EMF 181.5-7 · Volume 3
O Evangelho como me foi revelado
Citação
Isto, no sentido universal. Mas para vĂłs hĂĄ um outro ainda, e vem responder Ă s perguntas que, especialmente como ontem Ă tarde, costumais fazer. VĂłs estĂĄveis perguntando a vĂłs mesmos: âMas, entĂŁo, no meio do grupo dos discĂpulos pode existir traidores?â, e tremeis de horror e de medo em vossos coraçÔes. Eles podem existir. Disso Eu estou certo.
O Semeador espalha a boa semente. Neste caso, mais do que espalhar, poder-se-ia dizer que ele âcolhe.â Porque o Mestre, que seja Eu ou que tenha sido o Batista, havia escolhido os seus discĂpulos. Como foi que houve extraviados? NĂŁo, mas pelo contrĂĄrio, eu falei mal quando chamei os discĂpulos de sementes. VĂłs poderĂeis entender-me mal. Eu vou chamĂĄ-los, entĂŁo de âcampo.â Tantos discĂpulos, tantos campos escolhidos pelo Mestre para formarem a ĂĄrea do Reino de Deus, os bens de Deus. Com esses o mestre se afadiga, para cultivĂĄ-los, a fim de que produzam cem por cento. Ele toma todos os cuidados. Todos. Com paciĂȘncia. Com amor.Com sabedoria. Com canseiras. Com constĂąncia. Ele olha tambĂ©m as tendĂȘncias mĂĄs deles. A aridez e cobiça deles. VĂȘ as teimosias e as fraquezas deles. Mas, fica esperando, espera sempre, e fortalece a sua esperança com a oração e a penitĂȘncia porque os quer levar Ă perfeição.
Mas os campos estĂŁo abertos. NĂŁo sĂŁo um jardim fechado, cercado por muros como uma fortaleza, do qual sĂł o mestre Ă© o dono, e no qual sĂł ele pode penetrar. EstĂŁo abertos. Colocados no centro do mundo, no meio do mundo e todos podem aproximar-se deles, todos podem entrar neles. Todos e tudo. Oh! Oh! Mas nĂŁo Ă© sĂł o joio que Ă© a semente mĂĄ semeada. O joio: este poderia ser o sĂmbolo da leviandade amarga do espĂrito do mundo. Mas aĂ nascem, lançados pelo Inimigo, todas as outras sementes. AĂ estĂŁo as urtigas. AĂ as tiriricas. AĂ as cuscutas. AĂ os cipĂłs-chumbo. AĂ, enfim as cicutas e os tĂłxicos. Por quĂȘ? Por quĂȘ? Que sĂŁo eles?
As urtigas: sĂŁo os espĂritos irritantes, indomĂĄveis, que ferem, por uma superabundĂąncia de venenos, e causam tanto mal-estar. As tiriricas significam os parasitas que esgotam o mestre, pois sĂł sabem rastejar e sugar, aproveitando-se do trabalho dele e prejudicando aos cheios de vontade, que certamente colheriam maiores frutos, se seu mestre nĂŁo fosse perturbado e distraĂdo pelos cuidados que dele exigem as tiriricas. Os cipĂłs-chumbo, inertes, que sĂł se levantam do chĂŁo, aproveitando-se do trabalho dos outros. As cuscutas sĂŁo um tormento no caminho, jĂĄ difĂcil, do mestre, e um tormento para os discĂpulos fiĂ©is que o acompanham. Elas se agarram a nĂłs, espetam, ferem, arranham, sĂł causam desconfiança e sofrimento. Os tĂłxicos: sĂŁo os delinquentes que estĂŁo entre os discĂpulos, aqueles que chegam a trair e a apagar a vida, como a cicuta e outras ervas venenosas. Por acaso, jĂĄ tereis visto como elas sĂŁo bonitas com as suas florzinhas, que depois se transformam em bolinhas brancas, vermelhas ou roxo azuladas? Quem diria que aquela corola estrelada, cĂąndida ou levemente rosada, com seu coraçãozinho de ouro, quem haveria de dizer que aqueles corais de todas as formas, tĂŁo parecidos com aquelas frutinhas que sĂŁo a delĂcia dos passarinhos e das crianças, sejam capazes de, quando maduras, dar a morte? NinguĂ©m. Mas os inocentes aĂ caem. CrĂȘem que todos sĂŁo bons como eles⊠colhem os frutos, comem e morrem.
Acham que todos sĂŁo bons como eles! Oh! que verdade que sublima o mestre e condena o seu traidor! Como? A bondade nĂŁo desarma? NĂŁo torna inofensivo o querer-mal? NĂŁo. NĂŁo o torna mais assim, porque o homem, que tombou como presa do Inimigo, tornou-se insensĂvel a tudo o que Ă© superior. E tudo o que Ă© superior muda de aspecto para ele. A bondade Ă© vista como uma fraqueza, em que Ă© permitido pisar, e refina sua mĂĄ vontade, refina o desejo de degolar, como, em uma fera, sĂł o sentir cheiro do sangue. TambĂ©m o mestre Ă© sempre um inocente, e deixa que seu traidor o envenene, porque nĂŁo quer e nĂŁo deixa os outros pensar que um homem seja capaz de dar a morte a quem Ă© inocente.
181.6
Dos discĂpulos, que sĂŁo os campos do mestre, Ă© que vĂȘm os inimigos. E sĂŁo muitos. O primeiro Ă© satanĂĄs. Os outros sĂŁo os servos dele, isto Ă©, os homens, as paixĂ”es, o mundo e a carne. AĂ estĂĄ o discĂpulo mais fĂĄcil de ser atingido por eles, porque ele nĂŁo estĂĄ completamente ao lado do Mestre, mas estĂĄ em cima do muro, entre o Mestre e o mundo. Ele nĂŁo sabe, nĂŁo quer separar-se completamente das coisas do mundo, da carne, das paixĂ”es e do demĂŽnio, para estar completamente com quem o leva para Deus. Sobre ele o mundo e a carne, as paixĂ”es e o demĂŽnio espalham suas sementes. O ouro, o poder, a mulher, o orgulho, um medo de ser mal julgado pelo mundo e um espĂrito de utilitarismo. âOs grandes Ă© que sĂŁo os mais fortes. E por isso eu os sirvo, para tĂȘ-los como amigos.â E se tornam delinquentes e condenados por causa de coisas tĂŁo mesquinhas!âŠ
Por que o Mestre, que estĂĄ vendo a imperfeição do discĂpulo, ainda que nĂŁo queira render-se a este pensamento: âEste vai ser o meu matadorâ, nĂŁo o elimina imediatamente do meio dos discĂpulos? Isto vĂłs perguntais:
Porque Ă© inĂștil fazer isso.. Se o fizesse nĂŁo impediria que ele continuasse seu inimigo e agora dupla e prontamente seu inimigo, pela raiva ou pela dor de ter sido descoberto, ou por ser expulso. Dor. Sim. Porque Ă s vezes o mau discĂpulo nĂŁo percebe que o Ă©. Ă tĂŁo sutil a obra do demĂŽnio, que ele nem a percebe. Ele fica endemoninhado, sem nem suspeitar de que estĂĄ sendo submetido a essa operação. Raiva. Sim. Raiva por estar sendo conhecido pelo que realmente Ă©, quando ele nĂŁo estĂĄ inconsciente do trabalho de satanĂĄs, e de seus adeptos: sĂŁo os homens que tentam o fraco em suas fraquezas, para tirar do mundo o santo, que, sĂł por sua santidade, comparada Ă s maldades deles, jĂĄ os ofende. E, entĂŁo, o santo ora e se abandona a Deus. âO que Tu permites se faça, seja feitoâ, diz ele. Somente acrescenta esta clĂĄusula: âContanto que sirva para o teu fim.â O santo sabe que virĂĄ a hora em que serĂŁo expulsos de suas colheitas os joios daninhos. Por quem? Pelo mesmo Deus, que nĂŁo permite nada alĂ©m do que Ă© Ăștil para o triunfo de sua vontade de amor.
181.7
â Mas, se Tu admites que sempre Ă© satanĂĄs e os adeptos dele⊠parece que a responsabilidade do discĂpulo diminua âdiz Mateus.
â Nem penses nisso. Se o Mal existe, existe tambĂ©m o Bem. E existe no homem o discernimento e, com ele, a liberdade.
â Tu dizes que Deus nĂŁo permite nada alĂ©m de tudo o que Ă© Ăștil para o triunfo de sua vontade de amor[2]. Portanto, tambĂ©m esse erro Ă© Ăștil, se Ele o permite, e serve para um triunfo da vontade divina
âdiz Iscariotes.
â E tu argumentas, como Mateus, que isto justifica o delito do discĂpulo. Deus havia criado o leĂŁo sem ferocidade e a serpente sem veneno. Agora, um Ă© feroz e a outra venenosa. Mas Deus os separou do homem por isso. Medita sobre isso e tira as conclusĂ”es.
Detalhe
Jesus acaba de nos dar a parĂĄbola do trigo e do joio, e o seu significado universal. Depois, volta Ă traição de JoĂŁo Batista por um dos seus discĂpulos.
Anotação
Perguntareis: "Mas pode haver traidores entre os discĂpulos? "Ver o capĂtulo anterior, em EMV 180.8. A traição de um discĂpulo de JoĂŁo Batista, que levou Ă prisĂŁo do profeta, causou grande celeuma.
Os bons acreditam que os outros são tão bons quanto eles! Ah, que verdade que eleva o mestre e condena o traidor! Durante a releitura do texto datilografado pelo padre Migliorini, Maria Valtorta anotou neste ponto "Trabalha para redimir com bondade, trabalha sem esperanças nem ilusÔes, por puro desejo de cumprir o teu dever até ao limite, trabalha para que os outros não se apercebam que este é mau, para que não o odeiem... Que lição divina o Divino Mestre då aos guias espirituais e a todos os cristãos!"
"Deus nĂŁo permite que ninguĂ©m se oponha ao triunfo da sua vontade amorosa mais do que Ă© Ăștil". Numa folha inserida na cĂłpia dactilografada, Maria Valtorta escreveu:
"Deus deu ao homem o intelecto para compreender, a razĂŁo para se orientar como criatura razoĂĄvel, a consciĂȘncia para aconselhar, a lei para saber regular-se, a liberdade para merecer o que quiser merecer: Deus e a glĂłria, ou o inferno e a condenação.
AlĂ©m disso, deu-lhe a graça ou a predestinação para a graça, para que seja um estĂmulo ou um meio de elevar as coisas abaixo enumeradas a um nĂvel capaz de lhe dar um santo gosto pelo sobrenatural e por Deus.
Ora, no homem inteligente, razoĂĄvel, consciente, livre e, sobretudo, instruĂdo na FĂ©, conhecedor do seu fim Ășltimo e da Lei divina, sĂł deve haver as acçÔes que a Lei prescreve e que o conhecimento do fim incita a praticar, tal como a razĂŁo e a consciĂȘncia as indicam como boas para todos, mesmo para os que nĂŁo conhecem a religiĂŁo revelada, a fim dea recompensa eterna que o intelecto humano, tanto mais quando iluminado pela Graça, Ă© infinitamente superior a todas as concepçÔes que um crente possa imaginar.
Mas acontece por vezes que o homem, agindo contra a razão, transforma a sua liberdade num jugo da mais cruel das escravidÔes: a do demónio e do pecado, preferindo o Mal ao Bem.
Mesmo que Deus permita que o homem faça o que quiser por sua livre vontade, para o julgar e confirmar na graça ou para julgar que merece castigo, nada diminui a culpa do homem. Com efeito, se é verdade que o homem, sob o impulso de Deus ou a instigação de Satanås, pode fazer o bem ou o mal, não é menos verdade que o homem deve seguir apenas Deus e os seus convites amorosos, pois é dele que recebeu todos os dons naturais, morais e sobrenaturais capazes de o tornar filho de Deus, herdeiro do Reino."