. Isso, porĂ©m ainda nĂŁo bastava. Porque o pecado de Eva era uma ĂĄrvore de quatro ramos: soberba, avareza, gula e luxĂșria. Todos os quatro deviam ser cortados, a fim de esterilizar a ĂĄrvore desde as raĂ­zes.

29.8 Humilhando-me profundamente, eu venci a soberba.

Humilhei-me diante de todos. Não estou falando da minha humildade para com Deus. Esta é devida ao Altíssimo por toda criatura. O Verbo de Deus a teve. Eu, uma mulher, a devia ter. Mas terås jå refletido por quantas humilhaçÔes da parte dos homens eu tive que passar, sem me defender de modo nenhum? Até José, que era justo, me havia acusado em seu coração. Os outros, que não eram justos, tinham­ pecado por murmuração a respeito do meu estado, e o baru­lho dessas palavras veio, como uma onda amarga, quebrar-se contra a minha natureza humana.

Foram estas as primeiras das infinitas humilhaçÔes que a minha vida, como mĂŁe de Jesus e do genero humano, me fizeram sofrer. HumilhaçÔes de pobreza, humilhaçÔes de uma fugitiva, humilhaçÔes pelas censuras dos parentes e amigos que, nĂŁo sabendo a verdade, julgavam fraco o meu modo de ser mĂŁe para com o meu Jesus, quando Ele se tornou jovem. HumilhaçÔes durante os trĂȘs anos do seu ministĂ©rio, humilhaçÔes cruĂ©is na hora do CalvĂĄrio, humilhaçÔes atĂ© em ter que reconhecer que eu nĂŁo tinha com que comprar o lugar e os aromas, para a sepultura do meu Filho.

29.9 Eu venci a avareza dos Progenitores, renunciando antecipadamente ao meu Filho.

Uma mĂŁe nĂŁo renuncia nunca ao seu filho, a nĂŁo ser que seja forçada. Se essa renĂșncia for solicitada ao seu coração pela PĂĄtria, pelo amor de uma esposa, ou atĂ© pelo prĂłprio Deus, ela sente o desejo de insurgir-se contra a separação. É natural. O filho cresce em nosso ventre, e nunca Ă© completamente cortada a ligação que sua pessoa tem com a nossa. Mesmo depois de cortado o canal vital que Ă© o cordĂŁo umbilical, sempre fica um elo espiritual, que nasce no coração da mĂŁe, mais vivo e sensĂ­vel do que um elo fĂ­sico, o qual se introduz no coração do filho, esticando atĂ© Ă  dor, se o amor de Deus, de uma criatura, da PĂĄtria afasta o filho da prĂłpria mĂŁe. Este elo se despedaça, dilacerando o coração, se a morte arrebata o filho de sua mĂŁe.

Eu renunciei ao meu Filho, desde o momento em que O tive. Dei-O a Deus. Dei-O a vĂłs. Eu me despojei do Fruto do meu ventre, para reparar o furto cometido por Eva, do fruto de Deus.

29.10 Eu venci a gula, tanto do saber como do gozar, aceitando saber unicamente o que Deus queria que eu soubesse, sem perguntar a mim mesma nem a Ele nada mais, alĂ©m do que foi dito. Acreditei sem investigar. Venci a gula do gozar, porque neguei a mim mesma todo sabor de sensualidade. Pus minha carne debaixo dos meus pĂ©s. Confinei a carne, instrumento de satanĂĄs, colocando satanĂĄs debaixo de meu calcanhar, a fim de fazer da carne um degrau para aproximar-me do CĂ©u. O CĂ©u! Ele era a minha meta. Era lĂĄ que estava Deus. Deus, a minha Ășnica fome. Fome esta que nĂŁo Ă© gula, mas sim, necessidade abençoada por Ele, o qual quer que a tenhamos.

29.11 Eu venci a luxĂșria, que Ă© a gula, convertida em voracidade, porque todo vĂ­cio nĂŁo contido conduz a um vĂ­cio maior. A gula de Eva, alĂ©m de reprovĂĄvel em si mesma, a conduziu Ă  luxĂșria. NĂŁo lhe bastou procurar a satisfação sozinha. Quis levar o seu delito atĂ© uma refinada intensidade, conhecendo e se fazendo mestra de luxĂșria para o companheiro. Eu inverti os termos e, em lugar de descer, sempre subi. Em lugar de fazer descer, eu sempre atraĂ­ para o alto, e do meu companheiro, um homem honesto fiz um anjo.

Agora que eu possuĂ­a Deus, e com Ele as Suas riquezas infinitas, apressei-me a despojar-me delas, dizendo: “Que seja feita a tua vontade para Ele e por Ele”. Casto Ă© aquele que se auto contĂ©m, nĂŁo sĂł na carne, mas tambĂ©m nos afetos e nos pensamentos. Eu devia ser a casta, para anular a impudica da carne, do coração e da mente. NĂŁo saĂ­ da minha reserva, para dizer a respeito do meu Ășnico Filho na terra e Ășnico Filho de Deus no CĂ©u: “Ele Ă© meu, e eu O quero.”

29.12 Contudo, isso nĂŁo bastava para obter para a mulher, a paz perdida por Eva. Aquela paz eu vo-la obtive aos pĂ©s da Cruz. Ao ver morrer Aquele que tu viste nascer. Ao sentir minhas entranhas sendo arrancadas, ao grito do meu Filho que estava morrendo, fiquei vazia de todo feminismo: nĂŁo mais carne, mas anjo. Maria, a virgem desposada com o EspĂ­rito, morreu naquele momento. Ficou a mĂŁe da graça, aquela que do seu tormento gerou e vos deu a graça a Graça. O gĂȘnero da mulher que eu tinha voltado a consagrar na noite de Natal, aos pĂ©s da Cruz conseguiu se tornar criatura dos CĂ©us.

Fiz isso por vĂłs, negando-me qualquer satisfação, ainda que santa. Eu fiz de vĂłs, se o desejais, santas de Deus, vĂłs que fostes reduzidas por Eva a fĂȘmeas nĂŁo superiores Ă s companheiras dos animais. Por vĂłs eu subi. Como fiz com JosĂ©, eu vos levei para o alto. A rocha do calvĂĄrio Ă© o meu Monte das Oliveiras. Foi dali que eu tomei o impulso para levar a alma da mulher aos cĂ©us, de novo santificada, junto com minha carne glorificada, por ter trazido o Verbo de Deus, e anulado em mim todo vestĂ­gio de Eva. Ela foi a Ășltima raiz daquela ĂĄrvore dos quatro ramos venenosos, com a raiz fincada na sensualidade, que arrastou a humanidade Ă  queda e que haverĂĄ de morder as vossas entranhas, atĂ© ao fim dos sĂ©culos, atĂ© Ă  Ășltima mulher. De lĂĄ, de onde agora eu brilho no raio do Amor, eu vos chamo, e vos indico o remĂ©dio para vĂłs vencerdes a vĂłs mesmas: a graça do meu Senhor e o sangue do meu Filho.

29.13 E tu, minha porta-voz, repousa a tua alma na luz desta aurora de

Jesus, a fim de que tenhas força para as futuras crucificaçÔes, que não te serão poupadas, porque te queremos aqui, para onde se vem através da dor; e para tão mais alto se vem, quanto mais se suporta o sofrimento, a fim de obter graça para o mundo.

Vai em paz. Eu estou contigo”.

Palavras-chave

EMF 29.10

O Evangelho como me foi revelado

Citação

CĂ©u! Ele era a minha meta. Era lĂĄ que estava Deus. Deus, a minha Ășnica fome. Fome esta que nĂŁo Ă© gula, mas sim, necessidade abençoada por Ele, o qual quer que a tenhamos.

Detalhe

diz Marie:

Palavras-chave

EMF 29.11

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Casto é aquele que se auto contém, não só na carne, mas também nos afetos e nos pensamentos.

Palavras-chave