Pedro parece que estĂĄ para ter um ataque de apoplexia, de tĂŁo vermelho que ficou. Ele fica calado por uns momentos, e depois diz:
â EstĂĄ bem. EntĂŁo, dĂĄ-me o prĂȘmio. A parĂĄbola de hoje cedoâŠ
Os outros também se unem a Pedro, dizendo:
â Ă verdade. Tu nos prometeste. As parĂĄbolas servem bem para fazer-nos compreender as comparaçÔes. Mas nĂłs achamos que elas tĂȘm um sentido superior Ă s comparaçÔes.
180.5
Por que falas a eles em parĂĄbolas?
â Porque nĂŁo lhes foi concedido entender mais do que o que eu explico. A vĂłs foi concedido muito mais, porque vĂłs, meus apĂłstolos, deveis conhecer o mistĂ©rio; e por isso vos Ă© concedido entender os mistĂ©rios do Reino dos CĂ©us. Por isso, Eu vos digo: âPerguntai, quando nĂŁo entenderdes o sentido de uma parĂĄbola.â VĂłs dais tudo, e tudo vos Ă© dado, para que, por vossa vez, possais dar tudo. VĂłs dais tudo a Deus: afetos, tempo, interesse, liberdade, vida. Deus tudo vos dĂĄ para compensar-vos e tornar-vos capazes de dar tudo, em nome de Deus, a quem vos seque. Assim, a quem deu, serĂĄ dado com abundĂąncia. Mas a quem nĂŁo deu, ou sĂł deu parcialmente, ou nĂŁo deu nada, atĂ© o que ele tem lhe serĂĄ tirado.
Eu lhes falo em parĂĄbolas para que vendo, vejam apenas o que a sua vontade de aderir a Deus os faz ver. Ă ouvindo, sempre, por aquela mesma vontade de adesĂŁo, ouçam e compreendam. VĂłs estais vendo! Muitos ouvem a minha palavra, mas poucos aderem a Deus. Seus espĂritos estĂŁo carentes de boa vontade. Neles se cumpre a profecia[2] de Isaias: âOuvireis com os ouvidos, e nĂŁo entendereis; olhareis com os olhos, e nĂŁo vereis.â Porque este povo tem um coração insensĂvel, duro de ouvido, e tem os olhos fechados para nĂŁo verem e nĂŁo ouvirem, para nĂŁo entenderem com o coração e nĂŁo se converterem, para que Eu os cure. Mas vĂłs sois felizes por vossos olhos que vĂȘem e pelos vossos ouvidos que ouvem e pela vossa boa vontade! Em verdade Eu vos digo, que muitos Profetas e muitos justos desejaram ver o que estais vendo, e nĂŁo viram, ouvir o que estais ouvindo, e nĂŁo ouviram. Eles se consumiram no desejo de compreender o mistĂ©rio das palavras, mas, ao apagar-se a luz das profecias, eis que as palavras ficaram como carvĂ”es apagados atĂ© para o santo que as tinha recebido.
Somente Deus revela-se a Si mesmo. Quando a sua luz se retrai, tendo atingido a sua meta, que era a de fazer brilhar a luz do mistĂ©rio, a incapacidade de entender cobre a real verdade da palavra recebida, como as faixas de uma mĂșmia. Por isso Ă© que Eu te disse hoje cedo: âUm dia virĂĄ em que encontrarĂĄs tudo o que Eu te dei.â Agora, nĂŁo podes reter tudo na memĂłria. Mas depois a luz virĂĄ sobre ti, e nĂŁo sĂł por um instante, mas por um inseparĂĄvel conĂșbio do EspĂrito Eterno com o teu, pelo qual se tornarĂĄ infalĂvel o teu ensinamento no que se refere ao Reino de Deus. Assim como em ti, tambĂ©m nos teus sucessores, se viverem de Deus como de um Ășnico pĂŁo[3].
180.6
Agora, ouvi o sentido da parĂĄbola.
Temos quatro espĂ©cies de campos: os fĂ©rteis, os espinhosos, os pedregosos e os cheios de trilhas. Temos tambĂ©m quatro espĂ©cies de espĂritos.
Temos os espĂritos honestos, os espĂritos de boa vontade, preparados por ela e pelos bons trabalhos de um apĂłstolo, de um âverdadeiroâ apĂłstolo; porque hĂĄ apĂłstolos que tĂȘm o nome, mas nĂŁo o espĂrito de apĂłstolos, e sĂŁo mais mortĂferos para as vontades em formação, do que os passarinhos, os espinhos e as pedras. Eles fazem uma tal desordem com as suas intransigĂȘncias, com as suas pressas, com as suas censuras, com suas ameaças, que afastam os outros para sempre de Deus. Outros espĂritos sĂŁo o oposto com uma rega contĂnua de benignidades intempestivas, fazem murchar as sementes em um terreno frouxo demais. Com sua desvirilização, desvirilizam as almas de que cuidam. Mas fiquemos com os verdadeiros apĂłstolos, isto Ă©, com os de Deus. Esses sĂŁo paternais, misericordiosos, e, ao mesmo tempo, fortes como Ă© o seu Senhor. Pois bem. Os espĂritos preparados por eles e pela sua prĂłpria boa vontade, sĂŁo comparĂĄveis aos campos fĂ©rteis, limpos de pedras e espinhos, sem grama e joio, e neles prospera a palavra de Deus, e toda palavra â a semente â cria haste e espiga, dando cem, ou sessenta e alĂ©m ou ainda trinta por cento. Entre os que Me seguem, haverĂŁo esses? Certamente. E serĂŁo santos. Entre eles haverĂĄ pessoas de todas as castas e de todos os lugares, e atĂ© pagĂŁos, que darĂŁo cem por cento pela sua boa vontade, unicamente por ela, pela boa vontade de um apĂłstolo ou discĂpulo que os prepara.
Os campos espinhosos sĂŁo aqueles nos quais o descuido deixou penetrar os espinhosos enredos dos interesses pessoais, que sufocam a boa semente. Ă preciso que se vigie sempre, sempre, sempre. NĂŁo digas nunca: âOh! Eu jĂĄ estou formado, semeado, e por isso, posso ficar tranquilo, que hei de dar semente de vida eterna.â Ă preciso que se vigie: a luta entre o Bem e o Mal Ă© continua. JĂĄ tereis observado uma tribo de formigas que quer fazer seu ninho em uma casa? Ora, elas estĂŁo em cima do fogĂŁo. A mulher nĂŁo deixa mais as comidas lĂĄ, mas as coloca na mesa; e elas, entĂŁo, farejam o ar, e vĂŁo dar um assalto Ă mesa. A mulher pĂ”e as comidas no guarda-comida, e elas, pelo buraco da fechadura, passam para dentro do guarda-comida. A mulher pendura no forro as suas provisĂ”es. e elas fazem um comprido trilho ao longo das paredes e dos sarrafos, descem pela corda e comem. A mulher as queima, escalda, envenena. Depois disso fica sossegada, pensando ter acabado com elas. Oh! Se nĂŁo vigiar, que surpresa! AĂ vĂȘm vindo as Ășltimas que nasceram, e vamos começar tudo de novo. Assim Ă©, enquanto se vive. Ă preciso que se vigie para extirpar as plantas daninhas, logo que germinam. Caso contrĂĄrio, elas formam uma coberta de espinheiros e sufocam o trigo. Os cuidados com as coisas do mundo e o engano das riquezas criam o enredo, sufocam a planta da semente de Deus, e nĂŁo deixam que ela produza espiga.
Eis agora os campos cheios de pedras. Quantos haverĂĄ em Israel! SĂŁo aqueles que pertencem aos âfilhos das leisâ, como disse o meu irmĂŁo Judas com muita exatidĂŁo. NĂŁo estĂĄ neles a pedra Ășnica do Testemunho, nĂŁo estĂĄ a Pedra da Lei. EstĂĄ o pedregal das pequenas, pobres e humanas leis criadas pelos homens. SĂŁo tantas, que o seu peso transforma a Pedra da Lei em cacos. Ă uma ruĂna que impede qualquer enraizamento de semente. A raiz nĂŁo Ă© mais nutrida. NĂŁo hĂĄ terra. NĂŁo hĂĄ seiva. A ĂĄgua a faz murchar, porque estĂĄ sobre um pavimento de seixos, o Sol enche de forte calor aqueles seixos, queimando as plantinhas. SĂŁo os espĂritos dos substituidores da simples doutrina de Deus por suas complicadas doutrinas humanas. Eles atĂ© que recebem com alegria a minha palavra. No momento ficam emocionados e seduzidos por ela. Mas depois⊠Precisa um esforço herĂłico para aplainar e limpar o campo, a alma e a mente de todo aquele pedregal de retĂłricos. SĂł assim a semente criaria raiz e se tornaria uma planta vigorosa. Mas assim como estå⊠nĂŁo produz nada. Basta um simples medo de represĂĄlia humana. Basta a reflexĂŁo: âE depois? Que farĂŁo de mim os homens poderosos?â E a pobre semente, nĂŁo nutrida, fica agonizante. Basta que todo aquele pedregal comece a agitar-se com seu som vazio de centenas e centenas de preceitos, que tomam o lugar do Preceito, para que o homem pereça logo junto com a semente recebida⊠Israel estĂĄ cheio destes. Isto vem explicar-nos que ir para Deus Ă© uma coisa que estĂĄ na razĂŁo inversa da potĂȘncia humana.
Finalmente, hĂĄ os campos cheios de trilhas, de poeira e desnudos. SĂŁo os campos dos mundanos, dos egoĂstas. A comodidade Ă© a sua lei, e o prazer Ă© o seu fim. Nada de fadiga, mas dormir, rir, comer⊠O espĂrito do mundo reina sobre estes. A poeira do mundanismo cobre o terreno deles, que se torna baldio. Os passarinhos, ou seja, as dissipaçÔes, precipitam-se sobre os mil caminhos abertos para lhes tornar mais fĂĄcil a vida. O espĂrito do mundo, isto Ă©, o Maligno, bica e destrĂłi todas as sementes que caem neste terreno, aberto a todas as sensualidades e leviandades.