« E agora estamos entrando em Betgina. Tu, tu mesmo, Filipe, que estås olhando para Mim com esses olhos suplicantes, tu irås com André pelo povoado. Enquanto vós ides, nós permanecemos junto à fonte ou na praça do povoado.
â Oh! Senhor! NĂŁo nos mandes sozinhos. Vem, Tu, conosco! âpedem-lhe os dois.
â Ide, Eu mandei. A obediĂȘncia vos ajudarĂĄ mais do que a minha presença.
215.3
⊠E entĂŁo, Filipe e AndrĂ© lĂĄ se vĂŁo, ao acaso, pelo povoado, atĂ© encontrarem um pequeno albergue, mais uma estrebaria do que um albergue, e lĂĄ dentro estĂŁo intermediĂĄrios, fazendo negĂłcios de cordeiros com alguns pastores. Eles entram e param desorientados no meio do pĂĄtio rodeado de pĂłrticos muito rĂșsticos.
Aproxima-se deles o albergador:
â Que desejais? Alojamento?
Os dois se consultam com um olhar, um olhar muito desconfiado. Muito provavelmente deve ter acontecido que, de tudo o que haviam combinado dizer, não encontram mais nenhuma palavra. Mas é o próprio André quem se lembra primeiro, e responde:
â Sim, alojamento para nĂłs e para o Rabi de Israel.
â Qual rabi? HĂĄ tantos rabis. Mas sĂŁo muito senhores. Eles nĂŁo vĂȘm aos povoados dos pobres, para trazerem sua sabedoria aos pobres. SĂŁo os pobres que devem ir a eles, e ainda Ă© um favor, quando nos suportam perto deles!
â O Rabi de Israel Ă© um sĂł. Ele vem justamente para trazer a Boa Nova aos pobres e, quanto mais pobres e pecadores forem, tanto mais Ele os procura e se aproxima deles âresponde docemente AndrĂ©.
â Mas entĂŁo nĂŁo vai amealhar dinheiro.
â NĂŁo vai Ă procura de riquezas. Ă pobre e bom. Considera cheio o dia em que consegue salvar uma alma âresponde ainda AndrĂ©.
â Hum! Ă a primeira vez que eu ouço dizer que um rabi Ă© bom e pobre. O Batista Ă© pobre, mas Ă© severo. Todos os outros sĂŁo severos e ricos, ĂĄvidos como umas sanguessugas. VĂłs ouvistes? Vinde aqui vĂłs que andais pelo mundo. Estes homens estĂŁo dizendo que hĂĄ um Mestre pobre e bom, que vem Ă procura dos pobres e dos pecadores.
â Ah! Deve ser aquele que se veste de branco como um essĂȘnio. Eu jĂĄ o vi, faz algum tempo, em JericĂł âdiz um dos intermediĂĄrios.
â NĂŁo. Aquele Ă© sozinho. Deve ser aquele de quem falava TomĂ©, porque, por acaso, ouviu falar dele com os pastores do LĂbano âresponde um pastor alto e musculoso.
â Sim! Com certeza! E ainda vem atĂ© aqui, ele que estava no LĂbano! Por estes teus olhos de gato! âexclama outro.
Enquanto o albergador fala com os seus clientes e os escuta, os dois apĂłstolos ficaram lĂĄ, no meio do pĂĄtio, como duas estacas.
215.4
Mas, afinal, um homem diz:
â Ei! VĂłs, Vinde aqui. Quem Ă©? De onde vem esse que vĂłs dizeis?
â Ă Jesus de JosĂ©, de NazarĂ© âdiz sĂ©rio, Filipe, e fica como quem espera ser escarnecido.
Mas André acrescenta:
â Ă o Messias prometido. E eu vos conjuro, para o vosso bem: ouvi-o! VĂłs falastes no Batista. Pois bem, eu fui um discĂpulo dele, e foi ele quem nos mostrou Jesus, quando ia passando, e nos disse: âAli estĂĄ o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo.â E, quando Jesus desceu para ser batizado no JordĂŁo, abriram-se os cĂ©us e uma Voz gritou: âEste Ă© o meu Filho amado, no qual ponho as minhas complacĂȘnciasâ, e o Amor de Deus desceu sobre a cabeça dele, brilhando, sob a forma de uma pomba.
â EstĂĄs vendo? Ă o Nazareno mesmo! Mas, dizei-me uma coisa, vĂłs que vos dizeis amigos deleâŠ
â Amigos, nĂŁo: apĂłstolos, discĂpulos Ă© o que somos, e mandados por Ele para anunciar sua chegada a fim de que, quem precisa de salvação vĂĄ a Ele âcorrige AndrĂ©.
â EstĂĄ bem. Mas, dizei-me uma coisa. Ele Ă© mesmo como alguns dizem, um santo, e mais santo que o Batista, ou Ă© um demĂŽnio, como dizem uns outros? VĂłs, que aqui estais juntos, se sois discĂpulos dele, nĂŁo deverĂeis estar todos juntos? Dizei porque e com sinceridade. Ă verdade que Ele Ă© um dissoluto e um beberrĂŁo? Que ama as meretrizes e os publicanos? Que Ele Ă© um nigromante e que, durante a noite, evoca os espĂritos para saber os segredos coraçÔes?
â Mas, por que perguntas isto a estes homens? âpergunta se Ă© verdade que Ele Ă© bom. Estes dois poderĂŁo levar a mal e, quando forem embora, irĂŁo dizer ao Rabi os nossos maus juĂzos e seremos amaldiçoados por Ele. Nunca se sabe!⊠Seja Deus ou o diabo que Ele seja, Ă© melhor tratĂĄ-lo bem.
Agora Ă© Filipe que fala:
â NĂłs vos podemos responder com sinceridade, porque nĂŁo hĂĄ nada de feio a esconder. Ele Ă© o nosso Mestre, Ă© o Santo dos santos. O seu dia Ă© passado nos trabalhos do ensinamento. IncansĂĄvel, Ele vai de lugar em lugar, procurando os coraçÔes. Ele passa a noite rezando por vĂłs. NĂŁo despreza a mesa e a amizade, mas nĂŁo para a sua prĂłpria vantagem e sim, para fazer que se aproximem os que de outro modo nĂŁo o fariam. Ele nĂŁo rejeita os publicanos nem as meretrizes. Mas somente para redimi-los. Ele marca o seu caminho com milagres de redenção e milagres sobre as doenças. A Ele obedecem os ventos e o mar. Mas nĂŁo precisa de ninguĂ©m para operar prodĂgios, nem de evocar espĂritos para conhecer os coraçÔes.
â E como pode? Tu disseste que os ventos e o mar lhe obedecem? Mas eles sĂŁo coisas sem entendimento. Como pode dar ordens a eles? âpergunta o albergador.
â Responde-me, homem: no teu parecer, Ă© mais difĂcil dar ordens ao vento e ao mar, ou Ă morte?
â Por JavĂ©! Mas Ă morte nĂŁo se dĂŁo ordens! No mar se pode jogar azeite, pode-se usar contra ele as velas, pode-se, se tiver juĂzo, nĂŁo querer andar sobre ele. Ao vento se podem opor as fechaduras das portas. Mas Ă morte nĂŁo se dĂŁo ordens. NĂŁo hĂĄ azeite que a acalme. NĂŁo hĂĄ vela que, colocada em nosso barquinho, faça que ele fique tĂŁo rĂĄpido, que possa escapar da morte. E para ela nĂŁo existem fechaduras. Quando ela quer vir passa, mesmo se usarmos ferrolhos. E ninguĂ©m dĂĄ ordens a esta rainha!
â E, no entanto, o mestre lhe dĂĄ ordens. NĂŁo somente quando ela jĂĄ estĂĄ perto. Mas atĂ© tambĂ©m quando ela jĂĄ pegou alguĂ©m. Um moço de Naim jĂĄ estava para ser entregue Ă boca horrĂvel do sepulcro e Ele disse: âEu te digo: levanta-te!â, e o jovem voltou Ă vida. Naim nĂŁo fica nos confins do mundo. VĂłs podeis ir lĂĄ e ver.
â Mas assim, na presença de todos?
â Sobre a estrada, na presença de toda Naim.
215.5
O albergador e seus clientes olham um para o outro, em silĂȘncio. Depois o albergador diz:
â NĂŁo serĂĄ sĂł para os amigos que Ele faz aquelas coisas?
â NĂŁo, homem. Para todos os que crĂȘem nele, e nĂŁo sĂł para eles. Ele Ă© a Piedade sobre a terra. NinguĂ©m se dirige a Ele sem receber nada. Ouvi, todos vĂłs. NĂŁo hĂĄ entre vĂłs alguĂ©m que esteja sofrendo e chorando por doenças na famĂlia, por problemas, por remorsos, tentaçÔes, ignorĂąncias? Ide a Ele, o Messias da Boa Nova. Ele estĂĄ aqui hoje. AmanhĂŁ estarĂĄ noutro lugar. NĂŁo deixeis passar, sem vos aproveitardes dela, a Graça do Senhor que passa, diz Filipe, que foi ficando cada vez mais convincente.
O albergador desgrenha os cabelos, abre e fecha a boca, aperta as franjas da cintura⊠e, finalmente, diz:
â Eu vou experimentar!⊠Eu tenho uma filha. AtĂ© o verĂŁo passado, ela estava bem. Depois, tornou-se lunĂĄtica. Vive como uma fera muda em um canto, fica sempre lĂĄ e com dificuldade Ă© que a mĂŁe a pode vestir ou pĂŽr-lhe comida na boca. Os mĂ©dicos dizem que o cĂ©rebro dela se queimou por ter tomado sol demais, e outros dizem que foi por algum amor contrariado. O povo acha que ela estĂĄ endemoninhada. Mas como, se ela Ă© uma jovenzinha que quase nĂŁo saiu daqui? Onde foi que esse demĂŽnio a pegou? Que diz sobre isso o teu Mestre? Que o demĂŽnio pode pegar atĂ© um inocente?
Filipe lhe responde com segurança:
â Sim, para atormentar os parentes e levĂĄ-los ao desespero.
â E⊠Ele cura os lunĂĄticos? Poderei esperar isso?
â Deves crer âdiz prontamente AndrĂ©.
E conta o milagre dos gerasenos, depois termina:
â Se os que eram uma legiĂŁo nos coraçÔes dos pecadores, tiveram que fugir assim, como nĂŁo haverĂĄ de fugir o que penetrou Ă força no coração de uma jovenzinha? Eu te digo, homem: para quem espera nele, o impossĂvel se torna fĂĄcil como o respirar. Eu vi as obras do meu Senhor e dou testemunho do seu poder.
â Oh! EntĂŁo, quem de vĂłs pode ir chamĂĄ-lo?
â Eu mesmo, homem. Espera-me daqui a pouco.
E André vai sem demora, enquanto Filipe fica falando.
215.6
Quando AndrĂ© vĂȘ Jesus, parado debaixo de um alpendre para proteger-se do sol implacĂĄvel, que enche a pequena praça do povoado, corre ao encontro dele, e lhe diz:
â Vem, vem, Mestre. A filha do albergador Ă© lunĂĄtica. O pai te pede que a cures.
â Mas ele me conhecia?
â NĂŁo, Mestre. NĂłs procuramos fazer que te conhecesseâŠ
â E o conseguistes. Quando alguĂ©m chega a crer que Eu possa curar um mal sem precisar de remĂ©dio, jĂĄ estĂĄ adiantado na fĂ©. E vĂłs tendes medo de nĂŁo saber fazer. Que foi que dissestes?
â Eu nem saberia te dizer. NĂłs dissemos o que pensamos de Ti e de tuas obras. Sobretudo, dissemos que Tu Ă©s o Amor e a Piedade. O mundo te conhece tĂŁo mal!
â Mas vĂłs me conheceis bem. Ă o que basta.
215.7
Chegaram ao pequeno albergue. Todos os clientes estĂŁo Ă porta, cheios de curiosidade, e no meio, com Filipe, estĂĄ o albergador, que continua a falar consigo mesmo.
Quando ele vĂȘ Jesus, corre ao encontro dele, dizendo:
â Mestre, Senhor, Jesus⊠euâŠeu creio, eu creio tanto que Tu Ă©s Tu, que sabes tudo, que tudo vĂȘs, que tudo conheces, que tudo podes e tanto eu creio, que te digo: Tem piedade da minha filha, ainda que eu tenha muitas culpas no meu coração. Que nĂŁo caia sobre a minha filha o castigo por ter sido eu desonesto na minha profissĂŁo. Mas juro que nĂŁo serei mais avarento. Tu estĂĄs vendo o meu coração com o seu passado e com o pensamento que agora tem. PerdĂŁo e piedade, Mestre, e eu falarei de Ti a todos os que vierem atĂ© Ă minha casa.
O homem estĂĄ de joelhos.
Jesus lhe diz:
â Levanta-te, e persevera nos sentimentos de agora. Leva-me Ă tua filha.
â Ă uma estrebaria, Senhor. O mormaço faz que ela fique ainda mais doente. E ela nĂŁo quer sair.
â NĂŁo importa. Eu irei atĂ© onde ela estĂĄ. NĂŁo Ă© o mormaço. Ă que o demĂŽnio percebe que Eu estou chegando.
Entram no pĂĄtio e dele passam para uma estrebaria escura e todos vĂŁo atrĂĄs. A moça, despenteada, muito magra, estĂĄ se agitando no canto mais escuro e, logo que vĂȘ Jesus, grita:
â Para trĂĄs, para trĂĄs! NĂŁo me venhas perturbar. Tu Ă©s o Cristo do Senhor e eu um dos golpeados por Ti. Deixa-me sossegado. Por que sempre vens atrĂĄs de meus passos?
â Sai dela. Vai-te embora. Eu o quero. Entrega a Deus a tua presa e cala-te!
Um urro dilacerante, um pulo e o relaxar-se de um corpo sobre a palha⊠e depois se ouvem, calmas, tristes, admiradas, as perguntas: âOnde Ă© que estou? Por que Ă© que estou aqui? Quem sĂŁo estas pessoas?â e depois esta invocação âMamĂŁeâ da jovem que se sente envergonhada por estar sem vĂ©u e com uma veste rasgada, diante da vista de muitos olhos estranhos.
â Oh! Senhor Eterno! Mas ela estĂĄ curada!âŠ
E, coisa estranha de ver-se no rubicundo e corado albergador, um pranto de menino⊠Ele estĂĄ feliz, e chora sem saber de nada mais, a nĂŁo ser beijar as mĂŁos de Jesus, enquanto a mĂŁe chora, no meio de uma coroa de filhos assombrados, e beija a sua primogĂȘnita, que ficou livre do demĂŽnio.
Os presentes estĂŁo todos num vozear e outros estĂŁo chegando para ver o prodĂgio. O curral estĂĄ cheio.
â Fica conosco, Senhor. A tarde estĂĄ chegando. Permanece debaixo do meu teto.
â Homem, nĂłs somos treze.
â Ainda que fĂŽsseis trezentos, nĂŁo faria mal. Eu sei o que queres dizer. Mas o Samuel, avarento e desonesto, morreu, Senhor. Foi-se embora tambĂ©m o meu demĂŽnio. Agora, aqui estĂĄ um novo Samuel. ContinuarĂĄ a ser o albergador. Mas como um santo. Vem, vem comigo, para que eu te honre como a um rei, como a um deus. Pois Tu o Ă©s. Oh! Bendito seja o sol de hoje que te trouxe a mim.