Naim devia ter uma certa importĂąncia nos tempos de Jesus. NĂŁo Ă© uma cidade muito grande, mas bem construĂda, fechada dentro do seu cinturĂŁo de muros. Ela se estende por uma colina risonha, de pouca altitude, e Ă© uma ramificação do pequeno Hermon que, do alto, domina uma planĂcie muito fĂ©rtil, que se vai alargando para a direção do noroeste[1].
Para quem vem de Endor, chega-se atĂ© aqui, depois de ter passado a vau um pequeno rio, que deve ser um afluente do JordĂŁo. Mas daqui nĂŁo se vĂȘ mais o JordĂŁo, e nem mesmo o seu vale, porque algumas colinas o escondem, fazendo um arco, que parece um ponto de interrogação virado para leste.
Jesus para lå se dirige, por uma estrada mestra, que liga as regiÔes do lago ao Hermon e aos seus povoados. Atrås de Jesus vão caminhando muitos dos habitantes de Endor, conversando animadamente uns com os outros.
A distĂąncia que separa o grupo dos apĂłstolos dos muros jĂĄ Ă© bem reduzida: no mĂĄximo uns duzentos metros. E, jĂĄ que a estrada mestra vai em linha reta, rumo a uma das portas da cidade, e como essa porta estĂĄ escancarada, pois jĂĄ Ă© pleno dia, pode-se ver logo o que estĂĄ acontecendo do outro lado dos muros. E Ă© assim que Jesus, que estava conversando com os apĂłstolos e com o novo convertido, vĂȘ que, por entre um grande barulho de carpideiras e de semelhantes conjuntos orientais, vem chegando um cortejo fĂșnebre.
â Vamos lĂĄ ver, Mestre? âdizem muitos. E, do meio dos habitantes de Endor, muitos jĂĄ se precipitaram para ir ver.
â Vamos nĂłs tambĂ©m âdiz Jesus, condescendendo.
â Oh! deve ser um rapaz, porque, olha sĂł quantas flores e fitas estĂŁo sobre o caixĂŁo âdiz Judas de Keriot a JoĂŁo.
â Ou entĂŁo serĂĄ uma virgem âresponde JoĂŁo.
â NĂŁo. Ă certo que se trata de um jovenzinho, por causa das cores que eles colocaram no caixĂŁo. AlĂ©m disso, faltam os mirtos⊠âdiz Bartolomeu.
O funeral vai saindo para fora dos muros. Seja o que for que estiver no caixĂŁo, que vai sustentado no alto sobre os ombros dos portadores, Ă© o que nĂŁo se pode ver. Presume-se que lĂĄ esteja um corpo estendido, com suas faixas, e coberto com um lençol, pois pelo que as saliĂȘncias revelam pode-se compreender que Ă© o corpo de alguĂ©m que jĂĄ tinha chegado ao ponto mais alto de seu crescimento, porque Ă© um corpo do comprimento do caixĂŁo.
Ao lado do caixĂŁo, uma mulher de vĂ©u, amparada por parentas ou amigas, vai caminhando e chorando. Ă o Ășnico choro verdadeiro, no meio dessa comĂ©dia de choronas. E, quando uma pedra faz que um dos portadores tropece, ou um ressalto do solo faz que se sacuda o caixĂŁo, a mĂŁe geme: âOh! NĂŁo! Ide devagar! Sofreu tanto este meu menino!â, e levanta sua mĂŁo trĂȘmula para acariciar a beira do caixĂŁo, â fazer mais que isso ela nĂŁo pode â e, nĂŁo podendo fazer nada mais, ela beija os vĂ©us ondulantes e as fitas, que o vento de vez em quando agita, e que passam rolando por aquele vulto imĂłvel.
â Aquela Ă© a mĂŁe âdiz Pedro, todo compungido e jĂĄ com o brilho de uma lĂĄgrima em seus olhos atentos e bons.
Mas ele nĂŁo Ă© o Ășnico que estĂĄ com lĂĄgrimas nos olhos por causa daquela tristeza. TambĂ©m Zelotes, AndrĂ© e JoĂŁo, e atĂ© o sempre alegre TomĂ©, estĂŁo com os olhos brilhando. Todos, todos mesmo, estĂŁo comovidos. Judas Iscariotes murmura:
â Se fosse eu! Oh! Pobre de minha mĂŁeâŠ
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Jesus, cujos olhos são de uma doçura perturbadora, de tão profundos que são, vai indo para perto do caixão.
A mĂŁe, que jĂĄ estĂĄ soluçando mais forte, porque o cortejo jĂĄ estĂĄ quase chegando junto ao sepulcro aberto, O afasta com violĂȘncia, ao ver que Jesus procura tocar no caixĂŁo. No seu delĂrio, quem saberia de que ela estĂĄ com medo? Ela grita:
â Ă meu! âe, com uns olhos de louca, olha para Jesus.
â Eu sei, mĂŁe. Ă teu.
â Ă o meu filho Ășnico. Por que logo ele Ă© que foi morrer, ele que era bom e querido e a minha alegria de viĂșva? Por quĂȘ?
AĂ a multidĂŁo das carpideiras aumenta o seu choro pago, para fazerem coro com a mĂŁe, que continua a dizer:
â Por que ele, e nĂŁo eu? NĂŁo Ă© justo que quem gerou veja perecer a sua semente. A semente precisa viver, porque senĂŁo, para que terĂĄ servido que estas vĂsceras se tenham rasgado para darem Ă luz um homem? âe bate em seu prĂłprio ventre, feroz e desatinada.
â NĂŁo faças assim! NĂŁo chores, mĂŁe.
Jesus a segura pelas mĂŁos, com um forte aperto, e as prende com sua esquerda, enquanto, com a direita, toca no caixĂŁo, dizendo aos portadores:
â Parai e ponde o caixĂŁo no chĂŁo.
Os portadores obedecem, abaixando a caminha, que fica apoiada no chão por seus quatro pés.
Jesus agarra o lençol, que estå cobrindo o morto e o joga para trås, deixando descoberto o cadåver. A mãe externa sua dor, gritando o nome de seu filho e parece-me que ela estå dizendo:
â Daniel!
Jesus, sempre conservando as mãos maternas na sua, se endireita, mostra-se imponente, no fulgor de seus olhares como quando Ele opera seus maiores milagres, e, abaixando a mão direita, ordena, com toda a força de sua voz:
â Jovenzinho, Eu te digo: Levanta-te!
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O morto, do jeito que estava enfaixado, levanta-se e se assenta sobre a caminha e chama:
â MamĂŁe!
Ele a chama com a voz gaguejante e assustada de uma criança espavorida.
â Ele Ă© teu, mulher. Eu o entrego em nome de Deus. Ajuda-o a livrar-se da mortalha. E sede felizes.
E Jesus då sinais de que vai retirar-se dali. Mas, como? A multidão o detém junto ao catre, sobre o qual estå inclinada a mãe, que estå enfiando os dedos por entre as faixas, para ir mais depressa, porque o lamento de seu menino continua a implorar-lhe:
â MamĂŁe! MamĂŁe!
Por fim, a mortalha foi desfeita, desfeitas foram as faixas, jĂĄ a mĂŁe e o filho podem abraçar-se, e o fazem sem dar atenção aos bĂĄlsamos que se vĂŁo colando neles, e que a mĂŁe vai tendo que tirar do querido rosto, das queridas mĂŁos, usando as faixas, e depois, nĂŁo tendo com que revesti-lo, a mĂŁe tira o seu prĂłprio manto e o envolve nele, e tudo o que ela faz vai servindo ao mesmo tempo para acariciĂĄ-loâŠ
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Jesus olha para ela⊠olha para este quadro de amor que se formou ao lado da caminha, que agora jĂĄ nĂŁo Ă© mais fĂșnebre, e chora.
Judas Iscariotes vĂȘ esse pranto e pergunta:
â Por que estĂĄs chorando, Senhor?
Jesus vira o rosto para ele, e diz:
â Estou pensando em minha mĂŁeâŠ
O breve colóquio faz que a mulher volte ao seu Benfeitor. Ela pega pela mão o filho e o segura, porque ele estå como alguém que ainda não acabou de sair de um torpor, continuando este em seus membros, e ela se ajoelha, dizendo:
â Tu tambĂ©m, meu filho. Vamos bendizer a este Santo, que te restituiu Ă vida e Ă tua mĂŁe âe se inclina para beijar a veste de Jesus, enquanto a multidĂŁo dĂĄ hosanas a Deus e ao seu Messias, jĂĄ conhecido como quem ele Ă©, porque os apĂłstolos e os habitantes de Endor tomaram eles prĂłprios a incumbĂȘncia de dizer quem Ă© aquele que operou o milagre.
E a multidĂŁo toda, entĂŁo, exclama:
â Bendito seja o Deus de Israel. Bendito seja o Messias, que Ă© o seu Enviado. Bendito seja Jesus, Filho de Davi. Um grande Profeta surgiu entre nĂłs! Deus verdadeiramente veio visitar o seu povo! Aleluia! Aleluia!
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Finalmente, Jesus consegue escapar daquele aperto, e entrar na cidade. A multidĂŁo o acompanha, e o persegue, exigente em seu amor.
Chega correndo um homem, e saĂșda a Jesus com uma profunda inclinação:
â Eu te peço que pares em minha casa.
â NĂŁo posso. A PĂĄscoa me proĂbe qualquer parada, alĂ©m daquelas que estĂŁo marcadas.
â Daqui a pouco Ă© o pĂŽr-do-sol, e hoje e sexta-feiraâŠ
â Ă exatamente ao pĂŽr-do-sol que Eu preciso chegar Ă minha etapa. Mas Eu te agradeço da mesma forma. E nĂŁo me detenhasâŠ
â Mas eu sou o sinagogo.
â E com isto queres dizer que tens este direito. Homem: bastava que Eu me atrasasse uma hora e aquela mĂŁe nĂŁo teria reavido o filho. Eu vou aonde outros infelizes me estĂŁo esperando. NĂŁo atrases com egoĂsmo a alegria deles. Eu virei, com certeza, outra vez e ficarei contigo em Naim mais dias. Agora, deixa-me ir.
O homem nĂŁo insiste mais. E somente diz:
â EstĂĄ dito. Eu fico Te esperando.
â Sim. A paz esteja contigo e com os moradores de Naim. E tambĂ©m Ă vĂłs de Endor paz e bĂȘnção. Voltai para vossas casas. Deus vos falou por meio do milagre. Fazei que entre vĂłs aconteçam, por força do amor, muitas ressurreiçÔes para o bem em todos os coraçÔes.
Houve um Ășltimo coro de hosanas. Depois a multidĂŁo deixa Jesus ir, e Ele atravessa diagonalmente a cidade, indo sair na campina, tomando caminho para Esdrelon.