â (...) MamĂŁe, me contas outras coisas?âŠ
â Oh! Minha filha! Sobre que fato queres saber?
Maria fica pensando; séria e recolhida como estava, que bom teria sido que se tivesse feito o seu retrato naquela posição, para perpetuar aquela sua expressão. Sobre o rostinho infantil se refletem as sombras de seus pensamentos. Sorrisos e suspiros, raios de sol e sombras de nuvens, pensando na história de Israel. Depois ela escolhe:
â Conta-me aquela passagem de Gabriel falando a Daniel, na qual o Cristo foi prometido.
E ela fica escutando, de olhos fechados, repetindo devagar as palavras que a mĂŁe vai dizendo, como para se lembrar melhor delas. Quando Ana termina, Maria lhe pergunta:
â Quanto falta ainda para o Emanuel chegar?
â Cerca de trinta anos, querida.
â Mas, quanto tempo ainda falta! Nesse tempo, eu estarei no Templo⊠Diz-me, se eu rezasse muito, muito, muito, dia e noite, noite e dia, e quisesse ser sĂł de Deus durante toda a vida, sĂł para este fim, o Eterno nĂŁo me faria a graça de dar o Messias ao seu povo antes disso?
Ana se apressou em acrescentar estas palavras, ao ver que se marejavam de lĂĄgrimas os cĂlios de ouro da sua menina:
â NĂŁo sei, querida. O Profeta diz âsetenta semanas.â Creio que a profecia nĂŁo erra. Mas o Senhor Ă© tĂŁo bom, que eu creio que, se rezares muito, muito, muito, Ele te atenderĂĄ.
O sorriso volta ao rostinho, que estĂĄ levemente erguido para a mĂŁe, e um raiozinho de sol estĂĄ passando por entre duas folhas da videira, fazendo brilhar as lĂĄgrimas do pranto, que jĂĄ cessou, como se tivessem sido apenas gotinhas de orvalho pendentes de finos caules do musgo dos Alpes.
7.4 â EntĂŁo, eu rezarei e me farei virgem para isso.
â Mas, sabes o que significa o que estĂĄs dizendo?
â Quer dizer nĂŁo conhecer o amor de homem, mas sĂł o de Deus. Quer dizer nĂŁo ter outro pensamento, senĂŁo no Senhor. Quer dizer permanecer menina na carne, e anjo no coração. Quer dizer nĂŁo ter olhos para outra coisa, mas sĂł para olhar a Deus, ouvidos sĂł para ouvi-lo, boca para louvĂĄ-lo, mĂŁos para oferecer-lhe hĂłstias, pĂ©s velozes para segui-lo, coração e vida para doar a Ele.
â Bendita Ă©s tu! Mas, entĂŁo, nĂŁo terĂĄs filhos, tu, que gostas tanto das crianças, dos cordeirinhos e das pombinhas⊠Sabes de uma coisa? Um filho para uma mulher Ă© como um cordeirinho branco e todo encaracolado, Ă© como uma pequena pomba, com penas sedosas, boca cor-de-coral, que pode ser amado, beijado, e ouvi-lo dizer: âMamĂŁe!â
â NĂŁo importa. Eu serei de Deus. No Templo rezarei. E talvez um dia eu verei o Emanuel. A virgem, que vai ser a mĂŁe dele, como diz o grande Profeta, jĂĄ deve ter nascido, e jĂĄ deve estar no Templo⊠Eu vou ser companheira dela⊠e sua serva⊠Oh! Sim! Se, por meio da luz de Deus, eu a puder conhecer, eu quereria ser serva dela, daquela Virgem bem-aventurada! E, depois, ela traria o Filho a mim, e me levaria ao seu Filho, e eu serviria a Ele tambĂ©m. Pensa nisto mamĂŁe!⊠Eu, servindo ao Messias!!âŠ
Maria estĂĄ dominada por este pensamento, que a sublima e a aniquila, ao mesmo tempo. Com suas mĂŁozinhas cruzadas sobre o pequeno peito, com a cabecinha um pouco inclinada para a frente, e tomada pela emoção, ela parece jĂĄ uma reprodução infantil da âAnunciaçãoâ que eu vi. Ela retoma o assunto:
â Mas serĂĄ que o Rei de Israel, o Ungido de Deus, me permitirĂĄ que eu o sirva?
â Disso nĂŁo tenhas dĂșvidas! Pois, nĂŁo diz o rei SalomĂŁo: âSessenta sĂŁo as rainhas, oitenta as outras mulheres, e as pequeninas serĂŁo sem nĂșmeroâ? VĂȘ como no PalĂĄcio do Rei serĂŁo sem nĂșmero as meninas virgens que servirĂŁo ao seu Senhor.
â Oh! EstĂĄs vendo agora como devo ser virgem? Eu devo. Se Ele por mĂŁe quer uma virgem, isso Ă© sinal de que ele ama a virgindade, sobre todas as coisas. Eu quero que me ame, como sua serva, pela minhÂa virgindade, que me vai tornar um pouco semelhante Ă sua mĂŁe querida⊠Isto eu queroâŠ